29/05/2019 às 18h11min - Atualizada em 29/05/2019 às 18h11min

Pode a moda militar ?

Momentos em que a moda assumiu o papel social e criticou comportamentos sociais

Beatriz Oliveira
Ronaldo Fraga relembrou tragédia em Mariana durante SPFW de 2018

São diversos os momentos em que a moda e a militância andaram e andam de mãos dadas. Partindo da idéia de que a moda é uma forma de expressão cultural, e que toda forma de expressão mostra dores e amores de uma sociedade, a cultura serve justamente para apresentar a luta e críticas a sociedade e governo. Então, podemos dizer que a moda tem o papel  de colocar nas passarelas as lutas sociais.

 

Mas será que em alguns momentos a moda não usou dos assuntos do momento para se promover? Será que grandes revistas do universo feminino não estão apostando suas fichas no feminismo pois o movimentos se encontra no momento de ascensão?

 

No último SPFW tivemos o polêmico desfile do estilista Ronaldo Fraga. A coleção inspirada no quadro "Guerra e paz" de Candido Portinari, foi apresentada por casting negro, na passarela as peças estamparam a ex vereadora carioca Marielle Franco, assassinada a tiros em março de 2018, com um alvo e o rosto alvejado.

O que era para ser uma homenagem gerou um mal estar com a família da vereadora, que não foi previamente comunicada sobre a coleção. "Eu realmente não entendo quase nada de como funciona o mundo da moda. Mas me incomodei com a imagem da minha irmã sendo mais uma vez exposta sem aviso prévio da família", disse Anielle Franco em suas redes sociais.

 

Ronaldo Fraga, sempre muito consciente das causas sociais já apresentou outras coleções com aspecto de militância. Após o desfile de 2019, defendeu-se dizer que Portinari não ignoraria o genocídio negro e que a moda pode falar de tudo, do belo a vida real. Fato é que o desfile levou o debate sobre a violência contra negros para a elite branca que frequenta o SPFW.

 

O estilista é famoso por desfiles carregados de críticas sociais, em 2016 ele levou as passarelas uma coleção com o seguinte nome "O corpo aprisiona, as roupas libertam o ser”. O desfile-manifesto contava com modelos transgêneros e levou a reflexão sobre a realidade em que muitas pessoas não se encontram em seus corpos e buscam refúgio nas peças de roupas para revelarem sua verdadeira identidade.

Após esse desfile Ronaldo declarou “Nós não precisamos mais de roupas. A moda precisa começar a dialogar em outras frentes". Com isso podemos ver jogar foco na moda com a função de empoderamento e representatividade.

Em 2016 também, Jeremy Scott apresentou um desfile com a grife Moschino um desfile que popularizou a expressão fast fashion, a coleção criticou o consumismo desenfreado. Além disso, as redes de fast food foram apresentadas na discussão, com os paradigmas que envolvem a alimentação, como a obesidade.

 

Nas peças, o M do Mc Donald’s transformou-se no M da marca e embalagens de alimentos industrializados tornaram-se vestidos. Essa crítica aos fast food foi bastante aclamada, principalmente por acontecer em uma ambiente que dita os padrões de beleza abusivos.


Desde o período pós-guerra, a moda é usada para manifestar e reivindicar as causas que a sociedade acredita ser importante. Embora atualmente a moda seja vista como apenas um padrão de beleza e tendência, essa não é a sua única função.

 

Não podemos falar de moda militante sem mencionar Zuzu Angel, a estilista brasileira ficou conhecida após a morte de seu filho, Stuart Angel, por militares durante a ditadura. A partir desse momento ela usou o trabalho na moda como forma de expressar a tortura e terror vivenciados no Brasil.

Cabe ao espectador aplaudir os casos que a moda realmente está se preocupando com a vida real. Marcas que além de dar visibilidade as minorias, sejam negros, gordos, LGBTs, deficientes e outros perfis, colocam essas pessoas para trabalhar em suas empresas nos mais variados cargos e principalmente na área de criação, merecem o nosso apoio. Marcas que prezam o consumo consciente e repudiam o trabalho escravo devem ter o apoio da população.

 

Devemos avaliar e perceber os momentos dos quais a moda usa de forma oportunista uma causa para se promover ou quando aquela crítica ou iniciativa realmente faz parte da ideologia da marca e o debate é levado ao público.

 

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