26/09/2021 às 15h12min - Atualizada em 24/09/2021 às 16h10min

Crônica: a vítima e o algoz

Isabelle Gesualdo - Editado por Talyta Brito
Reprodução: Amazônia Real


Era uma típica noite de sexta-feira, em um condomínio de classe média, entre janelas que refletiam luzes acesas e silêncio, uma específica ecoava gritos. O pedido por socorro era frequente, a voz embargada denunciava o desespero daquela mulher. Uma ex-vítima ouviu e, em um gesto de empatia e sororidade, imediatamente ligou para o Disque Denúncias.

Muitas pessoas já viveram histórias de amor - ou que pelo menos parecia ser - cujo enredo se encaixaria perfeitamente ao mito platônico da metade da laranja; a peça que faltava para que a vida fizesse sentido. Mulheres que apostaram todas as suas fichas em um alguém, na expectativa de um amor romântico e eterno. 

 

Os gritos persistiram, mas ninguém interviu. Se as paredes falassem, seriam testemunhas das agressões verbais e físicas. Após duas horas, a polícia chegou e, neste momento, aparentemente, a tortura havia parado. O policial bateu na porta, o agressor a abriu e negou toda a denúncia. A vítima, sucumbida pelo medo e pela dependência emocional, permaneceu calada durante o diálogo entre os policiais e o cônjuge. No dia seguinte, o casal saiu de mãos dadas, como se nada tivesse acontecido no dia anterior.  A mulher, na expectativa de que o algoz vai mudar, silencia e retorna ao cativeiro.

Nesta mesma noite, quantas vítimas estavam sofrendo em seus cárceres? Quantas silenciam suas vozes por medo? Quantas mulheres esquecem que um dia tiveram amor próprio e hoje são vítimas que tiveram suas subjetividades sequestradas. Mulheres de poder aquisitivo, com diplomas, ao contrário do estereótipo criado pelo senso comum, de que apenas mulheres de favelas sofrem violência doméstica.

 

Os primeiros meses parecem perfeitos, o frio na barriga nos primeiros encontros, os “Eu te amo” ditos precocemente, juras de amor e promessas de um futuro feliz. As proibições começam a ser sutis “Essa roupa é muito curta”, “Você já passou tanto tempo com a família, agora você precisa ficar só comigo”, “Suas amigas têm inveja de você”. O algoz cria um cenário em que a vítima fica completamente isolada, assim, a manipulação fica mais fácil. A vitimização também é uma tática frequente nesse processo em que os narcisistas/agressores começam a domar suas vítimas. 

 

É um tipo de sequestro em que a vítima nem se dá conta do cárcere. Em pouco tempo, ele já conhece todas as inseguranças e vulnerabilidades da pessoa que será oprimida. A vítima torna-se dependente emocional e se submete a vilipendiações. Dentro do cativeiro, a sequestrada esquece que há liberdade, que amor não é sinônimo de posse e perde completamente a autoestima. 

 

Milhares de mulheres, no passado e no presente, foram sequestradas. Os depoimentos nas redes sociais são frequentes, ex-vítimas que foram libertadas do cárcere, as escamas dos olhos foram tiradas a alto preço, porque muitas delas não percebem a gravidade da situação a qual estão impostas. 

 

Se a mulher teve a voz silenciada pelo medo, seja a voz dela. Denuncie!

 

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