03/04/2021 às 03h28min - Atualizada em 03/04/2021 às 02h23min

Fotografia Pós-Morte: uma forma diferente e artística de contar histórias

Costume vitoriano e projeto de fotógrafos retratam o pós-vida artisticamente e de forma respeitosa

Larissa Gomes - Editado por Andrieli Torres
Clayton Khan
Reprodução Internet
O Século 19 foi um período de descobertas e mudanças para a humanidade em diversos campos como a matemática, física, química, eletricidade, entre outros. Os avanços tecnológicos davam seus primeiros passos, trazendo invenções que buscavam substituir a mão-de-obra humana pelas máquinas.

Nesse cenário, o mundo todo buscava criar o que facilitasse a vida do ser humano e trouxesse progresso. Então, até hoje vemos casos de discussão do “verdadeiro” criador de determinada invenção, como o avião, por exemplo. Por isso, a história da fotografia é um tanto incerta também, mas o primeiro registro reconhecido é o do francês Joseph Nicéphore Niépce, em 1826.


Vista da Janela em Le Gras, de Joseph Nicéphore Niépce (1826). Reprodução Internet.


Tirada em preto e branco, a vista de sua propriedade em Le Gras, uma comuna francesa, foi capturada pela Heliografia, inventada pelo próprio Niépce. Anos mais tarde, o daguerretipo – versão comercial do que viriam a ser as câmeras que conhecemos hoje , criado por Louis Daguerre, começou a se popularizar mundialmente.

Com essa conquista, a humanidade finalmente conseguiu registrar seu cotidiano e cultura para as gerações posteriores de forma tecnológica, visto que esse trabalho já era feito manualmente pelos pintores. A necessidade desse registro é bem comum na história das civilizações humanas, podendo ser expressada pelos humanos que reproduziam nas cavernas cenas de caça que, além de terem propósitos religiosos de “captura” da alma do animal, marcavam seu cotidiano e sua passagem no mundo. Independente da cultura, a busca por um meio de guardar a memória de um povo foi o que ajudou no processo de desenvolvimento e transmissão de hábitos, costumes e histórias.


Arte Rupestre registrava o cotidiano e a cultura dos povos. Reprodução Internet.
 

A Fotografia Pós-Morte na Era Vitoriana

 
Alexandrina Vitória Regina nasceu em 1819 na capital inglesa, Londres, e ficou órfã de pai cedo, aos oito meses de idade. A tataravó de Elizabeth II herdou o trono jovem, com seus recém completados 18 anos, em 1837, e era pouco cogitada para ser rainha já que ocupava o quinto lugar na linha de sucessão quando nasceu. A rainha Vitória emprestou seu nome a uma era marcada por evoluções tecnológicas e pelo despontamento do Reino Unido como potência econômica mundial: a Era Vitoriana.


Rainha Vitória herdou o trono aos 18 anos. Reprodução Internet.


Nesse período, as altas taxas de mortalidade permeavam entre a população, principalmente nas crianças – cerca de 50% morria antes dos cinco anos. Inspiradas nos retratos póstumos das famílias europeias abastadas dos Séculos 17 e 18, surgiu entre os vitorianos a fotografia pós-morte.
 
“No final do século 19, o acesso à fotografia ainda era restrito e as fotos pós-morte eram uma das poucas maneiras que as famílias tinham de guardar recordações dos entes queridos”, conta o jornalista, fotógrafo e professor universitário, Clayton Khan. Esse era apenas um dos aspectos do ritual de luto entre os vitorianos que respeitavam e prezavam pela memória de seus mortos.



Família no velório de seus bebês. Reprodução Internet.


Menina falecida. Reprodução Internet.


Mulher falecida. Reprodução Internet.



Por mais estranho que possa parecer nos dias atuais, a fotografia pós-morte carregava um imenso valor sentimental e a produção fotográfica requeria muita técnica e aparatos para uma boa imagem. Faziam a composição do cenário com elementos simbólicos como flores, tecidos ou objetos especiais para aquela pessoa em vida – no caso das crianças, o brinquedo favorito.

 Apesar de circularem na internet diversas fotos que dizem ser de pós-morte na era vitoriana, alguns especialistas alertam para uma verificação da origem da imagem. Por exemplo, fotografias de pessoas em pé com um suporte nem sempre são de mortos, já que para tirar uma foto levava certo tempo e a estrutura servia para manter o fotografado parado. Outro detalhe a ser notado é de fotos com crianças. Como o processo era demorado, a agitação dos pequenos fazia com que os pais optassem por fotografá-las pela manhã, então muitas vezes uma imagem dita “pós-morte” pode ser apenas de uma criança viva com bastante sono.



Processo fotográfico com daguerreótipo. Reprodução Internet.


