12/06/2021 às 01h05min - Atualizada em 10/06/2021 às 11h29min

Resenha Torto Arado: Autor utiliza do passado para refletir desigualdades sociais e raciais do presente

Livro de Itamar Vieira, lançado em 2019, foi premiado três vezes

Juliete Fechine - Revisado por Isabela dos Santos
Escritor Itamar Vieira e a capa do livro. (Foto/Reprodução)

Os mesmos infortúnios unia os moradores e trabalhadores da fazenda em Água Negra, rodeados de privações. Por isso, usavam como escapatória a esperança de achar diamantes e mudar de vida. Se debruçaram sobre o vasto conhecimento aprendidos da labuta na roça. Viviam da alegria das festas religiosas e tentavam sobreviver ao cenário desumano e violento em sua estrutura. Tomando rumos de luta e força tempestuosa, apesar do medo, resistiam ou sucumbiam.

Lançado em 2019 no Brasil e premiado três vezes (Leya, Jabuti e Oceanos), o livro Torto Arado retrata a história de redenção de um grupo de moradores no sertão baiano. Soma a voz de três narradoras femininas sendo duas delas - Bibiana e Belonísia, para contarem suas respectivas histórias e visões da vida que levavam, esclarecendo características fortes do cenário. A outra narradora é uma encantada, destacando a influência da religiosidade para aquelas pessoas. Com o olhar minucioso e notável percepção do escritor, a medição do passado tenta trazer a reflexão para o estado de desigualdade social do presente.

Entre a ficção e a realidade

“Então, foi assim que passaram a chamar os escravos de trabalhadores e moradores. Não poderiam arriscar, fingindo que nada mudou, porque os homens da lei poderiam criar caso”. A obra do geógrafo e doutor Itamar Vieira tem especial utilidade na reflexão de problemas como injustiça social e racial, opressão, abandono e silenciamento violento no Brasil. A vida dos personagens se identifica com a vida de pessoas reais que entendem bem que talvez “nada mudou”.

É interessante explicitar o uso como pano de fundo, os problemas que atravessam os limites do ficcional e se demonstram na realidade. O uso de cenários e personagens da época pós-abolicionista ajuda a legitimar lutas diante das desigualdade sociais e raciais, servindo como referência para entendermos melhor os dramas e angústias de quem ainda sofre com estes mesmos problemas.

Narrativa

A narrativa é detalhista e inicia com o interesse das irmãs Bibiana e Belonísia, filhas de Zeca Chapéu um lider espiritual e de Salustiana a doula da comunidade, sobre o que teria dentro de uma mala, que pertencia a avó. A descoberta do mistério marca a infância das irmãs, pois encontram uma faca e ao sentir o gosto do metal brilhante, o sangue escorre da boca das duas. A ‘traquinagem’ de infância retira um pedaço da língua e a voz de uma e torna a outra intérprete de todos os seus gestos. Assim, um elo é formado. 

Por meio da linguagem clara, é possível perceber o amadurecimento das irmãs, que moravam com a família e outros trabalhadores em uma fazenda e residiam em casas de barro - pouco resistentes, pois havia a proibição de construírem seus lares de um material melhor. O momento que as meninas abandonam a meninice e se tornam mulheres é marcante. As situações distintas e adversas que atravessam suas vidas acabam rompendo o elo que existia. Logo, as informações são dadas aos poucos ao leitor para que ele perceba as temáticas fortes ao longo do caminho e conheça outros personagens e situações com as quais é possível de se relacionar e desenvolver sentimentos diversos, desde empatia até revolta. 

Em entrevista à Forbes, Itamar Vieira, o escritor de Torto Arado, conta que a preparação da vida das personagens se concretizou após quatorze anos de observação dos trabalhadores rurais. De certo, que as duas irmãs e suas vivências tocam de forma única cada leitor, pois “elas não estão alheias ao mundo”, como o próprio autor diz. Na opinião dele, o  apreço dos leitores por Torto Arado acontece porque há sentimentos e emoções em comum, que fazem parte da experiência humana. “Há algo familiar e afetivo ali”.


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