14/09/2021 às 14h08min - Atualizada em 14/09/2021 às 09h47min

A crise do Real

A atual desvalorização da moeda brasileira é resultado de uma série de fatores negativos que aconteceram nos últimos meses

Leonardo Leão - Editado por Ynara Mattos
Fernando Ulrich

 Atualmente o Brasil enfrenta uma grave crise política somada a uma economia que passa por um de seus momentos mais difíceis, além da pior crise sanitária de sua história. Tudo isso gera diversas consequências negativas para o país, dentre elas, a desvalorização de sua moeda.

 O Real sempre foi um sucesso, considerado como “a moeda que deu certo”. A economia brasileira pode ser dividida entre antes e depois do Plano Real. Mas nos últimos anos, vem sofrendo com altas da inflação e também do câmbio e com a pandemia essa situação se agravou mais.

 Vale destacar também que cerca de 30% de todo dinheiro em circulação no país, foi criado em 2020, ou seja, aproximadamente R$ 200 bilhões dos mais de R$ 600 bilhões. O ano também foi marcado pelo surgimento da nota de 200 reais para resolver uma possível falta de dinheiro físico para os brasileiros. Foram encomendadas 450 milhões de unidades pelo Banco Central, mas até agora, apenas 18% delas estão em circulação.

 
O economista, Hugo Passos, considera a crise sanitária do covid-19 como o principal motivo para a desvalorização do Real. Ele explica que muitos investidores tiraram seu capital de países emergentes como o Brasil e alocaram em países desenvolvidos, gerando uma grande fuga de capital estrangeiro no país.

 Hugo também lembrou que durante o auge da volatilidade cambial, em maio de 2020, o dólar chegou perto de R$6,000, no entanto, fechou o ano cotado em R$5,189, expansão de 29,33%. Já neste ano, o câmbio acumula alta de 2,14% e está cotado aos R$5,300.

 

 Mas ele ressalta que não foi só a crise da covid-19 que contribuiu para essa desvalorização. Fatores como a crise política, preocupação com o fiscal, com o teto de gastos e o não andamento das reformas, também influenciaram no aumento do risco país e na diminuição de novas entradas de capital estrangeiro para valorizar a moeda doméstica. O economista lembra que a alta da Selic tende a diminuir a cotação do dólar, mas os recentes aumentos dos juros, que pode chegar a 7,5% no final de 2021, podem não ser o suficiente.

As consequências da desvalorização

 Um dos resultados causados pela depreciação da moeda brasileira é a desconfiança por parte de alguns investidores na retomada da economia. A desvalorização do Real e dos investimentos no Brasil, somados a um aumento do risco país, fazem com que a confiança dos investidores na situação fiscal do país diminua drasticamente.

 Essa desconfiança gera uma fuga de capital e de empresas, as remessas de brasileiros no exterior bateram recorde no primeiro semestre deste ano, com R$ 10 bilhões em compras de imóveis e investimentos. Para piorar, recentemente, o Brasil foi apontado no relatório anual da TMF Group como o país mais complexo para se fazer negócios.

 Já em relação à desconfiança na situação fiscal, o spread dos contratos de cinco anos de credit default swap (CDS), uma espécie de seguro contra calotes, chegou a 178 pontos na quarta-feira passada (8), de acordo com dados da IHS Markit. Além disso, os juros futuros vêm em ritmo de alta e o Tesouro chegou a diminuir a emissão de títulos da dívida em agosto, tudo isto, devido à falta de confiança do mercado na situação fiscal do país.

 Por outro lado, o economista Hugo Passos aponta para o benefício gerado pela alta do dólar nas exportações brasileiras. Segundo ele, os produtos do país ficaram mais atrativos para os estrangeiros, resultando em superávit na balança comercial. Mas ele também afirma que a consequência negativa é a inflação. O aumento de preços das commodities no mercado internacional e a crise sanitária são um dos motivos que explicam o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) a 9,68% em 12 meses.

 O clima político e a situação fiscal do país são os que mais atrapalham uma possível recuperação da economia e do valor da moeda. O economista defende que o governo precisa seguir com as reformas administrativas e tributárias, controlar o teto de gastos e a inflação, além de gerar emprego e renda para a população.

 Quanto à interferência do ambiente político no câmbio, isto ficou muito claro na semana passada. Logo após os protestos de 7 de setembro, o dólar disparou e o índice Ibovespa teve uma forte queda. Essa situação só foi melhorar após uma carta do presidente Jair Bolsonaro publicada na quinta-feira (9), sinalizando uma possível reconciliação entre os três poderes.

 
O futuro da economia ainda é incerto, 2022 será ano de eleições em um país dividido e instável. Segundo o Boletim Focus deste mês, o mercado espera para o próximo ano um câmbio de US$ 5,20, o mesmo para 2021; um aumento na inflação, se comparado ao esperado para este ano, para 4,03%; uma queda no PIB (Produto Interno Bruto), chegando em 1,72%. Já a meta para a Selic, tanto deste ano quanto para o próximo, está em 8%.

 Hugo Passos enxerga que teremos volatilidade no curto prazo. Ele espera que o atual governo e o próximo candidato, possam dar andamento no que for preciso para melhorar o Brasil.


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