29/10/2021 às 10h04min - Atualizada em 29/10/2021 às 09h25min

Diário como forma de eternizar histórias

Os escritos secretos podem se tornar memórias marcantes para a literatura

Sheyla Ferraz - Editado por Talyta Brito
Reprodução : Bibliomundi

Diários são registros de fatos, emoções, aventuras e realizações pessoais do(a) autor(a). Os escritos são caracterizados por serem de cunho íntimo e secreto, seguindo, normalmente uma série de relatos do dia a dia. No geral, a leitura é tentadora justamente por conter situações cujo o autor não quer que ninguém saiba.

Ao compilar as memórias e torná-las públicas, no universo da literatura dependendo da densidade das histórias e do contexto, elas podem ganhar muito peso – como O diário de Anne Frank, lançado em 1947. A obra está entre as mais lidas do mundo. Anne, ainda tão jovem, descreveu como foi a dura experiência de se refugiarem um porão em Amsterdã para se proteger dos nazistas. Ela e sua família judia lutaram em meio ao holocausto na tentativa de saírem vivos diante das crueldades que os judeus sofriam na Segunda Guerra Mundial.

É realmente inexplicável que eu não tenha deixado de lado todos os meus ideais, porque eles parecem tão absurdos e impossíveis de se concretizarem. Mesmo assim eu os conservo, porque ainda acredito que as pessoas são boas de coração. Simplesmente não posso edificar minhas esperanças sobre alicerces de confusão, miséria e morte. Vejo o mundo gradativamente se tornando uma selvageria. Escuto o trovão se aproximando, cada vez mais, o que nos destruirá também; posso sentir o sofrimento de milhões e ainda assim, penso que tudo irá se corrigir, que esta crueldade também terminará. Enquanto isso, preciso adiar meus ideais para quando chegarem os tempos em que talvez eu seja capaz de alcançá-los." (15 de julho de 1944 - Trecho do Diário de Anne  Frank) 

Outro nome importante para a literatura é Franz Kafka, o livro Diários trás os sigilosos sentimentos, pesares e importantes momentos de sua vida, grande parte dos registros foram feitos na fase adulta de Kafka, dos seus 26 até os 40 anos. Ele expressava sua insatisfação com a própria aparência e com o trabalho, o escritor também enfrentava questões emocionais sérias como a depressão, o complexo de inferioridade e a solidão.

"Por fora, pareço-me com todo mundo; tenho pernas, tronco e cabeça, uso calça, paletó e chapéu; fui posto devidamente para praticar ginástica e se, apesar disso, fiquei baixinho e fraco, então foi porque era mesmo inevitável." (19 de junho de 1910 - Trecho do Diários)

No Brasil, temos a clássica e emblemática obra de Carolina Maria de Jesus: Quarto de despejo - diário de uma favelada, publicado em 1960. A escritora descreve seu cotidiano como moradora da favela em Canindé, São Paulo. Ela relata sua rotina como catadora de lixo, as adversidades como mulher negra que vivia em condições de extrema pobreza, mãe solteira, ela esmerava sua vida para manter a casa sem esconder os sentimentos que lhe ocorriam quando acordava desgastada pela luta.

Aniversário de minha filha Vera Eunice. Eu pretendia comprar um par de sapatos para ela. Mas o custo dos gêneros alimentícios nos impede a realização dos nossos desejos. Atualmente somos escravos do custo de vida. Eu achei um par de sapatos no lixo, lavei e remendei para ela calçar.” (Trecho do livro Quartos de despejo, diário de uma favelada)

 

Os diários são documentos importantes, mesmo quando o autor morre sua história pode continuar sendo lida e contada graças a coragem de escrevê-la. Por mais que parte desses autores não imaginassem e nem tivessem a pretensão de comporem com maestria a galeria de escritores notáveis da literatura, fato é que, o que eles escreveram do que sentiam e passavam em períodos ímpares de suas vidas, o trouxeram para lugares de destaques e, como consequência os leitores que consomem obras como essas acabam se identificando também com a trajetória dos autores.

 


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