28/09/2021 às 15h35min - Atualizada em 27/09/2021 às 00h19min

The Morning Show | O caminho para a denúncia do abuso sexual no ambiente de trabalho

A série aborda acontecimentos após o surgimento do Movimento #MeToo

Luana Costa - editado por Larissa Nunes
Alex Levy e Bradley Jackson na cena final de The Morning Show - Foto: Reprodução / AppleTV+

The Morning Show é um dos principais sucessos da AppleTV+. A série, dirigida por Mimi Leder, conta a história dos bastidores do mais famoso jornal matinal dos Estados Unidos.

Após uma denúncia anônima feita ao The New York Times, o âncora do jornal, Mitch Kessler (Steve Carell), é demitido da emissora UBA, acusado de diversos casos relacionados a má conduta sexual em seu ambiente de trabalho.

Para que o nome de Mitch caia no esquecimento de toda a população americana o mais rápido possível, a busca por um novo jornalista causa desentendimentos e muito estresse entre os chefes da emissora e a âncora do jornal, Alex Levy (Jennifer Aniston). É nesse espaço de tempo que um vídeo, viralizado na internet, traz à tona Bradley Jackson (Resse Witherspoon), jornalista apaixonada pela verdade e que não tem medo alguns de expressar suas opiniões de ar transformador sobre a sociedade.

A partir daí, Bradley começa uma nova fase de sua carreira, saindo do quase anonimato para um dos rostos mais conhecidos do país, que lá na frente se tornará uma das peças principais para a denúncia sobre a compra do silêncio das vítimas de Mitch Kessler.
 

The Morning Show -  Trailer oficial da 1ª Temporada | AppleTV+


As vítimas de Mitch Kessler

No decorrer de toda a série, podemos ver inúmeras situações que abordam o desconforto e as consequências geradas pelo abuso sexual. Mia Jordan (Karen Pittman) é uma das funcionárias que sofre por causa do mau comportamento de Mitch. A produtora se envolve com o jornalista durante um ano, mas após decidir terminar a relação, é informada que ela precisará ir para outra equipe dentro do jornal, sendo esse um pedido do próprio Mitch.

Fatos como pedidos de demissões repentinas e diversos casos das relações do jornalista com as profissionais da emissora divulgados em um artigo do New York Times - que tinham como consequência as fofocas nos corredores da UBA - mostram o quanto Mitch Kessler era responsável por um ambiente tóxico e machista. Um exemplo clássico de abuso de poder.
 

A relação entre as reações de Mitch e o movimento #MeToo

TMS é exatamente a reprodução da atual sociedade, repleta de lutas feministas em busca de respeito e direitos iguais entre homens e mulheres, mas Kessler é o personagem que representa o típico homem que aparenta viver em um século no qual as mulheres precisam ser silenciadas. Em boa parte de suas cenas, o âncora minimiza suas vítimas, colocando-as em uma imagem de oportunismo, como se o usassem para crescer na emissora e melhorar seus cargos.

Um dos pontos mais interessantes durante os 10 episódios é, com certeza, a citação frequente sobre o Movimento #MeToo. O movimento, que teve origem pelo Twitter, traz como objetivo a denúncia do assédio sexual feito por homens de alto nível social, que usam de seu poder para se aproveitar de mulheres.

O #MeToo surgiu logo após a exposição do caso do renomado produtor hollywoodiano, Harvey Weinstein, acusado de abusar sexualmente atrizes com a desculpa de deixa-las mais famosas e, após os incidentes, tentar silencia-las com acordos caríssimos.


É fácil enxergar a personalidade de Harvey no antigo âncora quando ambos negam veementemente a prática desses atos e se recusam a admitir que são o lado errado da história. E é por causa disso que, quem já conhece ou procura entender sobre o #MeToo, passa a demonstrar cada vez mais raiva e indignação pelo personagem. Mitch Kessler é, sem dúvidas, o papel mais complexo da carreira de Steve Carell.

 

O silêncio ensurdecedor do alto escalão da UBA

A primeira temporada aborda com clareza as consequências psicológicas das vítimas, causadas tanto pelo abuso sofrido quanto pelo silêncio do presidente da emissora. Hannah Shoenfeld (Gugu Mbatha-Raw) é a chefe de produção do jornal e a principal fonte para a denúncia da UBA.

Após cobrir o tiroteio em um show em Las Vegas, Hannah, que ainda era produtora júnior, é abusada por Mitch no quarto do hotel e convive com seu trauma diariamente. Assim que percebe a forma indiferente que é tratada pelo jornalista, a produtora o denuncia para Fred Micklen (Tom Irwin), dono da emissora, mas a resposta que recebe é uma promoção de cargo em troca de seu silêncio.

O caso de Hannah, ocorrido no início de sua carreira e irrelevante aos olhos do mais poderosos da UBA, é responsável pelo desenvolvimento de uma série de problemas psicológico. E mais um exemplo do que acontece no mundo real.


O efeito de Mitch sobre Alex

Alex Levy é o tradicional jornalismo americano. A âncora apresenta o The Morning Show a 15 anos e é um símbolo de poder e força para seus telespectadores. Fez questão de anunciar sozinha a saída de Mitch e repudiar seus atos no ao vivo, mas, por trás das câmeras, se vê totalmente perdida após a saída de seu parceiro de trabalho.

A personagem de ninguém mais, ninguém menos que Jennifer Aniston, indicada ao Emmy 2020 como Melhor Atriz em Série de Drama, é alguém que mesmo com certo poder na emissora, ainda luta para ser ouvida pelos chefes. Apesar de forte, Alex apresenta grandes momentos de vulnerabilidade e mesmo sendo vítima do machismo presente na empresa, ainda busca formas de defender os mais poderosos, incluindo Mitch, deixando ao público sempre o questionamento: ela sabia sobre os atos do amigo?

Levy é o espelho da construção de uma mulher independente e consciente dos erros que o machismo prega.


A denúncia

The Morning Show não mostra apenas os assédios frequentes no ambiente de trabalho, mas dá força e coragem para que as mulheres denunciem os crimes sofridos. Bradley Jackson e Alex Levy expõem os problemas do jornal de forma explosiva, poderosa e emocionante, que instigam a quem está assistindo a não tirar os olhos da tela em momento algum.

É o objetivo da série mostrar a mudança e o crescimento de cada personagem mulher em um mundo dominado pelo poder dos homens e pela toxidade.


The Morning Show - Trailer oficial da 2ª Temporada | AppleTV+

O que vem após a denúncia será mostrado na segunda temporada, que já se mostra repleta de evolução e autoconhecimento das jornalistas. As consequências de um assunto tão angustiante e muitas revelações sobre os bastidores do The Morning Show ainda virão à tona.
 


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