20/09/2021 às 23h30min - Atualizada em 20/09/2021 às 22h35min

A representação de transtornos mentais na literatura e o combate a psicofobia

Pesquisa realizada em setembro deste ano aponta que 60% dos entrevistados possuem o hábito de leitura a livros em que personagens tenham transtornos mentais

Julia Gomes - editado por Larissa Nunes
Foto:napratica.org.br
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 720 milhões de pessoas sofrem com doenças mentais em todo o mundo, no entanto, dados da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) afirmam que mais de 1 bilhão de pessoas enfrentam tais doenças.
 
Segundo 11º Painel do Varejo de Livros no Brasil de 2020 divulgado pelo Sindicado Nacional dos Editores de Livros (SNEL), houve um aumento de 22% dos livros vendidos. A Associação Brasileira de Psiquiatria afirma que houve um crescimento de 25% nos atendimentos psiquiátricos após o início da pandemia; tais índices podem está relacionados devido à presença de temas como saúde mental e transtornos mentais na literatura.
 
As procuras por ajuda de psiquiatras e psicólogos poderiam ser maiores, visto que muitas pessoas deixam de buscar por acompanhamento desses profissionais por conta de estigmas presentes na sociedade.
 
Para Ana Carolina Francisco, 19 anos, moradora de São José dos Campos-SP e estudante de psicologia, a melhor maneira de lutar contra os estigmas e convencer as pessoas a procurarem por ajuda profissional é informando-as através das redes sociais, bate papos, lives, entre outros. Ela diz que só se quebra tabus com informações verídicas e de fontes confiáveis, de profissionais formados e especialistas da área.
 
Existem diversas formas de se combater os estigmas pertencentes à psicofobia, sendo uma delas a representação na literatura. Em muitos livros os personagens principais e secundários são neuroatípicos, e ao decorrer da história é mostrado como eles lidam com os sintomas e comorbidades desses transtornos, assim, leitores que se identificam e se sentem representados nestes personagens deixam de acreditar nos estereótipos impostos sobre pessoas neurodivergentes, perdendo o medo e em alguns casos a vergonha de procurar ajuda profissional.
 
Psicofobia e estigma
 
Psicofobia é o termo utilizado para se referir a preconceitos e violências contra indivíduos neuroátipicos (que possuem transtornos ou deficiências mentais). A psicofobia pode ocorrer de forma direta ou indireta, através de estigmas e violências física, psicológica, moral e social. De acordo com a Lei 236/12, a psicofobia é crime e prevê pena de 2 a 4 anos.


Na pesquisa realizada especialmente para esta matéria, apenas 20% dos entrevistados disseram não saber o significado de psicofobia, número relativamente baixo, visto que este termo não é muito conhecido e debatido.
 
De acordo com a estudante Annae Camilett, 18 anos, moradora de Imperatriz-MA e dona da página no Instagram “Ativismo Bipolar”, conta que algumas pessoas descrevem transtornos em livros, em produções cinematográficas e até mesmo na vida real com adjetivos usados de forma tendenciosa ou ações como "traição", "assassinato" e uma pessoa "perigosa" como a música "bipolar" que viralizou.

 
"Retardado", "autista", "esquizofrênico", "bipolar" e outras palavras são constantemente usadas como ofensas e xingamentos, causando muito incômodo e vergonha a pessoas com deficiência e neuroatípicas”, completa Annae.
 
Ela conta que já sofreu ataques em suas redes sociais, tanto por pessoas neurotípicas, como por neuroatípicos. Um dos momentos foi quando abordou o fato da bipolaridade ser um transtorno pouco procurado, estudado e de pouca importância para alguns profissionais.
 
“Nesse texto, eu usei diversas opiniões minhas sobre minha vivência. Esse homem escreveu um texto enorme me chamando de louca, e me mandando tomar remédios urgentemente pois eu estava passando informações nas quais ele não se idêntificava. Me chamou de louca várias vezes.”
Outro caso ocorreu no Twitter, onde um grupo de cinco adolescentes a atacaram dizendo que quem toma cinco medicações por dia é “doente”. Eles a ofenderam com xingamentos psicofobicos, além de fazerem referências à época dos manicômios, onde pessoas neuroatípicas eram torturadas, assediadas e mortas em massa.
 
“Foi bem ofensivo todo o conjunto do texto do homem no Instagram e sobre o grupo de adolescentes, eu me senti na quinta série de novo. Era um grupo de cinco pessoas rindo e me ofendendo uma atrás da outra, despejando cyberbullying em mim.”
 
A representação na literatura
 
É importante que transtornos mentais sejam representados, mas deve-se ter atenção em como são retratadas as características dos sintomas nos personagens.

 
A estudante de psicologia, Ana Carolina, acredita que seja importante dar espaço para as pessoas conhecerem tais transtornos e sempre lembrar que não se deve tratar ou focar em doenças, e sim em pessoas.
 
“Tais doenças precisam ser tratadas com responsabilidade e com muito cuidado para não cair no estereótipo da sociedade ou em tom de gozação, pois é a realidade de muitas pessoas e podem chegar de forma negativa a elas.“
Para Annae, umas das formas mais seguras de escrever um personagem neuroatípico seria realmente ter pessoas neuratípicas lendo, sugerindo ideias e compartilhando suas experiências com os escritores.
 
A mesma diz que livros e estudos podem ajudar, mas que um personagem é reflexo de um ser vivo e não de um “papel”, por isso a única pessoa capaz de passar uma vivência real e realista seria alguém que possui o transtorno ou a deficiência.

 
Outros entrevistados compartilham opiniões parecidas com a de Annae e Ana Carolina. Quando perguntado sobre qual a melhor forma de abordar transtornos mentais, de modo que combata a psicofobia, esses responderam que deveria ser consultando psicólogos, convivendo e conversando com pessoas que apresentando as características psíquicas que desejam mostrar, contando casos reais e até mesmo fictícios, não estereotipando e nem romantizando crises e problemas psicológicos.
 
Diversidade
 
Annae aponta a necessidade da diversidade, ela diz que pessoas neuroatípicas existem de todos os jeitos, sendo pessoas não-brancas, transgênero, não-binário, de várias sexualidades e não somente homens héteros, padrões e brancos, como é retratado em boa parte dos casos.
 
Um exemplo é que o autismo em séries raramente é protagonizado por mulheres ou pessoas não-brancas”, acrescenta.

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