17/06/2021 às 20h25min - Atualizada em 17/06/2021 às 19h39min

Crônica: carta a um velho amigo

Palavras que precisavam ser escritas em uma carta, em forma de desabafo ou um desabafo em forma de carta

Raphaela Vitor - Brenda Freire
Imagem de Nile por Pixabay
Caro amigo, há tanto tempo que não nos falamos, me sinto de certa forma encabulada de lhe escrever esse desabafo em forma de carta, mas, não consigo evitar essa urgência que cresce a cada dia dentro do meu ansioso peito e deixa em claro o meu cérebro inquieto, então espero que me perdoe, mas preciso desabafar.

Essa urgência começou em uma sexta feira nublada, que porventura era o dia do meu aniversário de 22 anos, mas você deve lembrar, sempre se lembra. Me recordo de receber dezenas de ligações de felicitações de parentes distantes, amigos e conhecidos, algumas com um tom verdadeiro e outras que não passam de formalidade por acharem que realmente me importo com a mudança de número que ocorre com a minha idade, a resposta continua sendo um não, e não me sinto orgulhosa em dizer, mas a culpa é sua.

Sim! a culpa é sua, cansei de me penalizar pela sua falta de empatia, sinto saudades da época em que não precisava me preocupar com você ou a com sua ausência, lembro de como ansiava cada aniversário como se fosse o maior evento da minha vida, como o daquele em 2006, com o tema de Barbie. A cor rosa banhava a garagem da minha antiga casa e foi naquele dia que ganhei a minha primeira boneca da minha avó, brinquei com ela durante todo aquele ano, até uma das minhas tias me alertarem se já não estava velha demais para aquela brincadeira de criança pequena.

Devo te apontar também a época o dia que completei 12 anos e queria ganhar um bichinho de pelúcia do My Little Poney ou do Scooby Do e ao falar para uma de minhas melhores amigas, ela me questionou se eu realmente estava prestes a entrar na pré-adolescência, e que deveria tomar mais cuidados, pois os garotos não se interessariam por uma garota que ainda tinha colecionava pelúcias, mas caramba, eu preferia aquelas criaturas de algodão em forma de animais fofinhos a garotos.

E nem me lembre quando de fato entrei na adolescência e precisei usar o meu primeiro sutiã, treco desagradável, e com 14 anos, quando meu interesse por garotos começou a aflorar - tive que escutar de todas as bocas masculinas que se encontram em minha árvore genealógica, que estava nova demais para sequer pensar em namorar, porém na idade ideal para saber o que devia fazer pelo resto da minha vida.

E não posso deixar de mencionar que no fim do que todos ditavam ser a melhor fase da minha vida, aos 17 anos,  um professor de química, aliás matéria que eu não entendo até hoje, ridicularizou de todas as formas veladas o fato de eu querer escrever como profissão. Me aconselhou a mudar minha escolha de curso universitário “Aproveite que ainda é jovem, não vai querer chegar lá na frente e se arrepender por ter escolhido a profissão errada, você ainda tem tempo para aprender exatas”, sei que me conhece muito bem para saber que ignorei tal conselho não solicitado.

Aos 18,  aposto que se recorda, de todas as minhas tentativas de agir de forma mais madura, afinal, estava na faculdade, não poderia deixar que ninguém soubesse da minha preferência por filmes românticos e clássicos teen, como saga a Crepúsculo, ou que eu ainda assistia desenho e que livros juvenis eram os títulos que ocupavam as minhas prateleiras. Enfim, tentei ser aquilo que todos me diziam para ser, com alguns deslizes aqui e ali, mas tentei. E agora aos 22 anos, posso te falar com toda convicção que não adiantou de nada ficar quatro anos da minha vida pensando no próximo passo, no próximo dia ou no próximo mês, próximo ano, próximos 10 anos..., você me entendeu, estou cansada, confusa e perdida.

Sou muito nova para querer realizar todas as minhas conquistas, mas por outro lado abro o meu perfil do Instagram e vejo letreiros em feeds bonitos me alertando que estou ficando velha demais para tentar qualquer outra coisa “Agora é hora, depois você não terá tempo” é o que dizem.
Parentes intrometidos me bombardeiam com perguntas de quando minha mãe será agraciada com um netinho, sendo que não há muito tempo, me assombravam com as dificuldades de ter um filho cedo “Você não deveria focar só na sua carreira, depois ficará velha e sem tempo para ser mãe”, é o que eles dizem.

Aos 22 anos sou nova ao mesmo tempo que sou velha para inúmeras coisas, é por este motivo que te escrevo, querido tempo, espero que me entenda, mas não posso mais viver levando você em consideração, você deve compreender que nunca estarei onde devo estar se ficar me preocupando a cada aniversário com o seu possível esgotamento. 

Sei que estou envelhecendo, sei que a cada respiro é uma contagem silenciosa para um fim com data indeterminada, acredite eu sei, mas, a partir desse momento assumo o controle sobre o meu tempo, não quero me casar e não penso em ter filhos tão cedo, gosto de filmes conceituados, mas ainda vou assistir romances adolescentes, descobri que amo ler histórias de suspense, porém John Green e Suzanne Collins ainda detém a minha admiração.

Isso não é um adeus, é impossível, mas vou me permitir viver sem pensar freneticamente em você, quero voltar a amar meus aniversários e não os temer, quero aproveitar cada passo que dou sem pensar se estou indo rápido ou devagar demais, sei que você ainda fará os minutos, horas e dias passarem igualmente, e tudo bem por mim, de verdade, só que quero que saiba que, agora, eu dito as regras do meu próprio tempo.
 
ass.: A garota que não corre mais do tempo.

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