05/09/2021 às 15h24min - Atualizada em 04/09/2021 às 18h04min

Você já ousou meditar?

Há diversas meditações, e nenhuma delas é a mais correta

Fernando Azevêdo - Editado por Larissa Bispo
Foto: Unsplash

Iluminação e silêncio confortáveis. As coisas se resumem àquele momento, já que você parou tudo que estava fazendo para estar ali. Posição confortável, postura alinhada, atenção à respiração e olhos disciplinados. Instruções dadas e tudo está prestes a começar. Partindo dali, uma série de frases poderosas ecoarão nos seus fones de ouvidos. “Eu vou falar e vocês repetem depois”, anuncia a professora na aula remota.

 

    Então, você diz frases sobre sua essência, tenta acessá-la. Com a mão, direciona energia a partes específicas do seu corpo - e vai conhecendo parte a parte durante os exercícios. Você sente leveza e conexão. Consigo, principalmente. Aquelas frases dizem mais do que o verbal, são um convite íntimo que você se oferece. É esse convite que as pessoas que meditam se fazem, porém essa é uma entre diversas maneiras de fazê-lo.  

 

    Antônio, estudante de 20 anos, está entre os adeptos desse convite. Ele adotou esta prática como um tipo de terapia, e principalmente como uma ferramenta de autocuidado. 

 

O jovem medita com a orientação de aplicativos. Ele descobriu a meditação através da ioga. Há ligação entre essas duas práticas e ela é benéfica, pois as duas podem promover benefícios similares, e alguns movimentos se combinam; além de alguns exercícios básicos, como os de respiração, serem essenciais em ambas. O discente diz que gosta de exercícios de meditação com atenção à respiração e atenção ao corpo - os primeiros trabalham muito a concentração e os segundos o ajudam a "retornar para o presente”.

 

    Atenção, concentração no presente, consciência dos processos mentais e dos sentimentos. Menos ansiedade e maior organização dos pensamentos. Mas, além dessa melhora em aspectos mentais, bem estar também na parte física. Todos esses fatores são comemorados por Antônio como benefícios que vêm da prática de meditação.

 

“Também (...) o autoconhecimento, porque não é só um uma prática paliativa, não é só para resolver problemas que surgem, mas também um caminho, um aprendizado. Você aprende com as práticas, você aprende com a filosofia da coisa, né, até mesmo com seu próprio corpo. Aprende sobre os seus limites, sobre a sua forma de pensar e enxergar as coisas... É todo um aprendizado. Entender seus sentimentos também, né, entender os sentimentos  - como eles surgem, como eles nascem, como se manifestam”, declara o estudante.

 

As diversas meditações

 

    Ana Claudia Muller (@anaclaudiamullerpersonal), 46, há 14 anos é professora do DeROSE Method (na escola @derosedowntown). O método consiste em uma proposta de estilo de vida, diz Ana, que utiliza variadas práticas e conceitos - entre elas a meditação. “Antes de ser professora, eu sou praticante. É uma técnica que me encanta”.

 

 

    Ela expõe que realmente há variadas abordagens sobre o que é a meditação, sendo que cada professor de cada linha segue uma. No entanto, “não tá certo nem errado; tudo são escolhas, tudo são caminhos”. 

 

Para o DeROSE, diz Ana, a meditação pode ser um estado de consciência que se objetiva alcançar - a hiperconsciência. Mas também podem ser exercícios ou o conjunto de exercícios para atingir esse nível de consciência. Há perigo de o senso comum chamar de meditação práticas de reflexão e raciocínio corriqueiras, fala. 

 

O próprio termo “meditação”, explica, não é considerado o mais adequado pelo método. "Raciocinar, manter o pensar para chegar a uma conclusão racional... Para nós, a meditação é o oposto: é a  estabilização da mente, para transcender a mente, para ir além da mente”. Esse movimento de "ir além da mente" significa acessar um canal que ela descreve como “onde o conhecimento flui com mais abundância que o mental”. Nesse sentido, exemplifica, mesmo que a pessoa faça muitos exercícios de respiração, não necessariamente ela medita; ela pode estar se preparando para meditar.

