06/07/2021 às 13h15min - Atualizada em 06/07/2021 às 14h17min

Opinião: globalização, o fenômeno que ainda não deu certo

Mesmo havendo diversas inovações tecnológicas que unem os países entre si, grupos majoritariamente marginalizados ainda se encontram em um plano excludente.

Ana Luiza Portella - Revisado por Isabela dos Santos
À medida que o mundo beira às novas tecnologias e criações de superproduções, mais pessoas entram na estatística do mapa da fome. (Foto: Reprodução)

A pandemia escancarou a calamidade que sempre existiu. Na verdade, é trágico pensar que foi preciso uma crise sanitária acontecer para a venda despencar de tantos olhos. A venda do negacionismo que anda de mãos dadas com o cinismo. Vejamos a situação do Brasil, onde o brasileiro parece carregar um difícil fardo: de ser pobre e brasileiro. 

A gente tenta traçar uma linha temporal para identificar o início dessa trama de péssimo mau gosto, mas parece que quanto mais se procura, menos se acha no meio desse ninho de desventuras pavorosas. Quer dizer, o tanto que a sociedade se desenvolveu não foi o suficiente para suprir suas necessidades? E não, não digo as necessidades por supérfluos, e sim, aquelas ligadas à sobrevivência enquanto cidadão. 

Me recordo do bom e sensato Milton Santos, geógrafo baiano considerado como um dos maiores símbolos intelectuais do século XX. Certa vez havia dito ‘’talvez esses 50 anos (de globalização) criaram também uma multidão de excluídos e ajuda a fazer eu crer na oposição aos que têm e estão tranquilos por isso e aos que não têm e estão permanentemente intranquilos’’. É importante frisar que Milton nunca foi contra o processo da globalização, mas não a favor do modelo predominante do fenômeno, visto que agrega altíssimos pontos negativos ao povo pobre, nos quais são os mais afetados desse plano — propositalmente — excludente.  

 

A globalização não é nova no mundo, sabemos. A própria teve seu estopim assim quando os europeus iniciaram a expansão marítima no final do século XV e início do XVI, indo adiante nas colonizações. Séculos a frente, tal qual um efeito dominó, vieram os avanços; industriais, o desenvolvimento da informática, robótica, biotecnologia, internet e um sistema capitalista. E se perguntaram ‘’Poderia dar errado?’’. E deu. 

É um tanto estranho o quão contraditório o termo da ‘globalização’ soa, já que carrega em seu significado uma missão de beneficiar todos aqueles que estão presentes na sociedade, sem exceção. O que, obviamente, provou o contrário, já que tem se mostrado como um verdadeiro obstáculo para os exatos grupos que poderiam vir a se acolher nessa suposta salvação.
 


Com os meios tecnológicos integrando o mundo, é dada a ideia de que essa ‘’aldeia global’’ quebraria qualquer barreira geográfica e aperfeiçoaria a globalização em uma escala planetária, mas não. Não basta apenas ter um par de olhos se não enxergar que, a partir do momento em que existem pessoas inviabilizadas de usufruírem de tanta inovação, há algo de errado. Segundo dados do IBGE, 47 milhões de brasileiros ainda não possuem acesso à internet, problema que apenas foi visto durante o cenário da pandemia do novo coronavírus, onde 4,3 milhões de estudantes do país não conseguiram acompanhar as aulas remotas pela desigualdade no ensino a distância entre alunos da escola pública e privada.

A ideia de unir fronteiras e o povo em um só é muito mais multifacetado do que imaginávamos. A verdade é que existem três faces, duas nas quais nos impedem de nos aproximarmos, já que chegar até elas é como ter o vislumbre da verdade. A primeira é como uma fábula, ou seja, como querem que vejamos o mundo. Um exemplo? Há quem acredite, sim, que todos os caminhos dos indivíduos foram traçados igualmente e que a democratização da informação chega a todos. Um dos discursos mais ditos dessa face é o de que ‘’é só se esforçar que chega lá.’’ A segunda seria a verdade em si, sem nenhuma máscara. A globalização tal qual como ela é. Grupos marginalizados à deriva da esperança, com sede daquilo que mais tinham direito mas que lhes foi arrancado antes mesmo de estarem aos seus alcances: o direito à vida plena. Quer dizer, onde se encontra a facilidade de todo esse povo de acessar as inovações que tanto foi prometida? A educação, a saúde, o lazer; pilares de uma essência que estão beirando à ausência. 

 

Na terceira e última é o que chamaria de utopia, mas deixemos de lado brevemente quaisquer pensamentos pessimistas — por mais impossível que seja diante o cenário que nos rodeia. Seria, então, o que deveria ser. Uma sociedade homogênea usufruindo igualmente do mesmo rico pomar. O verdadeiro Jardim do Éden, mas que infelizmente, no fim, o protagonismo acabou-se indo para a serpente. Após a mordida na maçã? Bem, dê poder ao ser humano e veja do que ele é capaz de fazer, dizem por aí. Dê poder a ele e veja-o transformar qualquer coisa em uma oportunidade de superprodução, consumo desenfreado e variados embates de privatizações aos custos das necessidades humanas. 
 

Vamos voltar ao ano 2000, quando ocorreu a Guerra da Água da Bolívia; revolta popular que aconteceu nos primeiros meses desse mesmo ano em Cochabamba, onde lutavam contra a privatização do sistema de água potável depois da criação de uma lei que permitia tal ato. Já no Brasil, o país mergulhou de volta no mapa da fome em 2021, registrando 14 milhões de famílias em extrema pobreza. E atualmente quase metade da população mundial ainda não possui acesso à uma rede de internet; ou por não terem condições financeiras de pagar uma taxa mensal de banda larga e eletrônicos (celular, computador) ou por uma questão de censura, onde a comunicação é muito limitada para certos territórios de regimes ditatoriais.

Diante disso, vemos que consequentemente se concretizou uma crise humanitária estarrecedora. Frente à uma sociedade capitalista, nos vemos inseridos diretamente, de mãos atadas, nesse colapso financeiro com o  agravamento constante da fome e desemprego, onde ambos se encontram em uma  naturalidade questionável. Quer dizer, a pobreza e todas as dificuldades que a rodeiam são cruelmente romantizadas atualmente, onde até o tópico da meritocracia é colocado em pauta. Seria justo comparar a jornada de um indivíduo que atravessou o oceano de barco com o outro que foi à nado? 

A verdade é que cada uma dessas sementes problemáticas foram geradas do ventre da desigualdade. Somos forçados a viver e a enxergar por olhos que não são nossos, mas por aqueles que parecem estrategiar meticulosamente cada movimento da peça desse grande jogo de xadrez que é o mundo. Somos os peões jogados de fora do tabuleiro em busca de várias rodadas para derrotar o Rei e Rainha.


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