27/09/2021 às 07h56min - Atualizada em 24/09/2021 às 06h55min

Quanto tempo o tempo tem?

A sociedade contemporânea empreende a si mesma, sua ânsia por produtividade acaba se convertendo em penalização interna o que nos leva à patologia neuronal

Vitoria Fontes - Editado por Andrieli Torres
Foto: Relógio exposto em estação de trem | Reprodução: Jan Huber

Quantas vezes você já se sentiu frustrado depois de produzir durante o dia todo? Com qual frequência acaba se penalizando por não ter conseguido resolver múltiplas tarefas? Quantas regras internas já foram estabelecidas através da sua necessidade em incessantemente buscar acelerar o tempo devido ao excesso de atividades? Essas são questões que obtemos as respostas através de hábitos cotidianos.

O século 21 foi definido por conta da patologia neuronal, nossa sociedade é estruturada na autoafirmação, tecnologias digitais, aceleração do tempo, regras internas, excesso de positividade e de estímulos. Com isso, naturalmente, aumenta o número de pessoas que sabem um pouco de tudo, porém de forma aprofundada, nos levando a transformar a produtividade em uma espécie de norte para os indivíduos.

“A sociedade do século XXI não é mais a sociedade disciplinar, mas uma sociedade de desempenho. Também seus habitantes não se chamam mais ‘sujeitos de obediência’, mas sujeitos de desempenho e produção. São empresários de si mesmos”. No lugar da proibição, mandamento ou lei, entram o projeto, iniciativa e motivação. A sociedade disciplinar ainda está dominada pelo não. Sua negatividade gera loucos e delinquentes. A sociedade do desempenho, ao contrário, produz depressivos e fracassados” – disse Byung-Chul Han.

Em uma pesquisa realizada com jovens e adultos entre a faixa etária 18 e 38 anos, a diferença percentual entre um índice e outro foi gritante. Cerca de 96% assumem que já se sentiu inútil após um dia inteiro de trabalho; 98% ocasionalmente se sente cansado sem fazer nada; 77% já se puniu por não ter dado conta de uma ou várias tarefas, por fim, 47% constataram que é necessário sempre estar em movimento.

Com base nesses dados podemos notar que os indivíduos se tornaram empreendedores de si mesmo, assim, depositando um enorme esforço em ser produtivo, autêntico e inovador, logo, o poder converte-se em uma obrigação fazendo mensagens positivas e metas alcançadas sirvam como uma espécie de trajeto para o alcance da realização de multitarefas o que possibilita a criação de um processo em que o empreendedorismo individual é necessário para se manter vivo.

A percepção de tempo varia entre os indivíduos, porém ao analisarmos o cenário como um todos, podemos chegar a um denominador comum e concluirmos que estamos sim vivendo uma era em que Síndrome de Burnout (esgotamento psíquico e físico), depressão, ansiedade e transtornos de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), estão cada vez mais recorrentes e sendo causadas por uma necessidade esmagadora, inalcançável,  cansativa, controladora e manipuladora forma de nos tornarmos reféns de algo que não se pausa, não volta e para nossa surpresa não acelera: o tempo.

Vale a leitura da obra que serviu de inspiração até aqui e para além daqui: Sociedade do Cansaço - Byung-Chul Han 

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