16/07/2021 às 10h01min - Atualizada em 09/07/2021 às 12h20min

Entrevista: depressão pós-parto

A gravidez, a chegada do bebê e as implicações no corpo, nas emoções e no psicológico da mulher

Sheyla Ferraz - Editado por Talyta Brito
Foto/Reprodução: Arte pessoal
A mulher nasceu com a graça de poder gerar dentro de si a vida. É fantástico refletir sobre essa fascinante experiência de dar a luz a outro ser, porém, é um caminho desafiador e que ao olhar de fora, parece “romântico” as fases que uma mulher gestante passa, quando na verdade, não é bem assim, pelo menos não em todos os casos. Estudos apontam que em cada cinco gestantes, quatro delas sofrem a depressão pós-parto.
Para enriquecer esta conversa, a estudante de psicologia do Centro Universitário de Brasília (Uniceub), Annabel Castagnolli, tem espaço de fala importante para sanar as dúvidas mais comuns a respeito do assunto.

Na reta final de seu curso, a escolha do tema da sua monografia é sobre gestação, por isso, ela tem se debruçado muito para a compreensão dessa temática que envolve não apenas o nascimento de um bebê, bem como, diversos desdobramentos emocionais, psicológicos e sociais para a mãe, após sua chegada ao mundo.
Arraste uma cadeira, e vamos conversar...


Sheyla Ferraz: Quais são os sentimentos comuns que a mulher tem nesta fase de depressão pós-parto?

Annabel Castagnolli
Sentimentos de insegurança, medo de não dar conta, sentimento de despreparo para viver as novas mudanças, dúvidas sobre como ficará o trabalho e a relação com o parceiro. Uma das características presentes é a insônia ou aquela mãe que só quer dormir, como uma fuga da realidade para sair do ambiente que trás angústia, tensão e cobranças. É uma série de sobrecargas emocionais, psicológicas e sociais sobre ela.  

SF: A depressão pós-parto é uma doença comum?

AC: Sim, é muito mais comum do que a gente pensa. Os números são alarmantes, infelizmente muitas mulheres são invisibilizadas nesse sofrimento de puro sentimento psíquico. Às vezes ela tem vergonha de assumir que não está bem e ser relacionada com os casos extremos expostos pela mídia. 


SF: Tendo ela um parceiro (a) ao lado, como ele (a) pode ajudá-la?

AC: 
O parceiro (a) ficar atento se durante a gravidez aconteceu algum episódio, a perda de um ente querido, a perda de um emprego, briga no relacionamento... Então, cabe as pessoas que estão próximas observarem as reações emocionais dela.

SF: O que familiares e amigos precisam evitar na hora de lidar com a mulher que está vivendo a depressão pós-parto? 

AC: Parar com tantos palpites e achismos ou as comparações com outras mulheres. Cada mulher é uma, é singular. Outra coisa, as pessoas se concentram muito na barriga, mas não como essa mãe pode estar sobrecarregada emocionalmente, e quando o bebê nasce às atenções ficam voltadas para ele. Muitas vezes essa mãe que acabou de ter o neném, se torna invisível para a sociedade e para as pessoas que ela convive.

 

























SF: Quais são os sinais de alerta para identificar a doença? 

AC:
Por exemplo, uma mulher que nunca apresentou tristeza, choro constante... Opa, preste mais atenção nela. O que está acontecendo com essa mulher? Esse olhar atento e cuidadoso de quem está em volta é superimportante. 

SF: Tem prazo de término, ou varia de mãe para mãe?
AC: Existem estudos que falam que pode começar um mês depois que o neném nasceu ou a depressão pós-parto pode aparecer até os três anos de idade da criança. Isso vai variar de mulher para mulher, de como ela consegue lidar, qual a capacidade dela de passar por adversidades. E tem a parte hormonal também, quando tem uma queda muito grande têm organismos que vão sentir de formas diferentes.
SF:  Essa fase complicada reflete na relação da mãe com o filho?
AC:Sim, com certeza. Nesse momento para mãe conseguir desenvolver o papel e ter essa função materna, a parentalidade, ela precisa ser cuidada também. A mulher não nasce mãe, isso é uma imposição! A criança vai nascer e a mãe já vai ser apaixonada nessa criança? Não! Tem mulheres que sim, outras não, e tá tudo bem.  Isso não significa que ela não vai ser uma boa mãe. Ser mãe é um processo de construção.
                                                                                                                               
                                                                                                                           





















SF: Quais são as alternativas de tratamento?

