10/09/2021 às 12h32min - Atualizada em 10/09/2021 às 12h23min

“Estive em um campo de concentração”

Declaração feita pelo psiquiatra Franco Basaglia diante da desumanidade que presenciou no manicômio de Barbacena, em Minas Gerais.

Sheyla Ferraz - Editado por Larissa Bispo
Site: Estado de Minas
Diante do alerta a importância da saúde mental, o best-seller “O holocausto brasileiro” da jornalista Daniela Arbex, publicado em 2019, cai como uma luva ao tema social em questão e é utilizada como base para ensaios importantes.  

O Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHPB) – o Colônia – em Minas Gerais foi cenário de tratamentos desumanos, de toda atrocidade que se possa imaginar no pior dos pesadelos. Franco Basaglia, psiquiatra italiano que foi até o hospital em 1979, definiu o lugar como sendo um campo de concentração. Ele jamais estivera em um local tão espantosamente desumano, comparando-o com o episódio de horror vivido pelas vítimas do Nazismo, na época da Segunda Guerra Mundial.

A obra da jornalista é um compilado de histórias de pessoas que viveram os piores anos de sua vida. Boa parte delas não sofriam distúrbios mentais, e ainda assim foram levadas à força para o maior manicômio do Brasil. Entre os internos, havia homossexuais, crianças rejeitadas pelos pais, mulheres deixadas por seus maridos, quem era uma ameaça para quem tinha poder, alcoólatras, epiléticos, moradores de rua, mulheres grávidas pelos patrões, tímidos... Elas eram também levadas contra a própria vontade por policiais e familiares em trens.

O livro-reportagem trata do assunto de maneira impressionante, pessoas que conseguiram sobressair à tamanha crueldade puderam ser lidas e ouvidas. Mais de 60 mil internos foram mortos, o Colônia comportava um número excedido em detrimento do que era capaz, portanto, 16 pessoas morriam por dia quando o fluxo de pacientes aumentava.

Mães que eram levadas grávidas para o hospício passavam fezes em sua barriga para que não tocassem nelas violentamente e, consequentemente, perdessem o filho. Porém, quando nasciam os seus bebês, cruelmente eram levados para adoção sem o consentimento delas.

Os internos também eram submetidos a trabalhos escravos; dormiam em cima de capim comungando do mesmo ambiente vulnerável as terríveis doenças na companhia de insetos como ratos e baratas. À medida que o número de internos ia aumentado, a administração resolveu ceder mais lugares, diminuindo o número de camas. Para garantir a sobrevivência era comum se alimentarem de ratos e fezes e beber água de esgoto ou urina.



O tratamento era realizado por meio de fortes medicamentos geradores de diversos efeitos colaterais de curto e longo prazo. Havia também o uso de eletrochoques tão violentos que interferiam na energia elétrica das casas do município. Faziam o uso de lobotomia*, além de ficarem nus e sofrerem diariamente descasos mais amargos que o féu. Eles ficavam vulneráveis a friagens e chegavam a morrer por isso. A luta pela vida se tornava cada dia mais escassa, e a fome e os espancamentos também faziam parte da rotina. 

Como conta a obra de Arbex, entre os anos de 1969 e 1980, 1.853 corpos dos pacientes do manicômio foram vendidos para 17 faculdades, estas por sua vez não questionavam a procedência. Os ossos também eram comercializados e, para piorar, eram desossados no pátio do Colônia, à vista de todos. Toda esta crueldade era feita com o consentimento do Estado.
Com iniciativas de mudar essa trágica e infâmia realidade, equipes de médicos e psiquiatras se unem para repaginar a maneira de lidar com a problemática social. Se tratando de vidas, de seres humanos, a mudança de olhar tornou-se indispensável. A conquista foi após décadas. Quem considerava a causa relevante teve de lidar com os vários enfrentamentos resistentes de especialistas que eram coniventes e consideravam importante a forma brusca de tratamento que estes internos recebiam.

A sociedade até então não tinha dimensão real de como funcionava o dia-a-dia de quem lá vivia e, portanto, havia o consentimento da própria sociedade a barbárie que estas pessoas viviam diariamente. Hoje, o Centro Hospitalar de Barbacena se tornou um abrigo terapêutico. Em entrevista ao portal de notícias El País, a coordenadora da rede pública de saúde mental de Minas Gerais afirmou que as internações caíram de 130 por mês para 30. Antes de o paciente ser internado, ele passa primeiro por uma avaliação.

Foi inaugurado também um museu, chamado de O museu da Loucura, dentro do CHPB, que este ano completa 25 anos.  A preservação das memórias, ainda que remetam a um passado de uma dor oceânica, ou seja, que parece ser tão profunda e infinita, leva a sociedade e o resto do mundo a pensar em um tempo de extrema hostilidade e ao mesmo tempo em quais os caminhos que os profissionais especializados para lidar com esta área podem dar diante deste histórico que o Brasil carrega.
 
Um passo bastante significativo foi a criação da Lei n° 10.216/2.001, nomeada por “Lei Paulo Delgado”, a qual vela pela proteção dos direitos de pessoas com saúde mental frágil e adoecida e que pensa nas melhores formas de dar assistência a quem está nessas condições. Este avanço deve-se a luta insistente do Movimento da Reforma Psiquiátrica e a Lei responsabiliza o Estado no desenvolvimento da saúde mental no Brasil, por meio de projetos que de fato funcionem e atendam a necessidade em vigor com abordagens mais humanizadas, como a abertura de novos serviços comunitários e da participação social durante o processo.

18 de Maio é o dia Nacional da Luta Antimanicomial no Brasil, a data homenageia os profissionais de saúde que lutam para dar um tratamento mais humanizado aos pacientes que carecem deste tipo de atendimento.

Na abertura da ditadura militar ocorreram às primeiras manifestações, com o surgimento do Movimento dos Trabalhadores de Saúde Mental.  Eles se posicionaram contra a forma que os pacientes eram tratados na assistência psiquiátrica oferecida durante este período no país e lutaram para o fim do uso de eletrochoques e outros métodos de tratamentos estaparfúdios. Em 1978, por oito meses, o movimento fez greves que tiveram grande repercussão na imprensa.

Debaixo de muita obstinação, conquistas foram alcançadas e há outras a serem vencidas ao longo desse mapeamento de transformações que se busca dar a estes setores, dando a oportunidade de resgatar a saúde emocional e psíquica de cidadãos que também são dignos de qualidade de vida e de dignidade.


* vocabulário: Lobotomia – Intervenção cirúrgica no cérebro na qual são seccionadas as vias que ligam as regiões pré-frontais e o tálamo, us. no passado em casos graves de esquizofrenia; leucotomia [A técnica, criada em 1933 pelo médico português A. Egas Moniz 1874-1955, que recebeu por isto o Prêmio Nobel em 1949, encontra-se atualmente em desuso.]
Fonte: Google
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