19/10/2021 às 10h05min - Atualizada em 18/10/2021 às 13h46min

A arquitetura hostil como sintoma de desigualdade social

Sara de Farias - Editado por Ynara Mattos
Lucas Juhler

A maioria das pessoas apenas passa pela cidade com objetivos, trajetórias, planos e afazeres. Apenas passam sem tempo de se agarrar a detalhes como design e até outros indivíduos. Ao chegar em casa, seja cansado do trabalho ou de qualquer outra atividade, a maioria tem como maior prazer deitar-se sobre a cama e dormir. Ter um teto sobre sua cabeça e um leito confortável não parecem privilégios até que se ponha em perspectiva.

Segundo dados do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), grande parte da população não tem moradia, quase 222 mil pessoas vivem em situação de rua no Brasil. Quantidade que pode ter aumentado devido à propagação da Covid-19 e dos efeitos da pandemia. Por conta disso, locais públicos passam a ter outro significado, um banco de praça se torna cama, uma ponte se torna teto, uma vitrine de loja ser um abrigo, temporário, mesmo que estes só possam ser ocupados a noite.

Constantemente as realidades se chocam, pois o nada ocupado por um desabrigado se torna visível,  não como um ser humano em situação precária, mas para muitos, pessoas marginalizadas são um incomodo que atrapalham a paisagem, sujam a cidade e principalmente não rendem dinheiro.

Por isso, a solução a curto prazo encontrada para solucionar o problema vem nos moldes da arquitetura hostil. O termo foi criado em 2014, pelo repórter Ben Quinn, mas esta prática já vem sendo realizada desde os anos 90.

A arquitetura hostil é composta pelo planejamento de espaços urbanos controlados por determinados grupos sociais dominantes de forma a excluir outros grupos sociais (principalmente moradores de rua) com alterações como bancos com divisórias, pedras colocadas sob viadutos e objetos pontiagudos na fachada de estabelecimentos.
 

É possível dizer que as arquiteturas hostis são práticas que denunciam o grau de tensão de uma sociedade. Se há naturalização dessas práticas no espaço público é sinal de que a sociedade não está bem. Provavelmente naturaliza uma situação de conflito social e tem caminhado para uma segregação cada vez mais preocupante.” Segundo o arquiteto, mestre e doutor pela PUC, Fabrício de Francisco Linardi.




Sem ter onde se abrigar, essas pessoas em situação de rua se veem obrigadas a se locomover ainda mais para buscar outros locais. Essa “solução” não resolve o problema social, apenas o afasta da vista das classes dominantes.
 

Evidentemente, deve-se coibir esse tipo de ação. Mas é preciso ter em mente que em uma sociedade com propósitos inclusivos esse tipo de arquitetura não será implantada. Por esse motivo acredito que o melhor remédio para se evitar as arquiteturas hostis é a defesa dos valores democráticos e pela conquista da cidade democrática”, afirma Fabrício Linardi.


O doutor também destaca que em contraponto das arquiteturas hostis, existe a arquitetura inclusiva, que busca a democratização de espaços públicos visando contribuir para a cultura da humanidade e promover a justiça social. Como Rafaela Costa, arquiteta e urbanista da UNIFOR, cita em seu artigo: 
 

“Fica claro a importância de políticas para essas pessoas, como instalação de banheiros, restaurantes populares, utilização de prédios com obras inacabadas e/ou abandonados tornando-se abrigos e casas de apoio e a política de redução de danos defendida e estudada por vários estudiosos do assunto.”


A implementação de arquiteturas hostis revela a desigualdade em nosso meio, mas na maioria das vezes passa despercebido diante de nossos olhos. A visibilidade desta questão traz a tona problemas sociais sérios, que necessitam de um olhar solidário, para tratar dessas pessoas em situação de rua como cidadãos, ou seja, indivíduos que habitam e também convivem na cidade. Apesar de serem constantemente postos a margem, não são invisíveis.

 

Referências:

COSTA, Rafaela. Vamos colocar uma pedra nesse assunto? Que tal não!: A política pública higienista das nossas cidades e o impacto na sociedade que preferimos não enxergar.. [S. l.], 10 fev. 2021. Disponível em: https://projetobatente.com.br/vamos-colocar-uma-pedra-nesse-assunto-que-tal-nao/. Acesso em: 12 out. 2021.

 

 

CRUZ, TALITA. O que é Arquitetura Hostil? Conheça 17 Exemplos Impactantes. [S. l.], 21 mar. 2021. Disponível em: https://www.vivadecora.com.br/pro/arquitetura/arquitetura-hostil/. Acesso em: 12 out. 2021.

 

 

 

 


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