04/11/2021 às 22h02min - Atualizada em 04/11/2021 às 21h06min

Vítimas esquecidas da Covi-19: Crianças e adolescentes órfãos da pandemia

Durante os últimos dois anos, crianças e adolescentes perderam pai, mãe e responsáveis legais, deixando uma lacuna em suas vidas difícil de preencher e traumas quase impossíveis de serem superados

Emily Prata - Editado por Andrieli Torres
EL PAÍS e BBC Brasil
Foto: Reprodução/Internet

A comissão parlamentar de inquérito (CPI), que investigou supostas omissões e irregularidades nas ações do Governo Federal durante a pandemia de Covid-19 no Brasil, teve uma última sessão marcada por histórias emocionantes de familiares das vítimas. Os relatos de dor e sofrimento emocionaram deputados, público e até mesmo o intérprete de Libras presente, que precisou ser substituído por outro colega por cair no choro ao traduzir a declaração de Giovanna Gomes Mendes da Silva, de 20 anos.

 

A história de Giovanna é marcante por demarcar o fenômeno que passou a ser chamado de órfãos da covid-19, jovens e crianças que perderam seus pais para a doença que ainda assombra o mundo. A jovem perdeu as duas figuras de maior referência em sua vida, além de sua fonte de renda familiar, Giovanna precisou assumir responsabilidades que aumentaram quando resolveu assumir a guarda da irmã de 11 anos. Apesar do sonho em cursar medicina, precisou trancar o cursinho pré-vestibular e se matricular no curso de Odontologia, no qual havia nota necessária para aprovação. 

 

“Eu, meus pais e minha irmã éramos muito unidos. Onde eles estavam, a gente estava junto. Quando meus pais faleceram, a gente perdeu as pessoas que a gente mais amava. Eu vi que precisava da minha irmã e ela precisava de mim, eu me apoiei nela e ela se apoiou em mim”, declarou a jovem.

 

Outra história que partiu o coração do público foi a de Mariza Lima, de 36 anos, professora de educação infantil, era mãe de uma adolescente de 15 anos, uma menina de nove e estava no início de uma gravidez de gêmeos. Por conta de questões físicas e de saúde, Mariza foi morar com a irmã, Mayra Pires Lima, de 38 anos, que é enfermeira e está nos últimos quatro meses de gestação. Com as festas de fim de ano a pandemia volta a piorar, após ligeira melhora, e no dia 12 de janeiro a educadora apresenta sintomas da doença, duas semanas após o diagnóstico de sua irmã. Mariza, porém, não resistiu e faleceu em 10 de fevereiro, deixando quatro filhos, além de familiares e alunos.

 

“Não foi falta de oxigênio que matou minha irmã. Isso colaborou. Mas o que a matou foi a demora no acesso ao leito de UTI. Ela precisava imediatamente, mas ficou 10 dias na enfermaria agonizando”, declarou Mayra em entrevista ao jornal EL PAÍS.

 

VÍTIMAS INVISÍVEIS


O Brasil possui a marca de país que mais registrou vítimas da pandemia em 2021, com cerca de 608 mil mortos, ainda com o avanço da vacinação e a desaceleração no número de óbitos o país permanece com essa triste marca. Mas a covid-19 também trouxe vítimas invisíveis, que foram afetadas diretamente pelas perdas trazidas pelo vírus. De acordo com estudo global realizado pelo Imperial College, do Reino Unido, estima-se que 5 milhões de crianças e adolescentes em todo o mundo tenham perdido mãe, pai ou ambos, além de responsáveis pela criação, como os avós.

A calculadora dos órfãos da pandemia, metodologia utilizada no estudo, aponta que, somente no Brasil, 168.550 crianças e adolescentes perderam os pais na pandemia, até o dia 12 de outubro. 

Mas os estudos e associações que buscam angariar esses dados encontram uma barreira muito grande, já que os os dados oficiais não oferecem transparência de acesso a essas informações, dificultando encontrar essas crianças.

“Uma primeira iniciativa é encontrar quantas são e quem são as crianças órfãs da covid-19, porque
os dados oficiais não nos permitem ter essa transparência. É difícil até quantificar a classe e raça das vítimas, porque os dados não são notificados, quanto mais se eles deixaram filhos”, afirma o coordenador executivo da Associação Vida e Justiça, Renato Simões.

Porém, ainda que os números fossem claros, não representam o tamanho da tragédia e sofrimento causado a essas crianças pela perda de seus entes queridos e responsáveis, além dos dramas e dificuldades particulares causados em cada uma das famílias. 