AC: Ter sempre um direcionamento dos profissionais da saúde como médico e psicólogo. A gente sabe que não é só emocional, existe toda uma parte psicológica também que está sendo afetada. Além de ter um olhar específico para essa mulher. Não existe uma receita pronta, cada processo é único.

SF: E como a depressão pode ser evitada?

AC: Fazendo o pré-natal e, se possível, o pré-natal psicológico e tentando também manter o ambiente em que ela está, o mais harmonioso possível, trazendo apoio a ela.  

SF: O que você considera indispensável para a mulher que vivencia este período?

AC: Eu acredito demais na escuta, sem julgamentos e preconceitos. Essa mulher precisa ser abraçada e escutada a tristeza que está dentro dela, isso ajuda situações de extremo. Levando em conta o processo de adaptação tanto da criança, que chega a este mundo quanto para a mãe que a partir de então terá que lidar com as novas demandas que o bebê exige. E assim ela vai se constituindo. A cobrança em cima da mulher de que ela tem que ser perfeita, que mãe tem que aguentar tudo, que o bebê nasce e já é amor a primeira vista, e infinitos casos não são assim.

De acordo com a pesquisa realizada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), estimasse que, no Brasil 25% das mulheres tenham depressão pós-parto (DPP) e que os casos menos severos como o baby blues, os quais são de período mais curto e caracterizado pela melancolia, atingem de 50% a 80% das gestantes.  

A mamãe Karla Alves enfrentou a doença e relata que sentia muita angústia e que a privação de sono e dificuldades com a amamentação foram fatores que marcaram essa fase. “Teve um dia que tive vontade de desistir, porque me sentia incapaz”, afirma. Seu companheiro Victor Lins identificou a melancolia da esposa, porém ela sempre lhe afirmava que era uma fase, ia passar.

Ele conta que a rotina da esposa era exaustiva, que ela se anulava para cuidar do filho. De sua parte, ele diz ter procurado agradá-la e no seu tempo livre, ele a ajudava. O conselho que Victor dá aos pais é de ser presente durante este período tão delicado para a mulher.  

A cada superação, a mulher se redescobre, pois o se tornar mãe muda diversos aspectos de sua vida. É como um renascimento, desde o momento que a criança é concebida em seu ventre até a última dor emocional e psicológica que ela sofreu em decorrência de uma depressão pós-parto. 

Annabel reitera dizendo: “A gravidez e o nascimento de um filho se constituem um fenômeno complexo e único na vida de uma mulher. É um período de mudanças biológicas, emocionais, sociais, financeiras e que vai ter uma reestruturação de papeis nas relações dessa mulher”. Estas complexidades são inevitáveis.   

                                                    

Outro assunto pouco conversado e que pode ser um prato cheio para a DPP é a violência obstétrica. As surpresas negativas durante o parto desencadeiam na mulher profundo sentimento de frustração. São milhares delas que sofrem esse tipo de violação. A estudante de psicologia Annabel assevera a importância de pontuar esta violência como sendo um dos gatilhos para a depressão pós-parto e que o ato é institucionalizado.    
Atenção, olhar empático e cuidadoso, rede de apoio e um par de ouvidos atentos são grandes aliados na recuperação da mais nova mamãe que pode se orgulhar de si e do que a adversidade de uma nova fase difícil pôde proporcionar a ela, na certeza de que o passo a passo de um ser tão pequenino e indefeso seguramente, lhe dará muitas alegrias.
A depressão pós-parto não reduz a capacidade da mulher de ser mãe, não está ligado a ela ter ou não instinto materno. É na verdade, uma fase capaz de revelar o melhor que ela pode ser ao se tornar mãe, dando a ela a chance de triunfo quando nem ela mesma acreditou ser possível.


O documentário " Ventre vazio coração cheio - A solidão do puérperio"  apresenta mais  informações sobre essa temática. O longa - metragem está disponível no Youtube https://www.youtube.com/watch?v=Zvp0yP3uLmo&t=140s      

 

  

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