12/11/2021 às 18h22min - Atualizada em 12/11/2021 às 18h15min

Crítica | A Máquina do Tempo de H. G. Wells e o futuro que um viajante não esperava encontrar

E se as viagens no tempo fossem realmente possíveis?

Nataly Leoni - Editado por Ana Terra
Reprodução: Warner Bros

A viagem no tempo atrelada à possibilidade de explorar o desconhecido indo para o futuro, ou vendo com seus próprios olhos os acontecimentos passados é algo que sempre instigou o ser humano. Imaginar como estaria o mundo daqui a uns milhares de anos, como seria possível viajar para esses momentos, como seriam as configurações sociais, como seriam as pessoas, são algumas das reflexões que despertam tamanha curiosidade.

O ano era 1895 quando Herbert George Wells, conhecido como H. G. Wells, lançava seu primeiro romance intitulado, “A Máquina do Tempo”, onde introduz uma narrativa voltada para um futuro tão longínquo e difícil de se imaginar, mas que descreve como se ele mesmo fosse o próprio Viajante do Tempo. Inicialmente publicado em folhetim, logo se tornou livro em virtude do enorme sucesso. Na época, a imaginação do autor já o levava para mundos extraordinários com os quais criava suas histórias, algumas delas tão inovadoras que chegaram a prever diversas tecnologias que a humanidade acabou criando eventualmente.

A Máquina do Tempo em sua maioria é feito em storytelling. Os fatos já aconteceram, o que faz com que se torne um longo monólogo se estendendo por toda a narrativa de 107 páginas. A história se passa no século XIX, o viajante do tempo nos é apresentado pela narração de um personagem desconhecido que está em sua presença enquanto explica os estudos que fez afirmando a real possibilidade de viajar no tempo. Vale ressaltar a genialidade de Wells sendo o primeiro a introduzir o conceito do tempo como uma quarta dimensão, incorporando-o ao grupo das três outras dimensões, que são: comprimento, largura e altura. Naquele período, Albert Einstein que anos mais tarde publicaria a teoria da relatividade onde aplica a ideia das quatro dimensões nos estudos de tempo-espaço tinha apenas 16 anos.

“Eu soltei um suspiro, trinquei meus dentes, agarrei a alavanca de partida com ambas as mãos e empurrei-a com força. O laboratório ficou nebuloso até ser tomado pela completa escuridão”.  

Conta o viajante do tempo ao seu grupo de ouvintes que são identificados como, “o médico", “o jornalista”, “o psicólogo" e etc, em momento algum o nome dos personagens presentes na cena são revelados, nem mesmo do próprio viajante. Ele afirma que permaneceu com a alavanca firme em suas mãos até o mostrador da máquina do tempo marcar o ano 802.701, e para sua surpresa o futuro não se parecia em nada com o que ele havia imaginado. A frustração do viajante é palpável durante todo o primeiro contato com aquele mundo estranho e futurista que parecia perfeito demais à primeira vista.

Mesmo com um entendimento limitado da dinâmica daquela sociedade, e uma difícil comunicação com as pessoas por falarem em uma língua diferente, ele percebe que durante todos aqueles anos, a raça humana havia passado por evoluções. Os atuais habitantes da terra, os chamados Eloi, são apenas descendentes dos humanos como conhecemos hoje, e tomaram conta da superfície. Em sua descrição eles parecem criaturas perfeitas, enquanto os Morlocks - a outra parte da população que se dividiu no processo de evolução - são inimigos dos Eloi e vivem no subterrâneo adquirindo uma fisionomia totalmente diferente, por viverem na escuridão total. 

Ao perceber que sua máquina do tempo havia desaparecido, o viajante passou a dedicar o tempo no futuro para procurá-la, e então algo que ele desejava tanto havia se tornado um pesadelo. Wells então demonstra a solidão e o medo do personagem, através de sua narração da história com todas as suas observações, e como um bom cientista, suas tentativas de chegar a conclusões, aprender a conviver naquela sociedade enquanto procura pela máquina com um forte desejo de voltar para casa, de fugir daquele caos em que havia se metido.

No decorrer da narrativa, Wells deixa claro seus ideais socialistas ao incorporar a luta de classes, teoria construída por  Karl Marx. Ele aponta a configuração social do ano de 802.701 como uma consequência de uma sociedade desigual onde houve uma extrema separação e distinção de papéis sociais, e que por isso acabou sofrendo muitas mudanças. 

“Não há inteligência quando não há mudança ou necessidade de mudança. [...] a meu ver, os homens do Mundo Superior haviam-se desviado dessa beleza frívola, e os do Mundo Subterrâneo voltaram-se a uma industrialização mecânica”.  

O triunfo do ser humano evidenciado por um mundo perfeito que vive de aparências é o que o viajante do tempo vê no futuro. Sua análise social não é tão minuciosa quanto gostaria por estar demasiadamente absorto em seu medo de não conseguir mais voltar para o tempo presente. H. G. Wells nos apresenta uma narrativa rápida, caótica e cativante de um futuro cheio de surpresas. A Máquina do Tempo, é de fato uma leitura indispensável para os amantes de ficção científica e boas histórias.  

 

REFERÊNCIAS: 

WELLS, H. G. A Máquina do Tempo. Carapicuíba - SP: Pandorga, 2020.

MANTOVANI, Michelle. A Máquina do Tempo – Resenha. 25 de nov. de 2020. Disponível em: <https://www.deviante.com.br/noticias/a-maquina-do-tempo-resenha/>. Acesso em: 09 de nov. de 2021.


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