26/03/2021 às 00h20min - Atualizada em 26/03/2021 às 00h13min

Um Brasil fora das páginas: a história real de estupro que inspirou o livro ‘Vista Chinesa’

Tatiana Salem Levy traz em sua nova obra um caso real de estupro vivenciado por sua amiga íntima: Joana Jabace, que fala pela primeira vez ao público

Jennifer Valverde - Editado por Roanna Nunes
A esquerda está a autora Tatiana Salem Levy e a direita a diretora de TV Joana Jabace

Naquele momento em que quase morri, eu morri. Ele foi embora e eu fiquei morta. Lembro de me virar, olhar para o céu e ter a sensação de que havia morrido, de ver as estrelas, de ouvir o som, como se alguma coisa estivesse se descolando do meu corpo. Eu estava indo embora” (Trecho do livro: Vista Chinesa).


No dia 9 de março de 2021 a autora luso brasileira Tatiana Salem Levy lançou seu mais novo livro: 'Vista Chinesa', que conta a história de Júlia, uma mulher, mãe e esposa, entretanto, com cicatrizes profundas que não conseguem ser fechadas facilmente… marcas essas causadas pela violência sexual.  

Na obra, a protagonista da trama é uma arquiteta que trabalhou nas preparações do Rio 2016, e narra os acontecimentos perturbadores em uma carta aos seus filhos, que não existiam antes do fato. Com uma riqueza de detalhes agonizantes e uma história que faz com que o leitor sinta mais do que empatia, tenha repulsa, como se estivesse ali naquele momento; Levy apresenta essa trama com um detalhe ainda mais impressionante: a obra foi inspirada em um acontecimento real e a vítima, de uma forma surpreendente, expõe sua identidade ao leitor enquanto dá voz e movimento à sua dor.

 

 

A trama foi projetada a partir da história de Joana Jabace, protagonista do ocorrido na Floresta da Tijuca - Rio de Janeiro no ano de 2014. Ao final, os leitores se deparam com a pessoa inspiradora e corajosa pelo ato de revelar quem é: “Não tenho vergonha do que aconteceu. Eu quero que você escreva que isso aconteceu de verdade. E aconteceu comigo: Joana Jabace”, ressalta no texto. 

 

Jabace é uma carioca de 40 anos, diretora da TV Globo e responsável por programas como “Segunda chamada”. Também é mãe de gêmeos que vieram do casamento com o roteirista e ator Bruno Mazzeo; é amiga íntima da escritora Tatiana, de 42 anos, a quem relatou a sua dor.

 

Joana conta que em uma tarde de agosto saiu para correr no Alto da Boa Vista e no final do Muro do Alívio, paredão com esse nome por ser um ponto em que a estrada deixa de ser íngreme, um homem encostou o cano de um revólver em sua cabeça, a arrastou mata adentro e a estuprou. 

 

Entre a dor e o reconhecimento

 

Na época, Tatiana estava fora do país onde o caso ocorreu e contou em uma entrevista para a TV Puc-Rio que acompanhou ao máximo pelo telefone, tentou dar seu suporte à amiga: “Fui acompanhando aquela dor, que é uma dor muito profunda, muito forte”, relata a escritora.

 

Então, através de uma exposição de fotografias em Paris, em 2015, a escritora se deparou com um ensaio intitulado ‘Os Inocentes’, da fotógrafa Taryn Simon que apresentava retratos de pessoas que haviam sido condenadas por crimes que não haviam cometido, mas foram “reconhecidas” através de fotografias. 

 

“Muitas vezes haviam depoimentos em que essas vítimas diziam que aquelas fotografias se pareciam com o retrato falado, que por sua vez, se pareciam com a lembrança que elas tinham do criminoso”, relata Levy.

Isso fez com que a autora refletisse sobre a angústia que a diretora de TV sentia ao tentar reconhecer pessoas, sem conseguir ter a real certeza, devido ao afastamento dos fatos em sua memória e pela pressão ao redor para saber quem realmente era o criminoso. 

 

“Obviamente ela queria encontrar o culpado, mas ela queria encontrar o CULPADO. E ela tinha muito medo de, de repente, incriminar alguém que não fosse o culpado”.
 

