23/07/2021 às 13h46min - Atualizada em 23/07/2021 às 13h29min

Plataformas desenvolvem funções que promovem a acessibilidade digital

Apesar dos recursos existentes, a acessibilidade na web enfrenta muitos desafios no país

Isabella Baliana - Editado por Manoel Paulo

A melhora da acessibilidade em aplicativos e plataformas on-line é uma iniciativa que vem ganhando cada vez mais espaço no mundo digital, ao exemplo da recente atualização do Twitter, que lançou legendas automáticas para tweets de voz e do Voice Access, do Google, que agora reconhece se o seu usuário está olhando para o dispositivo. Entretanto, embora haja melhora no cenário da acessibilidade, ainda há muito o que se fazer para que a inclusão digital seja uma realidade para todos.

 

Na nova função do Twitter, para que as legendas automáticas do conteúdo em voz funcionem efetivamente, é necessário ajustar as configurações do dispositivo em que o app estiver instalado para o idioma em que o material é produzido, já que o sistema produzirá a transcrição com base nessa informação. Por enquanto, a função só está disponível para iOS, e exibirá textos em diversas línguas. 

 

Já a plataforma do Voice Acess, destinada principalmente a pessoas com alguma deficiência motora, permite que seus usuários controlem seus smartphones por comando de voz. Na nova atualização, o app ganhou a capacidade de reconhecer quando a pessoa estiver olhando diretamente para a tela do dispositivo, o que tem o objetivo de evitar que acionamentos acidentais e indevidos aconteçam, como por exemplo, em uma conversa com alguém próximo.

 

A acessibilidade digital no Brasil

 

Assim como essas, outras plataformas também já desenvolveram recursos a fim de fornecer maior acessibilidade para as pessoas com algum tipo de deficiência. Atualmente, é possível perceber alguns, como as legendas em vídeos no YouTube, as letras das músicas no Spotify, a descrição detalhada de fotos nos posts do Instagram, legendas em Reels e IGTV, além de outros.  

 

No entanto, apesar da mobilização de algumas empresas no desenvolvimento das funções e das normas estabelecidas na Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015), o cenário da acessibilidade digital ainda tem muitos desafios a serem enfrentados. Conforme informa a pesquisa realizada este ano (2021) pela empresa BigDataCorp em parceria com o Movimento Web para Todos, apenas 0,89% dos mais de 16 milhões de sites brasileiros analisados eram acessíveis a pessoas com algum tipo de deficiência, como visual, auditiva ou motora.

 

Para o CEO da BigDataCorp, Thoran Rodrigues, os resultados de 2021 mostraram que houve uma melhora na comparação com o ano anterior, mas que os resultados ainda estão muito longe do ideal. “As empresas se preocupam tanto com a experiência de clientes em seus sites e blogs, mas esquecem de se preocupar com a acessibilidade de pessoas com algum tipo de deficiência e que acabam por ter uma péssima experiência”, afirmou.

 

Em outra pesquisa mais específica entre aplicativos, mas também realizada pelas mesmas instituições, os números ainda são pequenos: menos de 14% das imagens dos apps disponíveis para Android contam com a opção de audiodescrição, recurso fundamental para pessoas com alguma deficiência visual (aproximadamente 6,5 milhões de brasileiros, segundo o IBGE). 

 

Ainda dentro desse panorama, segundo dados do censo de 2020 do IBGE, há mais de 10 milhões de brasileiros com algum problema relacionado à surdez, o que corresponde a 5% da população total, mas pouquíssimos sites e plataformas brasileiras são considerados acessíveis para essas pessoas, principalmente por não possuírem a “janela de Libras”, espaço destinado a intérpretes da Língua Brasileira de Sinais nos materiais audiovisuais, seja representado por uma pessoa ou por um tradutor virtual. 

 

De acordo com estimativas da Federação Mundial dos Surdos, 80% das pessoas surdas de todo o mundo têm baixa escolaridade e problemas de alfabetização na língua oral de seu país. Dessa forma, o que ocorre em muitos dos casos é que mesmo com as legendas em texto em vídeos, a maior parte da comunidade surda que não domina a linguagem escrita, dificultando sua leitura e compreensão, por isso a importância de se ter também o conteúdo em Libras.

 

Alexandre Ohkawa é arquiteto, consultor, gerente de comunidade da empresa Hand Talk e ainda atua como vice-presidente da Associação dos Surdos do Estado de São Paulo - Vem Sonhar. Como uma pessoa surda e um dos embaixadores do Movimento Web para Todos, ele afirma em entrevista ao portal da iniciativa que, embora o impacto da acessibilidade digital em sua vida seja positivo, ainda tem muito o que evoluir. 

 

“Quando acesso plataformas digitais e sites, a primeira coisa que noto é se estão acessíveis para todos, seja por celulares ou por computadores/laptops. Tudo tem que estar funcional”, disse. Em relação aos aplicativos, Alexandre pontua algumas situações que poderiam ser melhoradas: “as lives do Instagram poderiam ter três janelinhas para incluir um intérprete de Libras e/ou legendas também para facilitar o entendimento. O Facebook agora está disponibilizando a configuração de legendas para as lives, mas a maioria das redes sociais não está acessível ainda”. 

 

Para ele, a contratação de pessoas com deficiência é de grande importância na promoção de mudanças no cenário da acessibilidade, já que eles serão as principais responsáveis por orientar quais os recursos e ações devem ser implementadas para que aquele ambiente fique mais funcional e acessível. “É importante ter pessoas com deficiência trabalhando nas empresas. Elas são as melhores conselheiras e consultoras nessa área”, completou.

 

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