28/10/2021 às 14h21min - Atualizada em 28/10/2021 às 14h11min

As mulheres jornalistas no Brasil são as maiores vítimas de violência no meio digital

As violências se concentram não apenas no ambiente digital, mas também ameaças, agressões físicas e verbais

Cláudia Xavier - Revisado por Liliane de Lima
Site Metrópoles
Em novembro de 2020, a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) contabilizou 43 alertas na categoria: “Ataques contra a liberdade de expressão”, sendo que cinco desses abusos aconteceram na internet e todos contra mulheres. De 72 registros, 20 foram direcionados a profissionais do gênero feminino e, esses números seguem aumentando.


























Na sociedade atual, marcada pelo patriarcado, misoginia e machismo, o homem possui o poder de privilégios e favoritismo social, econômico e político, enquanto o sexo feminino é apenas um sujeito predeterminado a ser julgado, objetificado e atacado por serem quem simplesmente são: mulheres, além de não receberem os mesmos direitos, ainda precisam cumprir obrigações, ou seja, uma série de regras para serem aceitas como mulheres na sociedade. E quando falamos de jornalistas mulheres falamos de um impacto maior e recorrente em relação aos insultos, pois tornam-se figuras públicas mais sujeitáveis a violência. 
Os ataques sofridos por jornalistas mulheres são somados por xingamentos machistas, assédio, difamação, perseguição, ameaças, desqualificação do seu trabalho, intimidação e até exposição de dados pessoais, o chamado doxxing.

Um acontecimento recente e de imensa repercussão foi o episódio acometido a jornalista Schirlei Alves, responsável pela reportagem o sobre o caso da Mariana Ferrer. A frase “estupro culposo” viralizou nas redes socais, sendo comentada por celebridades e autoridades de alto escalão. A partir disso, a jornalista começou a receber ataques misóginos e perseguição em suas redes sociais, como também ameaças a sua integridade física reproduzidas por perfis falsos e fontes semelhantes.

 












O jornalismo por si já é uma profissão perigosa, mas ser jornalista e mulher é duplamente perigoso. As jornalistas negras, lésbicas, ou de algumas religiões, sofrem muito mais discriminações. Enquanto 64% das jornalistas brancas são vitimas de ataques on-line, a taxa dispara para 81% entre as profissionais negras e 88% para homossexuais.
 
Em março de 2021, a Repórteres Sem Fronteiras (RSF) publicou um relatório titulado “O jornalismo frente ao sexismo”, que revela a extensão dos riscos de violência sexual e de gênero enfrentados por mulheres jornalistas e seus impactos na sociedade. A pesquisa revelou que dos 112 países onde jornalistas responderam ao questionário elaborado para este relatório, 40 foram considerados perigosos ou muito perigosos na profissão. Isso só evidencia a insegurança das mulheres no seu próprio ambiente de trabalho, local este que deveriam sentir-se seguras.























Segundo Christophe Deloire, o secretário geral da RSF: “Temos a obrigação de defender o jornalismo com todas as nossas forças, em face de todos os perigos que o ameaçam, e as agressões sexuais e baseadas no gênero e a intimidação estão entre esses perigos.” As jornalistas são afetadas diretamente e indiretamente pela violência de gênero, que como consequência levam estas profissionais a encerrarem temporiamente ou definitivamente suas contas pessoais ou profissionais da internet como Facebook, Instagram e Twitter, assim se autocensurando, auto silenciando e por fins drásticos até se demitirem de seus cargos profissionais. Além do estresse, angústia, medo e diversos outros problemas psicológicos.

A questão da problemática do machismo e do contexto patriarcal, problemas estes estruturais no Brasil e que por resultado gera a violência de gênero constituídos por ataques misóginos, é alinhado com o discurso do atual governo que vivenciamos, um governo que despreza jornalistas e viola a liberdade de imprensa no país.

De acordo com o Relatório da Violência contra Jornalistas e Liberdade de Imprensa no Brasil, elaborado em 2020 pela Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), o Presidente da República Jair Messias Bolsonaro (Sem Partido), sozinho foi responsável por quase 41% dos ataques à imprensa no país. A postura do presidente e de seus apoiadores definem um padrão de ataques em alta à profissionais do gênero feminino, havendo frequentes subnotificações.

Quando não são ataques são conotações sexuais, como no caso do insulto a jornalista Patrícia Campos Mello, do jornal Folha de S.Paulo no mês de fevereiro de 2020 durante uma entrevista ao Palácio do Alvorada, a repórter foi autora de uma reportagem de 2018 sobre os disparos de mensagens no WhatsApp para beneficiar políticos durante as eleições daquele ano. Durante a reportagem, Bolsonaro acusou Hans River do Rio Nascimento, ex-funcionário da Yacows, como uma das empresas que teria feito o disparo, sem apresentar provas acusou Patrícia de oferecer sexo em troca de informações para a reportagem. Bolsonaro a insultou com uma insinuação sexual: “Ela queria 1 furo. Ela queria dar o furo a qualquer preço contra mim.” disse o presidente. O jargão como nós repórteres sabemos significa publicar uma informação antes dos concorrentes, mas ao usar essa expressão, o presidente enfatizou o duplo sentido da palavra dando a se referir a uma conotação sexual. Apoiadores ao seu lado deram risada. Logo após esse acontecimento o surgimento de contas e perfis falsos começaram a atacar a jornalista 24 horas como uma campanha de verdadeiro linchamento virtual. No dia 6 de março o presidente Jair Messias Bolsonaro (Sem Partido) voltou a atacar a Patrícia Campos Mello no Twitter. Logo em março de 2021, Bolsonaro foi condenado a pagar indenização de 20 mil reais a jornalista Patrícia Campos Mello por crime contra ela por declarações sexistas em 2018. Seu filho, deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) também foi condenado a pagar 30 mil reais a jornalista Patrícia Mello.

Essas declarações machistas, misóginas e sexistas do presidente da Republica só enfatizam ainda mais a continuidade para a violência das profissionais jornalistas no meio digital.

Com inúmeras multiplicações de violência, ataques e ameaças contra jornalistas, um Projeto de Lei, a PL 4522/2020, foi apresentado pelo senador Fabiano Contarato (Rede-ES) que propõe a criminalização da hostilização a profissionais de imprensa. A pena afixada pela proposta apresentada propõe a detenção, de um a seis meses, e multa para quem impedir ou dificultar a atuação do profissional de imprensa. Se o fato consistir em violência ou ameaça, a pena será de três meses a um ano, e multa. Para Contarato: “a legislação deve ser revista para salvaguardar a liberdade de imprensa, que é uma garantia imprescindível ao bem jurídico de acesso à informação garantido pela Constituição Federal.” Outra PL, a PL 2378/2020, tipifica especificamente o crime de abuso de autoridade contra jornalistas e traz punições a autoridade que incentiva assédio direcionado a jornalistas. Porém todas essas PLS não especificam, infelizmente, à questão de gênero, o que poderia ser pensado e desenvolvido de acordo com as últimas pesquisas, um número alarmante de ataques sofridos por mulheres no exercício de seu trabalho jornalístico.  


REFERÊNCIAS: 
 https://www.correiobraziliense.com.br/mundo/2021/04/4921329-mais-de-70--das-jornalistas-foram-vitimas-de-violencia-on-line-diz-unesco.html


https://www.abraji.org.br/noticias/jornalistas-mulheres-sao-as-maiores-vitimas-de-ataques-no-ambiente-digital
 
https://aterraeredonda.com.br/as-mulheres-jornalistas-no-brasil/ 

 

 
 
 
 

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