Então, a partir desse contexto, Tatiana pensou em criar o romance e dar voz a essa dor, falar das marcas causadas por essa violência e do receio de incriminar alguém que não seja o real criminoso. A escritora relata que foi uma de suas obras mais difíceis de escrever, em termos de linguagem, de conseguir expressar ao leitor através de uma forma menos banal; só que ao decorrer do depoimento de Joana, Levy percebeu que cada detalhe afligia a amiga e não podia ignorar aquela abertura, fazendo com que ela escrevesse de uma forma menos impessoal e mais detalhada, ainda assim, sem traços sensacionalistas, o que foi algo tortuoso. 

 
 

As Joanas e Júlias espalhadas pelo Brasil

 

Segundo pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha, a pedido do FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública) no ano de 2019, cerca de 52% das mulheres não denunciam a violência (física, moral ou sexual) que sofrem e assim não contam suas histórias. De acordo com o levantamento sobre os casos de estupro  em 2019: foi contabilizado que a cada 8 minutos uma mulher é violentada, cerca de 66.123 mil vítimas de estupro e estupro de vulnerável. Um número que pode ser muito maior se contarmos com os casos que não chegam aos órgãos policiais por conta do medo de vingança, pois grande parte dos atos acontecem dentro de suas próprias casas, ou por temor de julgamentos de pessoas ao redor, até mesmo dos poderes públicos. Para Tatiana essa violência é carregada de culpa, imposta geralmente pelas pessoas próximas e até pela sociedade. 

 

“É uma violência que está associada à culpa, à vergonha. A mulher não fala porque ela acha que de alguma forma vai ser culpabilizada, por uma coisa da qual ela não tem a menor culpa”.

 

As mulheres são vítimas duas vezes: quando são agredidas e quando buscam ajuda. Entretanto, as redes de apoio como o Mapa do Acolhimento que conecta mulheres que sofreram alguma forma de abuso, como violências de gênero e doméstica, há uma equipe de psicólogas e advogadas voluntárias que as auxiliam, este é um caminho importante para o acolhimento dessas vítimas e eventual suporte para que outras possam denunciar. 

 

Além dessas instituições, a própria literatura tem um papel valioso no debate sobre esses temas que são tratados de forma tão impessoal pela sociedade e muitas vezes com certa banalidade. Ainda assim, não muda o fato de serem crescentes e atingirem muitas mulheres e meninas pelo território nacional. 

 
 

A letra que dá voz

 

Assim como o ‘Vista Chinesa’ de Tatiana Salem Levy, que ao retratar uma história real de abuso faz com que o leitor sinta quase que “na pele” o que a vítima passou, o relato da influenciadora digital e escritora Fabíola Melo também virou livro, escrito por ela mesma, intitulado 'A culpa não é sua', a autora conta sobre o abuso que sofreu e orienta mulheres e meninas a se perdoarem, mesmo não tendo nenhuma culpa, a perceberem que elas não erraram em nada e sim foram vítimas.  

 

A literatura assim como as outras artes, tem um papel importantíssimo como espaço de abertura e acolhimento às vítimas e suas famílias. O crescimento e exposição de pessoas que relatam a sua dor pode se tornar um passo fundamental para que venha a luz outros casos de mulheres incentivadas a denunciar por se sentirem seguras para tanto. Esse ideal já está se concretizando por meio da trama de Tatiana. Mulheres que já sofreram violência sexual, entre elas até na própria Vista Chinesa (RJ) a procuraram para contar suas histórias. Ainda assim, Levy enfatiza que não espera nada em relação a uma mudança social a partir de sua obra, pois sua única função foi contar uma história e é a própria trama que pode ou não trazer efeitos a partir de cada um. 


 




Referências:

https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2019/02/maioria-das-mulheres-nao-denuncia-agressor-a-policia-ou-a-familia-indica-pesquisa.shtml
https://www.bbc.com/portuguese/brasil-41617235
https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2020/10/18/anuario-brasileiro-de-seguranca-publica-2020.htm
https://www.mapadoacolhimento.org/
https://universomovieforward.com/2021/02/19/os-bastidores-de-vista-chinesa-romance-sobre-um-estupro-real/
https://www.youtube.com/watch?v=uLSq4UBi0a8
https://elle.com.br/cultura/tatiana-salem-levy-vista-chinesa

 

 


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