04/11/2021 às 21h21min - Atualizada em 04/11/2021 às 21h05min

Torto Arado: literatura e representatividade afro-brasileira

Entenda como a obra reflete o trabalho servil e resgata a história africana no Brasil

Kayllani Lima Silva - Editado por Andrieli Torres
Reprodução/Internet

"Torto Arado" de Itamar Vieira Junior, é uma obra marcada por sua narrativa poética, desnuda e atemporal. Nas suas linhas, adentramos a fazenda de Água Negra e enxergamos, mediante o olhar das irmãs Belonisia e Bibiana, o peso da relação servil, a crueldade do racismo, as disparidades de gênero  e a luta por  justiça e igualdade. 

“Mas havia fazendeiros e sitiantes que cresceram em número e que exerciam com fascínio e orgulho seus papéis de dominadores, descendentes longínquos dos colonizadores”. É assim que Bibiana descreve as permanências do Brasil escravocrata e lança luz para uma cultura de dominação e marginalização. 

A Luta do povo de Água Negra é a luta do negro em solo brasileiro. Apesar de passados 133 anos da abolição, a violência e a exploração permanecem como obstáculos no caminho pela sobrevivência e qualidade de vida dessa população. A indiferença e a batalha por igualdade não vem do imaginário, mas de uma realidade mais dura que os retratos ficcionais. 

Quanto à divisão social que distancia pessoas e suprime direitos, Torto Arado não deixa passar despercebido e a descreve através do olhar infantil de Bibiana: “e como era diferente o mundo além de Água Negra! Como era diferente a cidade, com suas casas grudadas umas às outras, dividindo paredes. As ruas calçadas com pedras. O chão da nossa casa e dos caminhos da fazenda era de Terra”. 

O trecho descreve o primeiro contato da protagonista com a cidade, onde ela sente com mais intensidade o peso do racismo e relata: “foi o primeiro lugar em que vi mais gente branca que preta. E vi como as pessoas nos olhavam com curiosidade, mas sem se aproximar”. 

Belonisia e Bibiana são vozes e olhares que ecoam a resistência. Além de despertarem o olhar para o preconceito racial no Brasil, elas são símbolo do poder da mulher negra e da necessidade dessa representação na literatura. 

Conceição Evaristo / Foto: Rafael Arbex

Conceição Evaristo, linguista e escritora brasileira, é uma personalidade grandiosa quando falamos de representatividade afro-brasileira na literatura. Em depoimento ao canal Leituras Brasileiras, ela fala enfatiza que sua produção literária carrega as marcas de sua vivência enquanto mulher negra na sociedade. 

Conceição observa que essa criação ficcional da literatura negra, desenvolvida por autores negros, enfrenta muitas barreiras. “Quando nós usamos as nossas experiências, as nossas culturas e transformamos em textos literários é uma passagem mais difícil. É como se um negro não tivesse o direito de criar suas próprias histórias, de falar de suas próprias histórias”, relata.

Na visão da escritora, a literatura afro-brasileira atua no preenchimento de lacunas que a história não pode suprir. Ela cita uma de suas obras, intitulada “Becos da Memória”, como exemplo de obra ficcional que resgata as memórias do período da escravidão. 

Para Conceição, a literatura também é espaço de reafirmação e prostesto. “Trabalhar esse passado é uma maneira de reivindicar uma posição de dignidade no presente. E, talvez, mais do que isso: trabalhar esse passado na literatura é uma forma de afirmar a sua identidade afro-brasileira”, destaca.

Seja em Torto Arado, seja nas obras de Conceição Evaristo, a resistência da população afro-brasileira está presente e clama por visibilidade para além das páginas de um livro.  

REFERÊNCIAS: 

Depoimento de Conceição Evaristo para o canal Leituras Brasileiros: 

https://www.youtube.com/watch?v=QXopKuvxevY 

VIEIRA JUNIOR, Itamar. Torto arado. 1a Reimpr. São Paulo: Todavia, 2019.  

 

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