Ainda assim, durante os estudos e pesquisas técnicas no início da fotografia, para captar a imagem de uma pessoa com o daguerreotipo (câmera fotográfica) era extremamente difícil, pois era necessário ficar vários minutos imóvel para obter um retrato nítido. Logo, esses experimentos passaram a ser feitos com cadáveres, como conta o fotógrafo Clayton Khan. “E é nesse momento que surge a expressão ‘fotografar a alma’. Muitos acreditavam que a imagem que era produzida aprisionava o espírito do morto, por ser resultado de um processo completamente novo. A prática chegou a ser chamada de magia por muitas pessoas”, ressalta Khan.

 A era vitoriana terminou com o falecimento da rainha Vitória em 1901, com 81 anos de idade e 63 anos de reinado. Foi o segundo reinado mais longo, estando atrás somente do de sua tataraneta Elizabeth II que, atualmente, conta com 69 anos no trono real.



Rainha Elizabeth II, tataraneta de Rainha Vitória. Reprodução Internet.


Atualmente, fotografar uma pessoa morta não é visto com bons olhos, pode ser até antiético. Com os avanços da tecnologia, a fotografia é mais acessível por estar, muitas vezes, nas palmas de nossas mãos. O registro de pessoas queridas, ainda é um recurso utilizado, mas em vida, por mais que há relatos de que a prática da fotografia pós-morte ainda é cultural em alguns países e que há agências especializadas no assunto.

Entretanto, da maneira que for realizado, esse registro deve ser respeitoso culturalmente, eternizando histórias das pessoas sem retirar a dignidade delas.

O Projeto Fotográfico Escaping from Life 

 
Em uma entrevista ao programa Roda Viva, o fotógrafo Sebastião Salgado citou que “a fotografia é a memória da nossa sociedade”. Com uma visão semelhante, Clayton Khan e seu sócio Duda Maués criaram o Escaping from Life (Fugindo da Vida) há cinco anos. O projeto fotográfico nasceu do fascínio pelas escolhas de morada eterna por cada comunidade, tendo como objetivo retratar com naturalidade os ritos de passagem pós-existência terrena a partir das artes visuais.


Os fotógrafos Duda Maués (esq.) e Clayton Khan (dir.) viajam o mundo retratando como cada cultura lida com a morte. Reprodução Escaping from Life.


“É possível conhecer muito sobre o homem e sua cultura analisando a maneira com que ele inuma seus mortos, devido a riqueza cultural que envolve os ritos de sepultamento e as construções sepulcrais que apontam diferenças entre as sociedades em todo o mundo”, aponta Khan, que junto com o sócio Duda, acumula ensinamentos sobre a diversidade e riqueza nos ambientes de sepultamento - e sua consolidação como manifestação artística e preservação do patrimônio histórico, cultural e familiar.


Cemitério no Chile. Reprodução Escaping From Life.



Cemitério no Brasil. Reprodução Escaping From Life.

O projeto mostra a importância do respeito com a delicadeza nas fotografias tiradas em diversos países, contando a história das pessoas e de como cada cultura lida com a morte. Khan explica que ele e Duda nunca fotografaram nada parecido com a era vitoriana, mas se mantêm distantes quando se deparam com velórios e sepultamentos nos cemitérios fotografados.


Cemitério na Itália. Reprodução Escaping From Life.

Cemitério na França. Reprodução Escaping From Life.

Os fotógrafos já vivenciaram e retrataram um cemitério pré-incaico na cidade de Nazca, no Peru. Localizado no deserto da cidade de Nazca, o cemitério de Chauchilla é um local de sepultamento arqueológico onde estão expostos restos humanos mumificados e artefatos arqueológicos da civilização que imperou no Peru de 300 antes de Cristo a 800 depois de Cristo.



Cemitério de Chauchilla, em Nazca, Peru. Reprodução Escaping From Life.


Cemitério de Chauchilla, em Nazca, Peru. Reprodução Escaping From Life.

Nesse contato com diferentes culturas, vemos como cada povo lida com o pós-morte, seja com fotografias artísticas e sentimentais como na era vitoriana, seja com festas em memória aos mortos, como no México.

O Dia de Los Muertos, entre 31 de outubro a 2 de novembro, é uma das celebrações mais populares do país. Considerada patrimônio da humanidade pela Unesco, a manifestação reúne famílias e amigos em recepção às almas numa festividade com comidas e bebidas típicas e permeada de alegria, fantasias e altares multicoloridos. O Escaping From Life teve a oportunidade de fotografar esse momento também: “Bem diferente dos cemitérios brasileiros tomados pela melancolia e enxurradas de flores e velas no dia de finados, no México, diversas festas e alegrias invadem todos os lugares, principalmente as ruas. Uma verdadeira entrega de corpo e alma”, conta.



Dia de Los Muertos, na Cidade do México. Reprodução Escaping From Life.


Dia de Los Muertos, na Cidade do México. Reprodução Escaping From Life.


Altar para Frida Kahlo no Dia de Los Muertos, Cidade do México. Reprodução Escaping From Life.
 

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