30/09/2021 às 11h25min - Atualizada em 30/09/2021 às 03h51min

Crônica: Quem é essa refletida em meu espelho?

Larissa Vieira - Editado por Larissa Bispo
Reprodução/Pinterest
Era uma quarta-feira quando acordei com o barulho do despertador e um modesto feixe de luz solar atravessando a cortina do meu quarto. Nunca fui uma pessoa de muitos amigos ou famosa nas redes sociais, mas sempre pela manhã gostava de rolar os infinitos feeds enquanto me despertava do sono.
 
Ver a vida de outras pessoas rolar ao toque de meus dedos me distanciava da minha rotina e aliviava meus pensamentos. Durante essas horas de distração, também aproveitava para analisar comportamentos, hábitos e sempre anotava as dicas de dietas e receitinhas de cosméticos caseiros.
 
Naquela manhã em específico, porém, fiz algo que nunca antes havia feito. Ao olhar a foto de uma conhecida, resolvi salvar o filtro usado por ela no meu rolo de câmera que, até o momento, estava vazio. Não tinha o costume de usar esses filtros em minhas fotos, mas, a partir dali, me tornei dependente.
 
Não sei informar ao certo as inúmeras influências alheias que me formaram enquanto ser humano, mas posso garantir que foi ali, ao salvar e, posteriormente, aplicar aquele filtro em minhas fotos, que iniciei meu ciclo de obsessão e vício.
 
Antes de continuar contando os passos que me levaram a um estado de completa estranheza e falta de identificação comigo mesma, creio que alguns pontos precise ser esclarecidos.
 
Quem eu sou, meu nome, idade, profissão ou como consegui arcar com tudo que precisei fazer enquanto tentava me encontrar, não são os objetivos dessa narração. No fundo, eu sou aquela por quem na correria da vida te passa despercebida, seja sua amiga, vizinha, colega ou até mesmo você.
 
O que me importa não é quem sou, pois as palavras que compunham a resposta para essa pergunta deixei se perder nos traços do meu rosto que apaguei em fotos, nos jantares que deixei de comer por medo de engordar e nas mesas de cirurgia que me deixei sangrar. O importante é que com meu relato alguém possa se achar e não precise desejar um outro corpo para se realizar.
 
Bem, voltando àquela manhã de quarta-feira, me recordo que as imagens postadas por minhas conexões nas redes sociais não saíam da minha cabeça. Os corpos perfeitos, as peles sem marcas ou rugas e os cabelos lindos e brilhantes me remoíam por dentro.
 
Após horas com os olhos vidrados na tela, iniciei um mini book fotográfico ali mesmo, dentro do meu quarto. Primeiro foram 10 fotos, sem filtro algum. Apaguei. Mais 14 para não falar que não tentei. Deletei. Outras cinco com o filtro que salvei. Num é que gostei?
 
Mais 10, 24 e 25. Depois de algumas horas o cartão de memória apitou e me freou. Com mais de 50 fotos salvas, parei, filtrei e postei. Na verdade foram apenas três das 50, o suficiente para uma fileira no Instagram que me rendeu bons likes.
 
Com o passar dos dias e consumindo cada vez mais do meio digital, passei a sentir necessidade de alimentar minhas redes com mais frequência. Depois de descobrir beleza na mulher estampada na galeria de fotos após os filtros, passei a sentir necessidade de algo mais permanente.
 
Nunca antes havia enxergado problemas com meu nariz, mas analisando as imagens percebi que ele poderia ser um pouquinho mais pequeno, quem sabe mais fino e por que não mais empinado?
 
Foi assim que fui parar em uma mesa cirúrgica pela primeira vez na vida. Nessa altura já estava mais popular e resolvi gravar tudo e compartilhar com a galera na internet. Vídeos como esses já me interessavam, a mudança após uma rinoplastia é sempre maravilhosa, né?
 
Bom, pelo menos eu achava que seria. Comigo foi um pouco diferente, precisei de mais duas cirurgias reparadoras, mas no final das contas lá estava eu com meu nariz novo e, com ele, alguns problemas de respiração, mas quem se importa? Pelo menos estava bonita!
 