 

Considerando que acessar esse canal por meio da meditação profunda é um projeto de vida - um processo que Ana diz ser ralado, mas gostoso e gratificante, no qual a cada dia você melhora e se conhece mais -, a humanidade como grupo não está “lá”. Por isso, a professora fala que tentar chegar nesse nível de consciência “é um estágio acima do desenvolvimento humano. É um projeto ousado, inclusive, sabe? E bem ambicioso”.

 

E o “processo é legal. Gera bem estar, gera uma conexão maior consigo, gera satisfação, gera concentração, amplia foco”, e isso não é entendido como benefício pela filosofia do método DeROSE. Ana diz que seriam efeitos colaterais, que viriam junto com o processo, mas não são o objetivo.

 

Meditação na pandemia

 

Independente de qual filosofia, abordagem ou método de meditar, muitas pessoas procuraram a prática durante a pandemia de novo coronavírus. Desde o início, muito se fala sobre a saúde mental, sendo que a meditação foi adotada por algumas pessoas como forma de manter a calma ou por outra razão relativa ao bem estar. Com exercícios simples, que podem ser feitos em casa mesmo, a meditação pode ser realizada por qualquer pessoa conectada à internet. Inclusive, de forma gratuita, com vídeos e aplicativos nesse sentido.

 

Ana Claudia relata que trabalha de forma híbrida há mais de 10 anos, então esse foi mais um momento de se readaptar, porque quem tinha resistência ao online viu isso como única opção. Ela diz que houve uma procura ao longo do período de pandemia, sobretudo em momentos de auge do vírus. “Algumas pessoas que tinham o projeto e adiaram, viram a oportunidade de começar os exercícios”.

 

A jornalista Juliana Oliveira, 39, é uma dessas pessoas que trouxeram o hábito da meditação durante a pandemia. Logo em abril de 2020, ela teve acesso a prática, que fazia de vez em quando. Em dezembro do mesmo ano, ela decidiu que iria ser firme, praticando diariamente.

 

     Juliana pratica "exercícios energéticos, que é o método de limpeza energética" e a meditação eufônica, que foram os exercícios que ela teve contato desde o início. 

 

Esses métodos vêm de estudos da francesa Universidade Livre do Samadeva. Uma médica que Juliana conheceu estuda esses métodos e dá aulas todos os dias, desde o começo da pandemia. São aulas simples, livres e que todos podem fazer.

 

Juliana explica que, pelo entendimento do método, cada parte do corpo representa uma coisa de você, como uma emoção. Frases de cura são entoadas e você toca algumas partes do seu corpo a cada exercício.

 

Também é uma lista extensa de benefícios que a jornalista tem percebido na prática. Se tornar uma pessoa mais centrada, concentrada, focada, disciplinada, “presente no seu corpo, presente no seu presente” é um dos principais.
 

“Super recomendo pra todo mundo. (...) Eu sou bastante acelerada, então eu sou muito agitada, eu sou ansiosa, eu não paro e tal. E isso me fez - essas práticas, essa meditação -, me ajudou a ser um pouco mais tranquila, um pouco mais calma. Um pouco menos ansiosa”, indica a jornalista.

    

    Além disso, a meditação é vista por ela como uma forma de viver o dia presente, uma maneira de autocuidado, e de ensiná-la a lidar melhor com os problemas. Ao invés de se desesperar, parar e falar “o que eu posso fazer para resolver isso?; eu vou resolver isso, vai dar certo”. “Isso foi me ajudando a viver mais o dia presente. E com isso eu pude perceber que eu fui ficando menos ansiosa, menos preocupada com o futuro”.

 

"A gente vive uma vida super corrida, uma vida onde a gente está sempre se projetando para expectativas, para atividades, para isso e aquilo. E eu acho que parar pra você lembrar de onde você tá, parar pra enxergar como sua mente funciona, como seu corpo se encontra naquele momento, é uma coisa, se não revolucionária, diante de todo o comportamento que a gente tem - um comportamento que não preza por esse momento de reflexão, por esse momento de pausa, de um olhar mais aprofundado -, então eu acho que a meditação é muito enriquecedora. Não só pelas suas propriedades, seus benefícios terapêuticos, mas para o próprio crescimento pessoal. Então, eu acho que é algo, é uma das alternativas que podem estar ajudando muita gente neste cenário que a gente se encontra, principalmente no cenário de pandemia, né?", Antônio analisa.


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