25/06/2021 às 10h31min - Atualizada em 25/06/2021 às 10h00min

Comemoração do Dia do Cinema Nacional

O cinema brasileiro impacta vidas e provoca reflexões sobre a realidade do nosso povo

Ianna Oliveira Ardisson - Editado por Talyta Brito
Fonte/Reprodução: Google
É longa a história do cinema no Brasil, tanto de criação quanto de exibição. A primeira exibição pública e paga de filmes projetada em uma tela aconteceu em 8 de julho de 1896, no Rio de Janeiro,  por iniciativa do belga Henri Paillie, conta-se que esse exibidor itinerante cobrava caro pelos ingressos, logo, só a elite fluminense esteve presente nessa inauguração. Os primeiros filmes nacionais tinham uma característica comum que era reconstituição de crimes reais, como em “A Mala Sinistra”, um média-metragem de 1908, que conta a história real  do assassinato de Elias Farhat por Michel Traad, o qual esquartejou o cadáver e o colocou dentro de uma mala, depois seguiu para Santos com o propósito  de jogá-lo ao mar.
 
A data que se comemora o “Dia do Cinema Nacional”, 19 de junho, remete a essa data em 1898 quando ocorreu a primeira filmagem no país, registro de imagens em movimento. Afonso Segreto, rodava, então, o primeiro filme genuinamente nacional no Rio de Janeiro, uma espécie de  documentário, com cenas da Baía de Guanabara.
 
O Cinema Novo, movimento revolucionário que surgiu no Brasil, merece destaque na perspectiva histórica. Ele teve seu auge após o golpe militar de 1964. Movimento esse marcado pelo descontentamento de alguns cineastas em relação às questões políticas e sociais do Brasil, via-se uma arte engajada, pela qual  buscavam tratar de temas vividos pelas classes oprimidas. Eram jovens cineastas que  investiam contra o industrialismo cultural e a alienação das populares chanchadas. O Cinema Novo, historicamente, é dividido em três fases: Primeira Fase (1960 a 1964); Segunda Fase (1964–1968), iniciou-se quando o presidente João Goulart foi deposto pelos militares; Terceira Fase (1968–1972), inspirado no Tropicalismo tinha como  ideia chocar e romper com a arte “bem comportada”. As características estéticas do movimento foram bem variadas, cada filme mostrava a visão particular de seu diretor, destaca-se que tinham a vontade de filmar com orçamentos reduzidos, muitas vezes em locações reais e usando atores não profissionais. Alguns nomes de destaque no Cinema Novo foram Glauber Rocha, Cacá Diegues , Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman, Miguel Borges, Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra, Roberto Santos e Olney São Paulo. Um dos legados do Cinema Novo que pode ser apontado é a Embrafilme, instituída pelo governo brasileiro em 1969.
 
Glauber Rocha foi um dos nomes mais influentes do Cinema Novo. Ele tinha a intenção de fazer filmes que educassem o público. Um marco no cinema brasileiro foi “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, lançado por Glauber em 1964, no Festival de Cannes, na França, o qual foi indicado à Palma de Ouro. Já na segunda fase do movimento ele lança, em 1967, também em Cannes, o longa “Terra em Transe”. Este filme que fazia alusão ao regime militar vivido no Brasil, foi considerado subversivo e proibido pela censura. Em 1971, na terceira fase do Cinema Novo, Glauber Rocha partiu para o exílio de onde nunca retornou totalmente. Ele passou pelos Estados Unidos, Chile, Uruguai, Cuba, França e Itália, lugares por onde continuou com suas produções. Além dos dois filmes já citados, Glauber foi o responsável por outros considerados clássicos do cinema nacional como “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”, de 1968, e “Barravento”, de 1962.
 
Nós brasileiros muitas vezes valorizamos mais o que vem de fora, isso em relação ao cinema e as outras artes, assim como em outros aspectos como destinos turísticos, em que o de fora é apresentado como melhor e de maior valor. Filmes brasileiros marcam de forma especial a vida das pessoas que têm contato com eles. São tantos e torna-se difícil destacar o melhor ou mais importante, sendo assim cada pessoa se identifica de forma especial com algum em sua jornada. A pedagoga Tatiane Campos compartilha impressões sobre um dos filmes do cinema nacional que a levou a várias reflexões.  Ela faz uma análise do filme “Bacurau”, o qual se encaixa em uma categoria que ela admira que é os que dão voz a grupos historicamente silenciados pelos poderosos:
“Eu gosto de filmes que nos façam refletir sobre a realidade e que dê voz aos grupos, que historicamente tem suas histórias narradas somente pelo ponto de vista dos “poderosos”. O filme Bacurau permite uma leitura crítica sobre a exclusão social em que muitos se encontram na sociedade brasileira. O filme é brasileiro do ano de 2019, dirigido pelos pernambucanos Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles que abarca vários gêneros como ação, aventura, ficção científica, terror gore, dentre outros.”