Assim que comecei a postar as fotos do meu rosto completamente recuperado os elogios chegaram. Me tornei referência para várias jovens que me seguiam e até dicas de pós-cirúrgico, coisa que eu nem entendia, passei a compartilhar.
 
Daí em diante considero que o tempo passou em um lapso. Quando dei por mim já estava assim. Acontece que emendei uma cirurgia na outra para não perder tempo. Foi abdominoplastia, lipo led, silicone no peito e no bumbum, lipo enzimática na papada e na axila, diminuição de testa e bichectomia.
 
Não sei dizer quantas horas da minha vida passei deitada em macas e camas hospitalares, mas sei que a cada cirurgia salvava a foto de outra mulher com quem queria me parecer. Com as recuperações das cirurgias, umas mais dramáticas do que outras, fui notando o quanto era difícil me dar por satisfeita.
 
Acontece que as tendências e os padrões de beleza mudam com rapidez, então se um dia estava comendo apenas uma folha de alface para me manter magra, no outro o feed do meu Instagram me mostrava que as curvas eram o que estavam em alta.
 
Para me manter atualizada, marcava retornos constantes ao meu cirurgião e quando descobri a harmonização, foi um verdadeiro sonho. Imagine modelar seu rosto da forma que deseja sem um corte, uma cota de sangue! Não podia ser mais perfeito!
 
Encontrei naquelas seringas de ácido hialurônico um refúgio pessoal. Não se passava outra coisa na minha cabeça além de qual seria a próxima consulta e com ela a nova aplicação. Boca maior, nariz ainda mais empinado, linhas de expressão suavizadas, olhar mais sexy, maças do rosto acentuadas e maxilar marcado.
 
A cada intervenção, nascia um novo rosto. Através das redes sociais eu seguia mantendo todos atualizados das mudanças, mas conforme me expunha, mais comentários negativos recebia. Todos queriam ver os antes e depois, e quando eu tentava falar de outro assunto, percebia o desinteresse de quem me seguia.
 
Dessa vez era uma sexta-feira, estava sentada em meu sofá sentindo dores no rosto. Essas dores já faziam parte da minha rotina, eram resultantes das intervenções e, para lidar com elas, precisei passei a tomar remédios que me deixavam inchada. Após ler mais um comentário me chamando de bizarra, fui correndo ao banheiro e me olhei no espelho.
 
Naquele reflexo olhado com atenção pela primeira vez em anos, me desesperei ao não saber quem era a mulher em minha frente. Passava os dedos pelo rosto e sentia o toque. Como isso era possível se aquele rosto não era meu? Tocava meu corpo e sentia as lágrimas descerem pelas minhas bochechas. O que foi que eu fiz? De quem é esse corpo que as minhas mãos percorrem?
 
Resolvi falar em voz alta e o timbre da minha voz me assustou. Há alguns meses havia implantado um ‘chip da beleza’ que conheci pelas redes sociais e prometia aumentar minha massa magra e disposição, mas ao que parece afetou outras áreas do meu corpo. Se até minha voz mudou, o que será que restou de mim em eu mesma?
 
Como recuperar a pessoa que aos poucos fragmentei entre uma cirurgia e outra? Como viver carregando o peso de um corpo que não era e nunca foi meu? Como lidar com o fato de não me reconhecer em meu próprio reflexo?
 
Essas e outras reflexões surgiram em uma sexta-feira, mas passaram a me acompanhar nos domingos, segundas, terças, quartas, quintas, sextas e aos sábados. Não há um só segundo que não constato a estranheza em habitar um corpo que não é meu.
 
Hoje, eu sei que não foram os filtros ou cirurgias que me afastaram de mim. Essas foram apenas as ferramentas que estavam ao meu alcance e que pensei serem capazes de me transformar em alguém melhor, mais aceita, mais amada e mais feliz. Minha história se mistura aos milhares de relatos daqueles que, assim como eu, foram vítimas de uma sociedade corrompida pela pressão estética e pela busca de uma perfeição que já obtemos ao nascer.
 

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