26/03/2021 às 13h40min - Atualizada em 26/03/2021 às 13h33min

Sem remédio, intubações são ineficientes

Especialistas alertam sobre o baixo estoque do kit para intubação em hospitais do país e afirmam que o número de óbitos pode disparar

Isabela Mello - labdicasjornalismo.com
Foto: Breno Esaki/ Agência Saúde

Não é novidade que o Brasil está vivendo a pior fase desde o início da pandemia do corona vírus. Com números de mortes assustadores chegando à casa de 300 mil no total e um governo despreparado, já era esperado que a área da saúde entrasse em colapso outra vez.

Em janeiro, o sistema de saúde do Amazonas enfrentou seu maior obstáculo desde o início do vírus. A falta de cilindros de oxigênio nos hospitais da capital, Manaus, fez com que em dois dias morressem 31 pessoas após as mesmas terem o fluxo de ar interrompido. A falta de organização, o alto preço dos cilindros, o aumento acelerado de casos e a impossibilidade das indústrias de suprir essa grande demanda, fez com que o estado vivesse dias desesperadores.

Dois meses depois, o Brasil enfrenta mais problemas causados pelos mesmos motivos de antes.
 
Possível escassez do “kit intubação” alerta especialistas 

O baixo número de remédios essenciais como sedativos e bloqueadores neuromusculares usados na intubação de pacientes infectados pelo corona vírus preocupou médicos e especialistas. O estoque desses medicamentos começou a diminuir rapidamente nos hospitais brasileiros por conta do alto índice de internações. Midazolan, Fentanil, Rocurônio e Propofol estão entre os faltosos.

Segundo o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), a escassez dos medicamentos existe, atualmente, em todos os estados.
Marcelo Polacow, vice-presidente do CRF-SP (Conselho Regional de Farmácia do Estado de São Paulo) em entrevista à BBC News Brasil, afirmou que sem os bloqueadores musculares e sedativos não é possível intubar o paciente.

"Não são remédios substituíveis. Para colocar o tubo e oxigenar o organismo, é preciso relaxar as vias aéreas. Sem isso, não dá para fazer a entubação, nem para manter a entubação, e os índices de mortalidade (se não houver esses medicamentos) pode ser assustador.”

Em um hospital particular, na Zona Sul de São Paulo, foi emitido aos médicos um alerta para racionalizar ao máximo os sedativos, segundo um médico intensivista. O possível desabastecimento preocupou também cidades do interior como Sorocaba. Apesar do deputado federal Vitor Lippi (PSDB) afirmar que os estoques durariam apenas entre quatro a seis dias, as unidades de saúde da cidade e a Secretaria de Estado da Saúde afirmaram ter quantidade suficiente para suprir mais dias. Não foi informado quantos dias ou a quantidade de insumos exatamente. Enquanto isso, a Secretaria Estadual da Saúde, em São Paulo, informou em nota que “a pasta intensificou o monitoramento dos estoques de oxigênio, insumos e medicamentos incluindo os utilizados em pacientes entubados em unidades hospitalares para casos de Covid -19. Os hospitais estaduais estão abastecidos.”

No Paraná os hospitais públicos e particulares estão lotados.  A secretária municipal de saúde de Curitiba, Márcia Huçulak, em entrevista ao programa Meio Dia Paraná disse que a pasta está muito preocupada com o abastecimento do kit intubação.

Por causa do acelerado ritmo de casos de Covid-19, os neurobloqueadores e sedativos estão sendo muito consumidos e as indústrias não estão conseguindo suprir com a mesma velocidade essa demanda. Outra questão é que o preço desses medicamentos disparou no mercado, complicando ainda mais a venda desses produtos. De acordo com o Hospital de Clínicas de Porto Alegre, uma ampola de neurobloqueador custava aproximadamente R$ 2,00 antes da pandemia; ano passado subiu para R$ 17, e hoje chega a R$ 200 a ampola.

Minas Gerais também sentiu o reflexo do aumento de casos. Mesmo com o estoque dos remédios ser suficiente, segundo diz os hospitais da Região Metropolitana de Belo Horizonte, médicos se preocupam e afirmam que eles podem faltar a curto prazo. Rogério Saad é médico intensivista e coordenador do CTI (Centro de Terapia Intensiva) no Hospital Vera Cruz e diz “Alguns sedativos vem faltando. Não sei até quando isso vai durar não”. O Hospital Vera Cruz não tem mais vagas no CTI para pacientes infectados pelo vírus.

A Prefeitura de Belo Horizonte informou que as unidades hospitalares geridas pela Secretaria Municipal de Saúde não sofreram desabastecimento e que o monitoramento dos estoques é realizado diariamente. Não foi informado se a Secretaria tem encontrado dificuldade ao adquirir os insumos.
 
Governo não assiste de camarote, dessa vez

Tendo ciência de um possível colapso na saúde por conta do assustador número de casos e por consequência, utilização maior de medicamentos fazendo diminuir o estoque mais rápido, o Ministério da Saúde tomou algumas providências.

O Ministério da Saúde requisitou todo o estoque das fabricantes dos medicamentos, na semana passada (quinta-feira, 18), segundo um dos principais fabricantes dos insumos no Brasil. O laboratório Cristália, em nota a CNN, afirmou que precisou quadruplicar a produção de Cisatracúrio, Rocurônio, Atracúrio e Midazolam, principais medicamentos usados para intubação dos pacientes infectados, para conseguir manter o fornecimento à uma rede de mais de quatro mil hospitais públicos e privados.

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) informou por nota, no dia 19/3/21, que desde do início de 2020, já tem subsídios legais e procedimentos estabelecidos para favorecer o acesso e a disponibilidade desses produtos (anestésicos injetáveis, relaxantes musculares e sedativos) com eficácia, segurança e qualidade. Além disso, afirmou que facilitaria o registro e aprovação de produtos que possam auxiliar no manejo clínico da doença. Isso inclui a autorização de importação direta de um rol de medicamentos e dispositivos médicos não regularizados no país, de forma excepcional e temporária.

O Itamaraty, Ministério das Relações Exteriores do Brasil, mandou mensagem aos diplomatas brasileiros em embaixadas e consulados no exterior para que tentassem com máxima urgência conseguir fornecimentos dos medicamentos do “kit intubação”. Segundo ele, a Anvisa já teria consultado seus contrapartes em alguns países, mas ainda não havia recebido resposta.

Apesar de agora estar tomando providências, não se pode esquecer que em agosto de 2020, o Ministério da Saúde cancelou uma grande compra de itens de medicamentos e anestésicos do kit intubação, mesmo com pesquisas apontando que em 2021 a pandemia seria grave.  


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