19/07/2021 às 18h27min - Atualizada em 15/07/2021 às 22h46min

O sensacionalismo para vender história

Cobertura jornalística sobre o caso do serial killer Lázaro Barbosa e o apelo sensacionalista da mídia que busca audiência e reforça a intolerância

Beatriz Gonçalves Da Silva - Editado por Talyta Brito
Foto: Reprodução/arquivo G1

Lázaro Barbosa, 32, foi morto em 28 de Junho de 2021 após confronto com a polícia. O homem, cujo rosto estava estampado nos mais diversos noticiários no último mês, tinha longa ficha criminal que inclui, porte ilegal de arma de fogo, estupro, roubo e tentativa de latrocínio. O mais recente crime do qual o falecido era acusado de ter cometido foi o homicídio de quatro pessoas de uma mesma família em Ceilândia-DF. 

 

O caso teve grande repercussão e foi transformado em um espetáculo, comparado por vezes ao enredo de novela. Além do histórico de crimes do falecido também era possível ter acesso a entrevistas de familiares e pessoas que diziam conhecer Lázaro, psiquiatras que analisavam o criminoso ao vivo e, nos dias de buscas era possível acompanhar a caça em tempo real já que sempre havia uma equipe sobrevoando os locais ou então repórteres acompanhando de perto os policiais. A cada dia que se passava, eram criadas teorias para justificar os crimes do serial killer ou então o fato de a polícia não conseguir encontrá-lo com facilidade. Uma das principais justificativas para tais fatos era de que Lázaro tinha proteção espiritual e fazia uso de “magia negra”.

 

Em entrevista para o G1 antes da captura do criminoso, a polícia mencionou que “ele é o chamado satanista” e, O major Rio Branco, da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) disse ao UOL NEWS que “Em relação a falar: 'ah, ele fez pacto com isso ou aquilo'. Independente disso, as forças de segurança...vamos dizer assim: se ele é a força satânica, as forças de segurança são os anjos de Deus…”.

 

Essas declarações foram o suficiente para o surgimento do ‘pânico satânico’ em volta do caso, que é um fenômeno que causa medo excessivo à população em relação a práticas satanistas, pois as pessoas passam a acreditar que o “mal” é a justificativa para os crimes cometidos. A partir disso, os traços de personalidade que apontavam Lázaro como serial killer foram deixados de lado e a religião tomou lugar como fator explicativo para os crimes cometidos, o depoimento dos policiais junto às manchetes tendenciosas e as chamadas em programas de TV tornaram-se um combo de audiência. Após ser divulgado o possível vínculo do falecido ao satanismo, houveram denúncias de que terreiros de candomblé foram invadidos de forma violenta durante a busca pelo criminoso - vale lembrar que o satanismo se difere do candomblé.
 

 

Durante a cobertura do caso, a imprensa reforçou o discurso de ódio e a intolerância religiosa por falta de empatia e conhecimento referente a outras culturas/religiões. Nas redes sociais as pessoas desejavam a morte do criminoso - mesmo sabendo que no Brasil não há pena de morte e que o correto é que aquele que cometeu um crime cumpra a devida pena prevista no Código Penal , após a notícia de que ele foi morto durante troca de tiros com policiais, parte da internet comemorou o ocorrido. 

 

 

As cartas na manga para vender uma história

 

Populismo penal midiático: Tudo vira um show. Qualquer caso com potencial de viralização é aclamado pela mídia, são montados debates sem embasamentos jurídicos e legais. Isso vende. É assim que programas como Cidade Alerta, Balanço Geral e Brasil Urgente fisgam o público. Seus respectivos apresentadores “colocam lenha na fogueira” em determinadas reportagens para que o público se mantenha entretido e, falham na imparcialidade e checagem geral dos fatos. 

 

Sensacionalismo: Truque antigo para vender história. Basta usar algumas palavras tendenciosas, aumentar alguns fatos da história para chamar atenção do público. Nas matérias sobre esse caso não faltam exemplos de manchetes e notícias que não focam na veracidade e profundidade da história mas sim em um pequeno detalhe tendencioso que desperta curiosidade.

 

 

Onde está a imparcialidade? 

 

As manchetes tendenciosas, as falas dos apresentadores dos programas de TV mencionados e as coberturas midiáticas que buscam apenas um lado da história são fatores que fazem com que se perca a imparcialidade na construção da história.

 

Para Nelson Traquina (1948-2019) - conceituado Jornalista e Professor norte-americano que desenvolveu teorias sobre o jornalismo - o pólo econômico jornalístico valoriza os interesses comerciais das empresas e nesse sentido as notícias são construídas para satisfazer a curiosidade do público em busca de audiência. Deste modo, a imparcialidade é abalada. Isso porque, a corrida por audiência não se preocupa em apresentar fatos concretos mas sim, detalhes que prendem a atenção do público. E assim, a informação, de maneira concreta, com dados e fatos reais, é deixada de lado. 

 

Se a cobertura deste caso tivesse sido voltada para a distribuição de informações a fim de explicar os fatos para a população, seria exposto com maior atenção na mídia que há suspeitas de que, Lázaro Barbosa, o serial killer recebia ajuda de conhecidos para se esconder e que, matou a família em Ceilândia a mando de um fazendeiro porque a família lhe devia dinheiro.

 

 


 
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