26/03/2021 às 03h27min - Atualizada em 26/03/2021 às 03h23min

Os impactos da pandemia para as mães solo

A vida das mulheres, que assumiram a difícil tarefa de cuidar dos filhos sozinhas 24 horas por dia nos sete dias da semana

Sara Moreira - Editado por Roanna Nunes
Foto: Getty Images
Mães solo consistem em mulheres que são as únicas ou as principais responsáveis pelos filhos. Elas que vivenciam um cotidiano muitas vezes de uma jornada tripla e de acordo com as adaptações exigidas no atual cenário do Brasil, uma situação totalmente vulnerável devido à crise na saúde pública que arruína o país e impõe o distanciamento social como medida para evitar uma maior disseminação do covid-19.
 
No Brasil, entre 400 e 500 mil crianças que nascem anualmente ficam sem o reconhecimento paterno, segundo o levantamento do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM). O número representa entre 15 e 20% do total, por isso, muitas decidem ser mães sem a imagem de um pai. O mesmo ocorre em casos de adoção ou inseminação artificial.
 
Elas são mais de 11 milhões no Brasil! As chefes de família se esforçam ao máximo para conciliar o trabalho, a maternidade, a vida financeira e a saúde mental. De acordo com dados do IBGE: mães solo negras são a maioria que enfrentam rígidas restrições de acesso à internet, moradia, educação e saúde. Durante a pandemia, a rede de apoio diminuiu e elas começaram a ver suas vidas profissionais fundidas com a vida familiar. Isso sempre aconteceu, mas desta vez, é sem espaço, tempo e respiro.
 
“Mesmo estando vulnerável à covid-19, não tenho nem a possibilidade de estar doente nesse momento. Eu trabalho e ganho por hora, além de estar sozinha com meu filho, por isso tenho muito medo de alguma coisa acontecer comigo porque não tem outra pessoa para ficar responsável por ele”, destaca Fabiana Rodrigues da Silva de 35 anos, mãe de Alex de 2 anos. “Ao mesmo tempo, não dá para parar. As necessidades do meu filho não param. Uma coisa é eu estar com fome e outra é meu filho. Como você fala para uma criança que não tem comida?”
 
Não se deve presumir que a experiência de estar em isolamento social seja a mesma para todas as mães solo, pois sempre existiram diferenças de classes, e se tornam cada vez mais óbvias quando encontradas em situações extremas. A pandemia expõe a desigualdade social de forma furiosa. As vítimas mais graves são, inevitavelmente, os trabalhadores temporários e informais, os que estão desempregados e aqueles que vivem nas regiões mais perigosas das grandes cidades.
 
Fabiana Rodrigues é professora de dança há cerca de dez anos em São Paulo e com a chegada da pandemia todos os seus contratos de trabalho foram cancelados devido ao isolamento social. Sem uma renda fixa recorreu a conhecidos para conseguir dinheiro emprestado. O alívio veio com as parcelas de R$ 1.200 do auxílio emergencial que recebeu durante três meses, entretanto, com o fim do auxílio o medo de ficar sem uma renda aumenta.
 
Este está sendo um ano muito desafiador, não só pelo fim do auxílio emergencial, mas também devido à alta inflação dos preços dos alimentos que afetou o poder de compra de todos os brasileiros e principalmente destas mães. “Sempre consegui sobreviver de dança, tinha um lugar de conforto por trabalhar com o que eu gosto e conseguir pagar minhas contas. Quando parou tudo foi muito desesperador, porque eu não sabia como iria me manter e criar meu filho”, conta a mãe de Alex.
 
Além da sobrecarga e das dificuldades financeiras, um dos impactos da pandemia ocorre na saúde mental destas mães. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU) existe uma necessidade de aumentar com urgência os investimentos em serviços para saúde mental, principalmente no período atual.
 
Seguindo o pensamento de ajudar mães solo temos o projeto “Segura na Curva das Mães”, idealizado pelo Instituto Casa Mãe e o Coletivo Massa. O objetivo da iniciativa é conectar essas pessoas com projetos que podem atendê-las.  A assistência será prestada de acordo com o tipo de ação de cada projeto parceiro,  explica Thaiz Leão, fundadora do Casa Mãe e do projeto Mãe Solo.
 
No caso de alimentação, a meta é que a família receba uma cesta básica, considerando o número de pessoas da casa, e um kit de higiene, se a contribuição for em dinheiro, o valor mínimo por mês é de R$ 150.  Thaiz Leão do Instituto Casa Mãe, afirma que o maior trabalho será encontrar mulheres onde a campanha não tem uma rede de conexão.
 
“Estamos fazendo a geolocalização dessas mulheres. Nossas maiores conexões são no Rio de Janeiro e em São Paulo, mas estamos alcançando o Brasil todo. Por meio do nosso ativismo, temos contato com redes que fazem esse trabalho em todo o país. A ideia é pegar cada grupo de mulheres e direcionar para as iniciativas que podem ajudá-las. Estamos lidando com dados muito delicados, temos que ter responsabilidade. Por isso, vamos fazer acompanhamento e monitoramento de todo o processo”, diz Thais Ferreira, do Coletivo Massa.
 
Passados mais de um ano desde o primeiro caso de coronavírus registrado no Brasil e a marca de mais de 300 mil vidas perdidas por covid-19 no país, os inúmeros desafios das mães solo nesta pandemia parecem longe do fim.
 

Para contribuir com o projeto Segura na Curva das Mães acesse o link: bit.ly/abraceasmaesdacurva 

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