Sobre “Bacurau” Tatiane conta que “o enredo se passa no povoado chamado de Bacurau que fica localizado no sertão brasileiro. Logo no início têm-se a morte de dona Carmelita, aos 94 anos, mulher forte e querida por todos da comunidade. Estranhos episódios começam a acontecer como o desaparecimento do povoado do mapa, drones passeando no céu, o caminhão que abastece a comunidade é todo perfurado, estrangeiros chegam ao povoado e cadáveres começam a aparecer. Os moradores notam que estão sendo atacados e decidem criar uma estratégia de combate.”














“Essas características presentes no filme são interessantes, assertivas que enriqueceram a construção da narrativa e fizeram-me ficar admirada. O filme traz o descaso de muitos políticos para com a população, já que costumam se aproximar da comunidade no período da eleição.  No filme, o prefeito Tony Jr representa uma prática recorrente que é a perpetuação de uma mesma família no poder político, como se apenas essas pessoas estivessem aptas e preparadas para governar. Mesmo que a forma de gestão, desses políticos, esteja associada à perpetuação das inúmeras maneiras de exercer a violência, como o descaso à educação, à saúde, entre outros” complementa Tatiane.

Ela analisa que “políticos como o prefeito Tony Jr durante o mandato não buscam garantir os direitos básicos das pessoas e agem como se estivem fazendo favor ao invés da obrigação do cargo para qual foram eleitos. Interessante no filme é que os moradores têm consciência dos seus direitos, e negam-se a negociar o que é inegociável: a dignidade. Sabem que a manutenção da escassez é a maneira mais eficaz para que muitos políticos se perpetuem no poder.”

Tatiane observa ainda a relação de superioridade e inferioridade presente na narrativa:
“Assim como na realidade, a ficção trouxe a possibilidade de reflexão sobre a relação do Brasil e dos Estados Unidos. No filme, o prefeito facilita a entrada de estrangeiros no povoado para que aconteça uma espécie de “safari” humano.  É como se as pessoas de Bacurau, indígenas, quilombolas e negros não fossem detentoras de humanidade e logo pudessem ser extirpadas. Essa relação de superioridade e inferioridade presente na narrativa foi verificada, também quando os personagens que são do sul do Brasil tiveram o seu pertencimento racial questionado pelos estrangeiros. E acabaram sendo mortos pelos ditos “superiores”.”

Ela  destaca também  a valorização das mulheres na narrativa:
“Outro aspecto interessante, no enredo do filme, está relacionado à valorização das mulheres como sujeitos importantes dentro da comunidade.  Foi possível notar esse fato em várias cenas do filme, principalmente, com a personagem Domingas. Em Bacurau as pessoas têm uma consciência de solidariedade e fogem daquela lógica do individualismo e da acumulação.”

“O filme é muito interessante e propicia inúmeras interpretações, ao assisti-lo fiquei pensativa sobre como o Brasil é um país rico composto por pessoas que ao longo da história sempre lutaram para garantir a vida”, avalia Tatiane.

A pandemia de Covid-19 afetou nossas idas ao cinema e prejudicou as produções cinematográficas. Um dos programas favoritos de entretenimento e diversão ficou interditado devido ao grande risco de contaminação pelo vírus em ambiente fechado. Esse momento de relaxamento e bem-estar precisou ser substituído por alternativas possíveis. Constata-se, além disso, grande impacto econômico dessa crise sanitária para o setor, a bilheteria dos cinemas caiu 78% em 2020, segundo levantamento da empresa de dados Comscore feito a pedido da revista “Veja”. Dentre os problemas enfrentados pelo setor audiovisual destacam-se: desemprego, diminuição da produção de filmes e fechamento de salas.

A preservação da memória do cinema brasileiro é um assunto que merece nossa atenção, visto que nessa longa trajetória incontáveis obras foram descartadas, queimadas, se perderam e passaram por tantos outros destinos desconhecidos. O cinema como importante atividade de interação social tem sua relevância a qual não será roubada pelos efeitos desse terrível vírus, logo retornaremos, em segurança, a frequentar os cinemas e nos maravilhar com as riquezas da sétima arte produzida pelos brasileiros. Enfim, cabe a cada um de nós valorizar mais a cultura e as riquezas da nossa nação.
 



 

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