18/07/2021 às 12h18min - Atualizada em 18/07/2021 às 10h58min

Polly Marinho: "Eu amo servir de inspiração para outras mulheres que não estão inseridas no 'padrão ultrapassado' da sociedade"

Atriz revela sua trajetória no meio artístico, a aceitação sobre o corpo e seu posicionamento politico em entrevista exclusiva

Pedro Lima - revisado por Jonathan Rosa
Polly fotografando na cidade de São Paulo. (Foto: Reprodução/ @pollymarinho1 - Instagram)

Polly Marinho é carioca, atriz e cantora. Iniciou sua carreira ainda muito jovem, e em 2009 abrilhantou a telinha interpretando a doméstica Sheila na novela "Caminho das Índias". Por sua interpretação foi premiada como atriz revelação. Logo após, fez “Malhação ID”, como Zuleide Borboleta e, em “Aquele Beijo” (2011), deu vida a Taluda.

No cinema, atuou em “Amor por Acaso” (2010), como Flávia, e em “Billi Pig” (2012), como Eufrásia. Em 2012, desfilou como Carmem Miranda para o estilista de beachwear A.Z. Araújo e em eventos Plus Size.

A atriz feminista, modelo plus size, cantora, cheia de atitude, e muito bem-humorada, contou um pouco sobre o início de sua carreira e a invisibilidade que os artistas negros sofrem. Além de muitos outros assuntos que você confere na entrevista abaixo.

Apesar da evolução sabemos que as portas para artistas negros não se abrem com facilidade, como foi até encontrar a divertida Sheila de "Caminho das Índias"? Eu tive o privilégio que minha mãe me deu de estudar na melhor escola de teatro do Rio na época, o “tablado”, que sempre foi referência e onde os produtores de elenco sempre iam buscar atores. Faço teste para a Globo desde meus 15 anos, e com 16 eu fiz meu primeiro trabalho lá (participei de Malhação quando virou Múltipla Escolha). Depois disso fiz várias peças, casei, tive minha filha, passei por vários grupos como “teatro oficina” e “nós do morro”, até que aos meus 25 anos fui convidada pela Glória Perez para fazer a Sheila, que mudou a minha vida.

Em 2014 você encarou o desafio e participou do quadro Saltibum no Caldeirão do Huck, o que te levou a aceitar o convite? Pensou em algum momento em desistir? Eu amo desafios, e quando alguém me chama para algo, ainda mais competição, eu não consigo dizer não. Quis testar meus limites, aprender algo novo e botar uma gorda, preta de maiô no horário nobre.

Tendo interpretado até então personagens com uma veia cômica, em 2018 você viveu Tenória, na novela “Orgulho e Paixão''. Seu primeiro papel dramático na TV, como foi mostrar esse outro lado para o público? Eu já queria isso há muito tempo, a maioria das pessoas enxergam os gordos como engraçados, não que eu não seja, sou muito! Mas sou mais que isso também, eu como atriz e como pessoa gosto de me desafiar o tempo todo, não gosto de ficar confortável, e a comédia é um lugar confortável para mim. Eu amo drama, e no teatro que a gente tem mais opções de escolha, eu sempre faço papéis bem dramáticos.

De acordo com uma pesquisa feita por uma agência publicitária em parceria com a ONU Mulheres, a população negra representa 54% dos brasileiros. Mas muitos sentem-se pouco representados na mídia de forma geral. Você acredita que há pouca representatividade? Como vê a mídia representando os negros? Sim, é pouco representada. E mesmo tudo estando aí bem claro para quem quiser saber, eles fazem questão de nos invisibilizar. Mas nós estamos nos estruturando para fazer o nosso e em pouco tempo, não iremos precisar mais do espaço que “eles” querem nos dar e sim criar nosso próprio espaço. 

O Brasil é um país racista assim como seu áudio visual, que é comandado por publicitários paulistas que acham que o Brasil vive na bolha classista deles. Graças a Deus a internet está aí para abrir o mercado e obrigar eles a se adequarem à população e não o contrário.

Você foi uma das modelos que participou da exposição “Feminilidades, uma relação entre corpos e olhares”, que aconteceu em 2018. Qual a proposta você quis passar posando nua? Por causa do teatro eu sempre tive uma liberdade muito grande com o meu corpo. Perdi o pudor! Antes do feminilidades, já tinha feito nu com “Apartamento 302”, do Jorge Bispo e com o Fernando Shefferch em #365nus. Eu amo servir de inspiração e referência para outras mulheres que não estão inseridas no “padrão ultrapassado” da sociedade.

Além de atriz e cantora você também é modelo plus size, como surgiu o interesse pela moda? Sempre se sentiu acolhida por esse universo? Nunca me senti acolhida por esse universo, até porque no Brasil faz muito pouco tempo que se tem roupas bonitas para mulheres grandes, mas sempre gostei de moda. Eu mesma sempre fiz meus looks, e desde que comecei a fazer novelas e filmes as marcas me chamaram para desfilar, até meu auge quando por dois anos consecutivos fui a única modelo plus size do “Mercedes Benz Fashion Week”, em Miami.

Infelizmente estamos vivendo um momento de retrocesso cultural, político e civil. Qual seu posicionamento diante do atual momento que o país enfrenta? Esse governo é contra tudo! O que eu acredito, e me sinto insegura aqui é, enquanto eles estão no poder, sou mulher, sou negra, sou artista, sou feminista e a favor das cotas. Sou tudo o que eles lutam contra. Agora é lutar! Ficaremos juntos até isso acabar.


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