28/05/2019 às 20h45min - Atualizada em 28/05/2019 às 20h45min

A cor do mundo

Samir Klipić, um bosniano residente de Zurique, tem espalhado adesivos post-it pelos bancos em praças da Suíça para mostrar ao público qual é a verdadeira cor do mundo.

Letícia Agata Nogueira
Samir Klipić













Imagine caminhar em parques e praças na Suíça e se deparar com um banco completamente preenchido por post-its amarelos com a frase “Le sange est rouge”, significando "O sangue é vermelho", em português. Esse é o trabalho de Samir Klipić, um bosniano que vive atualmente em Zurique, na Suíça.

                  
 
Samir sentado no bando decorado com sua arte.

Samir sentado no bando decorado com sua arte.

Homem lendo no banco decorado com a arte de Samir Klipić

Sua arte tem chamado a atenção dos suíços e estrangeiros que o encontram em praças públicas, levando-os a refletir sobre o significado.
 
"Como artista, eu quero encorajar minha família e a humanidade a pensar. Eu quero mostrar a comunidade, porque juntos somos um. Eu desejo ver reações honestas e naturais, que infelizmente não são vistas com frequência nos dias de hoje nessa era digital, nesse mundo de plástico. Eu quero juntar as pessoas. Essa sentença é para a paz: 'o sangue é vermelho'." Diz  Samir Klipić

                 
                         
      Banco decorado com adesivos post-it com a frase "le sange est rouge"

A frase de Samir é uma luta pela paz e harmonia em um mundo onde todos são diferentes. De acordo com o site Superela, existem pelo menos 8 tipos de preconceitos, sendo: racismo, homofobia/lesbofobia, bifobia, transfobia, gordofobia, elitismo/preconceito racial, machismo/sexismo e preconceito linguístico. Verifique abaixo o conceito de cada um:
 
  • Racismo: preconceito pela raça de um indivíduo;
  • Homofobia/lesbofobia: aversão por pessoas que sentem atração por indivíduos do mesmo sexo;
  • Bifobia: preconceito pela bissexualidade de uma pessoa;
  • Transfobia: repulsa os transexuais;
  • Gordofobia: aversão por indivíduos acima do peso;
  • Elitismo/preconceito racial: sentimento de superioridade carregado pela elite em relação às pessoas de nível inferior;
  • Machismo/sexismo: preconceito em relação às mulheres, colocando-as em uma posição inferior à dos homens;
  • Preconceito linguístico: ato que parte dos letrados, que debocham de iletrados ou cidadãos que não tiveram condições de aprender adequadamente a língua de seu país.
 
Além dos casos citados acima, milhares de pessoas sofrem críticas por sua cultura, religião, idade, deficiência etc. A discriminação e o preconceito são enfrentados no mundo todo, podendo ser comparados ao legado, pela possibilidade de transferência de geração a geração. Na Declaração Universal dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) de 1948, temos que:
 
 
Artigo II 
1 - Todo ser humano tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, idioma, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição. 
2 - Não será também feita nenhuma distinção fundada na condição política, jurídica ou internacional do país ou território a que pertença uma pessoa, quer se trate de um território independente, sob tutela, sem governo próprio, quer sujeito a qualquer outra limitação de soberania.  
 
Samir, entendendo a importância do respeito, usou seu trabalho como forma de enfrentar a desumanidade com as palavras, e não com armas ou ações prejudiciais ao próximo, pois, segundo ele, "já foi escorrido sangue suficiente e ainda tem muito sangue escorrendo, devido o poder da fome de pessoas negativas que seguem seus egos e sua arrogância". O artista escolheu escrever "Le sange est rouge" dezenas de vezes em adesivos post-it, pois geralmente esse material é usado para avisos importantes.

"Postei um status, uma sentença analógica nos bancos. Todos nós concordamos com essa sentença. Existe muito conhecimento e informação em volta de nós atualmente e, de alguma forma, isso nos torna pessoas mais complicadas e menos calmas e sábias. Nos tornamos mais sensíveis no sentido negativo da coisa e existem fãs indiretos dos mal-entendidos".
                   
                       
Banco decorado com a arte de Samir
 
De acordo com o entrevistado, as pessoas reagem positivamente ao seu trabalho, o trazendo uma boa sensação, pois questionamentos são ativados. Para ele, se sua arte for vista como algo bom, instigará as pessoas a fazerem coisas boas. O jovem acredita que não é difícil aceitar que todos são iguais, independente de raça, nação e riqueza "As pessoas tiram fotos e eu vejo muito rostos sorridentes. Eu preciso de mais. Em cada ser humano essa frase é como um gatilho, trazendo algo diferente. Eu gosto disso para descobrir o que as pessoas pensam, para ter um diálogo".
 
Juliana Alves, uma jovem brasileira de 18 anos, presenciou a arte de Samir em Montreux-Ville, na Suíça. Logo de início não compreendeu sobre o que a frase de impacto se tratava, mas ao refletir, considerou o trabalho interessante e uma forma pacífica de combater o preconceito. A jovem lamenta pela constante existência de preconceitos na atualidade, mas tem esperança pela paz: "Prefiro pensar positivo e manter as esperanças de que um dia seremos desenvolvidos o suficiente pra isso. Não posso afirmar nada sobre o impacto em outras pessoas, mas espero que elas também tenham se sentido motivadas a tomar atitudes para acabar com essa ou com outras formas de preconceito que ainda são muito presentes nos dias atuais". 

Juliana confessa, também, seu desejo em trazer a iniciativa para o Brasil e imaginou o possível impacto da frase em solo brasileiro:
 "A minha vontade foi trazer a iniciativa pro Brasil, mas fiquei imaginando se isso teria algum impacto aqui, já que a cultura na Suíça é bem diferente. Acho triste que ainda existam demonstrações de racismo em pleno século XXI. Nós precisamos evoluir".

Por enquanto a arte de Samir só em feita em bancos próximos ao lagos da Suíça, pela passagem frequente de turistas de diversos países, mas o bosniano sonha em ter sua própria coleção de roupas com a frase “le sange est rouge", para que o mundo todo veja e reflita.  É possível, através da reflexão, uma avaliação de cada pessoa sobre si mesma e, a partir disso, ações internas e externas poderão ser tomadas, afim de tornar o mundo um lugar melhor.


Editado por Bruna Santos

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