 

“A morte destes pais é perder a referência da vida. O que essas crianças e adolescentes conheciam como estrutura, para suas vidas e desenvolvimento, se esvai. A partir disso, um novo adulto assume a função. E isso precisa de um tempo de readaptação”, explica a psicóloga Mayra Aiello, cofundadora do Instituto Doulas de Adoção Brasil, em entrevista ao EL PAÍS. 

 

SAÚDE MENTAL

 

A perda a qual essas crianças e adolescentes enfrentam, trazem diversos impactos em suas vidas, um deles é o desamparo e o impacto emocional causados por mortes tão sofridas e repentinas, perdas que eles não imaginavam sofrer tão cedo. Além disso, com a perda dos pais ou figuras de cuidado, essas crianças precisam ser incluídas em uma nova dinâmica familiar. Mesmo que sejam acolhidas por parentes, vai ser preciso se ajustar à nova realidade, somado ao trauma do luto precoce acaba gerando uma grande carga emocional.
 

“Essencialmente, quebra as suposições das crianças sobre o mundo quando os seus pais – essas figuras que deveriam dar uma sensação de segurança e proteção e atender às necessidades básicas – morrem”, diz Tashel Bordere, professora de desenvolvimento humano e ciências da família na Universidade de Missouri. Assim, ao abrigar essas crianças e adolescentes é preciso ter maior atenção quanto ao seu estado emocional e psicológico, sendo essencial que possuam acompanhamento profissional para lidar tanto com o luto quanto com a nova realidade. 

Além disso, o suporte social é importante para proteger a integridade não só emocional, mas também física dessas crianças, já que elas se tornam mais vulneráveis às mazelas sociais quando perdem suas figuras paternas e maternas, correndo maior risco de violência física, emocional e sexual, além da interrupção dos estudos. Por isso é importante que os novos responsáveis, parentes ou país adotivos, criem um ambiente harmônico e seguro com coesão familiar, mas também é preciso de suporte financeiro, para que assegure sua permanência no ambiente escolar e a garantia do seu bem-estar físico e social.

 

AUXÍLIO FINANCEIRO

 

O relatório final da CPI da Pandemia, prevê a execução de projetos de lei que proponham uma pensão aos órfãos da Covid-19, ainda não existem valores definidos para esse auxílio, mas os textos da Câmara e do Senado estipulam de meio até um salário mínimo (1.500) por criança até que atinjam a maioridade. “É essencial que haja uma compensação mínima ao grande número de óbitos no país —uma circunstância resultante, em larga medida, das omissões e ações de agentes públicos em favor da ampliação do contágio pela covid-19 no território nacional”, explica o relatório. 

 

Alguns estados já estão disponibilizando esse suporte financeiro, no Maranhão o Auxílio Cuidar planeja desembolsar 500 reais mensais, até que a criança atinja a maioridade civil (21 anos), já em Pernambuco serão 550 reais, com possibilidade de ser estendido até os 24 anos caso ingresse na universidade. No estado de São Paulo, o Governo pagará seis parcelas de 300 reais para as famílias que se encontram em situação de vulnerabilidade que perderam familiares para a covid-19. “É de uma hora para outra que surgem as crianças. Esses casos são muito comuns de você precisar de apoio financeiro para comprar fralda, leite em pó e comida”, explica Simões. 

 

Quando esses auxílios não são providos pelo Estado, As vítimas e seus familiares contam com o apoio e solidariedade do próximo, com ONG 's e Instituições que dão apoio a essas famílias. Mayra Lima, uma das familiares ouvidas na CPI e já citada previamente, relatou as dificuldades da família ao receber os quatro sobrinhos e a importância das doações que recebe todos os meses. “A gente recebe doação de leite, fraldas. Eles estão crescendo, já estão comendo outros tipos de alimentação, então os gastos são bem grandes. Em média, só com leite e fraldas a gente gasta mais de R$ 1 mil mais ou menos”, relata ao Amazonas Atual. 

 

Essas famílias, crianças e adolescentes são vítimas reais da pandemia, porém invisibilizadas, colocadas de canto e ignoradas pelo poder público, levarão anos para que sejam reparadas por suas perdas, mas seus traumas e dificuldades permaneceram na memória. É essencial que seus direitos sejam defendidos e apoiados nas esferas públicas e sociais, para lhes proporcionar uma rede de segurança financeira e emocional nesse momento de enorme vulnerabilidade. 

 

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