02/09/2021 às 21h53min - Atualizada em 02/09/2021 às 21h41min

“O homem da cabeça de papelão”: um conto de João do Rio

O pensamento de grupo se manifesta quando todos passam a pensar de maneira parecida

Ianna Oliveira Ardisson - Editado por Andrieli Torres
Foto/Reprodução: Google
Ter uma opinião diferente ou pensar igual a maioria? Muitas vezes é difícil sustentar uma posição, opinião ou comportamento que seja diferente daquele comumente praticado. Parece ser mais fácil se moldar ao que os outros exigem de você do que sustentar o que é diferente. Ao ver que precisava “regular sua cabeça”, o personagem Antenor do conto de João do Rio (1881-1921) resolveu trocar sua cabeça por uma de papelão.

No conto “O homem da cabeça de papelão”, Antenor, morador do País do Sol, desde criança, só dizia a verdade e era malvisto porque agia em desacordo com as normas dos demais habitantes de sua terra. Ele incomoda aos outros porque era “diverso no modo de comer, na maneira de vestir, no jeito de andar, na expressão com que se dirigia aos outros”.

 
Quando se apaixona por Maria Antônia, e é advertido por ela que precisava “tomar juízo” para assim ela aceitar casar-se. Antenor busca uma forma de resolver seu problema afim de ser igual aos demais. De repente, no centro da cidade, ele descobre uma placa escrita “relojoaria e outros maquinismos delicados de precisão” e resolve entrar no estabelecimento. Antenor explica, então, que a cabeça dele precisava de reparo. Para tanto, foi necessário deixá-la para observação de trinta dias e desmontagem geral. Como não poderia andar sem cabeça recebeu uma de papelão.

“Antenor não pensava. Antenor agia como os outros. Queria ganhar. Explorava, adulava, falsificava”, foi assim que passou a ser com a cabeça de papelão. Todos passaram a admirá-lo, e depois de ter passado muito tempo, foi que lembrou que tinha deixado sua cabeça na oficina para reparo. Quando foi buscar a cabeça o homem que o atendeu explicou que não a consertou visto que jamais tinha encontrado um aparelho com tamanha perfeição. Antenor preferiu deixar a cabeça com o homem da loja e continuou com a de papelão, ele explicou sua decisão: “pode ser que V., profissionalmente, tenha razão. Mas, para mim, a verdade é a dos outros, que sempre a julgaram desarranjada e não regulando bem.”

 
Antenor escolheu se adaptar ao modo de viver e de pensar dos habitantes da comunidade da qual fazia parte. Não é raro perceber nos pequenos grupos dos quais participamos como as pessoas buscam se conformar, adquirir a forma, desejada pelos que ditam as regras. Para ser aceito, muitas vezes, renuncia-se a ideais e convicções pessoais em prol do que a maioria considera adequado e aceitável. Para a vida em sociedade correr bem necessita-se de um grupo coeso com convicções parecidas, quem decide ser inovador e opta por suas diferenças precisa “remar contra a maré”. Com o intuito de preservar a harmonia de determinado grupo opta-se, tantas vezes, por uma falsa concordância para não gerar atritos.

Nossa forma de pensar e nos entender como indivíduo conduzem os caminhos pelos quais iremos. Às vezes não nos arriscamos a fazer mudanças em nossa vida porque possuímos uma “crença” que nos limita. Não nos permitimos, por exemplo, aprender algo novo como costurar, porque acreditamos que não nascemos com essa habilidade e não seremos capazes de desenvolvê-la.   

 
Carol S. Dweck, professora de Psicologia na Universidade de Stanford, formada na Barnard College e Ph.D pela Universidade de Yale, apresenta dois tipos de mindset em sua obra “Mindset: a nova psicologia do sucesso”.  O mindset fixo é aquele em que as pessoas acreditam que suas características e capacidades vêm de nascença, ou você nasce com talento ou sem ele. O outro tipo é o mindset de crescimento, quem o possui acredita que a inteligência é mutável e que com esforço próprio poderá mudar sua condição. O passo inicial para a transformação seria, então, entender a diferença entre as duas formas de pensar.

Carol S. Dweck, na obra já citada, explica sobre o pensamento de grupo, observado quando todos passam a pensar de forma parecida:
“No início da década de 1970, Irving Janis popularizou o termo “groupthinking”, ou pensamento de grupo. Isso ocorre quando todos os membros de um grupo começam a pensar de forma parecida. Ninguém discorda. Ninguém assume atitude crítica. Isso pode levar a decisões catastróficas, e, como sugere o estudo de Wood, muitas vezes é produto de mindset fixo”.

Dweck acrescenta que o pensamento de grupo pode acontecer quando um grupo se deixa levar por seu “próprio brilho” e “superioridade”, na convicção de ser “o melhor” não aceita nada diferente. Ela analisa ainda que quando um líder castiga quem discorda dele está também promovendo o pensamento de grupo já que desencoraja as pessoas a se manifestarem.
 
Carol S. Dweck destaca como o mindset fixo cria o pensamento de grupo:
“Há muitas maneiras pelas quais o mindset fixo cria o pensamento de grupo. Os líderes são considerados deuses que nunca se enganam. Um grupo pode arrogar-se talentos e poderes especiais. Os líderes suprimem o desacordo, a fim de inflar seus egos. Ou, então, os funcionários concordam com os líderes para conseguir-lhes o reconhecimento”.

Falta em nossa sociedade, muitas vezes,  a percepção de que pontos de vistas diferentes contribuem para a solução de problemas. Procura-se pelo consenso a todo custo, e assim, poucos se arriscam a agir diferente, seja por medo de não ser aceito ou outros motivos. Não precisamos nos manter os mesmos. Sem precisar trocar nossas cabeças por uma de papelão, temos a nosso dispor inúmeras possibilidades para vivermos transformações e mudanças que venham trazer melhorias para nossas vidas.

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