05/11/2021 às 12h51min - Atualizada em 05/11/2021 às 12h12min

Demian: o bem e o mal existente em nós

A obra em si deixa muito claro o fato de existir a dualidade humana

LARA ACIOLI - Editado por Andrieli Torres
Foto: Reprodução/Internet

Dualidade em sua forma pura 

 

Dualidade

  1. Qualidade do que é dual ou duplo em natureza, substância ou princípio.


Quando criança, aprendemos que existe o bem e o mal, o calor e o frio, perto e longe. Desde cedo conhecemos o mundo e a dualidade que nele coexistem. Mas, apenas em nossa fase adulta percebemos que assim como na natureza, o homem também possui uma dualidade inerente. 
 
Na psicologia, também acredita que dualidade seja o resultado de duas forças opostas agindo em um mesmo objeto. E será a maneira que agimos e fazemos escolhas durante essas situações que irão fomentar nossa identidade.  E também é defendido que não há um caminho comum para que ambos  se encontrem. Ou seja, escolhemos todos os dias entre o  bem ou mal, o errado e certo.
 

“A casa dos meus pais era um dos reinos (...). Esse reino me era familiar em quase todas as maneiras - mãe e pai, amor e rigidez, comportamento exemplar, e escola o outro reino, porém, que se sobrepunha a metade de nossa casa, era completamente diferente; (...) uma mistura ruidosa de coisas horrendas, intrigantes, assustadoras, misteriosas, incluindo matadouros e prisões, bêbedos e peixeiras histéricas, vacas parindo, cavalos caindo mortos, contos de roubos, assassinatos, e suicídios." Demian

  
E é sobre essa dualidade que o livro “Demian” tenta dialogar e nos fazer refletir. 


 

Demian conhece o mundo iluminado e sombrio 


Publicado em 1919 por Hermann Hesse, o livro começa acompanhando a primeira infância de Sinclair, e nesse momento ele conhece unicamente o mundo iluminado e seu lar religioso. Contudo, por mais que sua realidade fosse uma, Sinclair começa a se sentir atraído para uma verdade oposta a sua, a do mundo sombrio.
  
“Os reinos do dia e da noite, dois mundos diferentes de polos opostos, se misturavam nesta época." Demian

Ainda na primeira infância, Sinclair tem vislumbres de um mundo diferente daquele conhecido, e diversas são as descobertas. Luminoso e obscuro, homem e mulher, santo e pecaminoso. 


 

Um fator importante é que Sinclair representa fortemente o lado luminoso, enquanto Damian (um amigo da escola do personagem principal), o lado sombrio. Demian sempre fala coisas tidas como destemidas, profanas, pecaminosas, e é através dele que Sinclair começa enxergar o mundo de uma maneira mais ampla do que aquele que lhe foi apresentado desde o início. 
 
A obra em si sempre deixa muito claro essa dualidade humana, escolhas e como o garoto lida com essas situações. No fim, o Demian beija Sinclair, representando a aceitação de quem Sinclair realmente é. Reafirmando então a coexistência da dualidade, do luminoso e sombrio em todos os aspectos. 



A psicologia e a dualidade 

 

Com todos os seus aspectos singulares, não é de hoje que o ser humano tenta ser compreendido. Seja em sua forma mais crua, ou em suas singularidades. E claro, nesse aspecto não seria diferente. Para entender melhor sobre o assunto, conversamos com a psicóloga Nayara Campos. 

  
Lara Acioli: Como a psicologia lida com a dualidade humana? 
 

Nayara Campos: Cada psicólogo tem uma abordagem e entende o sujeito a partir de uma lente teórica, irei falar com base na lente teórica da qual eu parto que é o construcionismo social. Então, não entendemos que exista uma dualidade, os seres são complexos e atuam de acordo com aquilo que é dito, e com o que eles experienciam, é relacional, sabe? através das práticas discursivas que encontramos, `às vezes, em uma determinada situação que acontece agora, achamos que aquilo é certo e depois de uma certa analise achamos que é errado, e depois acabamos percebendo que não era nem certo e nem errado, e que cada um lida de uma maneira diferente. Então assim, dualidade humana, é como a gente entender que sempre haverá o bem e o mal, o sol e a lua, e a gente entende o sujeito de uma forma completa. Que será contraditório, que trará narrativas que podem diferir de uma hora para outra. Então, não lidamos com dualidade e sim com o complexo, aquilo que o sujeito narra, que pode estar embebido de contradições. 

 

LA: Enquanto bem e mal, como a psicologia enxerga essa definição e como ela lida de forma direta no ser humano? 

 

NC: Já o conceito de bem e mal é definido por um contrato social, do que a sociedade desse campo social entende como bem e mal. O que é bem e mal para nossa cultura, pode ser atitudes cotidianas em outras culturas. 

O bem e mal são dependentes de uma ética moralista, e qual ética moralista atendemos? É assim que a psicologia, e a psicologia que eu acredito, opero e prático entendem. Óbvio que não é relativizar atitudes e situações que possam gerar desconforto, inclusive questões como crimes sejam sempre relativizadas. Mas o bem e o mal, de maneira geral, ela depende mesmo de uma prática relacional, de um contrato social. Inclusive, o que pode ser bem e mal hoje, pode não ser mais amanhã. por isso não dá para dicotomizar essa relação. 


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