17/11/2021 às 22h57min - Atualizada em 16/11/2021 às 00h01min

Transtornos alimentares: quais são os mais comuns?

Bulimia, anorexia e compulsão alimentar. Entenda quais são os riscos da preocupação excessiva com o peso e formato do corpo

Gabi Oliveira - Editado por Júlio Sousa

 

Pesquisas apontam que os transtornos alimentares, em alguns casos, já estão enraizados no DNA das pessoas, que têm herança genética e mais  propensão a certos tipos de vícios. Portanto, sozinhas não conseguem alterar isso.

 

Existe uma variedade de neurotransmissores que, quando desregulados no cérebro, fazem com que a pessoa tenha algumas reações e atitudes que fogem do seu controle, como por exemplo: mau humor, ansiedade, pensamentos repetitivos ou obsessivo compulsivo relacionados a algo que ela mesmo se proibiu. Por isso, em muitos casos, além do apoio familiar e de amigos, é necessário ajuda profissional do psiquiatra, psicólogo e nutricionista especializados em transtorno alimentar (TA).

 

Alguns significados de abreviações e gírias  sobre o tema: 

 

Bulimia: É o distúrbio alimentar em que a pessoa come exageradamente depois se sente culpado, procurando alguma forma de compensar. Vômitos, laxantes, exercícios exagerados e dias sem comer são comuns. 

 

Anorexia:  Significa sem fome. É um distúrbio alimentar (do ponto de vista médico) e psicológico. Do ponto de vista anoréxico, a Anorexia é um estilo de vida em que a pessoa come muito pouco, apenas o suficiente para sobreviver, passa às vezes dias sem comer e gosta de um estilo de magreza como ideal de beleza.

 

NF- No Food - significa ficar sem comer por um dia ou mais.

 

TA - transtorno alimentar 

Ana - Anorexia 

Mia - Bulimia 

Miar - Vomitar

Aej - aeróbico em jejum 

 

Restritivo compulsivo - ciclo em que a pessoa fica um tempo sem comer ou fazendo dieta restritiva e um tempo comendo compulsivamente 


 

O ser humano não gosta de viver limitado. Restrições alimentares desencadeiam uma série de problemas,  como visto no The Minnesota Starvation Experiment, um famoso estudo com homens na II guerra mundial, em que eles eram submetidos a restrições alimentares, foi observado que: “alguns homens começaram a ler obsessivamente livros de receitas, olhar fotos de comida com uma obsessão quase que pornográfica. Eles ficavam irritados se não recebessem a comida exatamente na hora certa”. Algumas consequências à saúde foram observadas no experimento: muitos homens tiveram anemia, fadiga, apatia, fraqueza extrema, irritabilidade, déficits neurológicos e edema nos membros inferiores, reforça Tainara Gonçalves, acadêmica de nutrição.

 

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Alguns trechos falado por pessoas que sofrem com TA:

 

Uma vez eu bebi shampoo e tive que avisar minha mãe, bebi pra induzir o vômito, eu tava em uma época que tinha miado muito, tipo, tudo que eu comia, aí machuquei minha garganta e nesse dia não tava conseguindo miar, e aí eu tava no banheiro vi o shampoo e pensei que iria ajudar, mas acabou que eu não vomitei, só fiquei com mta dor de cabeça e com o estômago doendo muito. Pessoa preferiu ficar anônima 

 

entrevistaanonimatranstornosalimentares1


 

"Sempre que acontece encontros relacionados a comida eu me esquivo, se sou obrigada a ir fico mastigando e cuspindo no guardanapo da forma que ninguém perceba. Sempre dou um jeito de não comer" 

 

"Tem dias que não sinto nada mas tem outros que parece que a qualquer momento meu coração vai parar" anônimo

 

anonimasobretranstornosalimentares

 

Algumas pessoas  julgam como futilidade, dizem que é só comer e pronto, dependendo do caso. Porém não entendem que, por trás disso, existe uma gama de fatores psicológicos que fazem com que a pessoa não consiga se livrar da doença sozinha ou de forma tão simples, sendo até mesmo cruel e injusto o julgamento que, geralmente, vem de pessoas próximas e pode fazer com que a vítima se silencie cada vez mais. Portanto, antes de ajudar, é preciso aprender a lidar com a situação e entender o assunto de uma forma livre de preconceitos e julgamentos desnecessários.

 

Luísa Cullinan teve transtorno alimentar durante anos e hoje em dia em processo de recuperação  fala sobre saúde mental e é inspiração para muitas pessoas, a seguir ela explica todo o processo que viveu em torno disso:

 

Como  começou o transtorno alimentar?  Com que idade, o que  desencadeou?  Por exemplo: foi com alguma dieta específica  e migrou para o  t.a ou foi direto pro t.a? 

 

Para mim começou sem uma dieta específica, eu tinha engordado mais de 15kg depois de um intercâmbio aos 17 anos. Na época ouvi comentários maldosos de amigos e familiares, meu namorado da época também tinha terminado comigo (e na minha cabeça era devido ao meu corpo, apesar de não ter sido), e assim comecei a praticar bulimia. Eu tentava me restringir mas sabia muito pouco de alimentação, então eu basicamente comia o que eu queria, com a condição de colocar para fora.

 

Você recebeu diagnóstico médico de quais transtornos alimentares? Bulimia, anorexia, ortorexia, restritivo compulsivo….Existem vários, né ?

 

Sim, aos 19 anos eu fui internada com uma doença na gengiva por conta dos anos de bulimia e o médico traçou o diagnóstico. Depois fiz terapia, passei uns anos em remissão entre altos e baixos, e aos 25 anos tive um relapso onde fui diagnosticada com anorexia nervosa, mas nos 3 anos antes disso vivia num ciclo de ortorexia (não diagnosticado) sem fim.

 

Como era a sua rotina  antes convivendo com o T.A e como está hoje após recuperação, como você se sente com relação a isso hoje em dia? 

 

Na época do TA eu vivia com o Apple Watch no pulso, acordava cedo e sempre fazia HIITs na academia, fazia jejum intermitente e geralmente só comia depois do meio dia, sempre pulando café-da-manhã. Eu era extremamente carbofóbica, então meu almoço e janta eram sempre uma proteína com vegetais, e pouco óleo. Eu fazia pausas no trabalho ao longo do dia para caminhar porque precisava dar 10.000 passos por dia no relógio. As vezes isso significava caminhadas de quase uma hora depois do trabalho, tempo que poderia passar com meu marido. Sair para jantar fora era difícil, durante a semana impossível por conta das calorias extras. Minha vida sexual também era mais esporádica porque eu vivia cansada e irritada.

 

Hoje em dia eu ainda me exercito pela manhã, mas fazendo exercícios menos intensos, como uma corrida leve de 20min ou musculação. Eu tomo café da manhã assim que chego em casa (panquecas de banana com pasta de amendoim têm sido minha nova obsessão), meu almoço e janta são coisas que eu gosto de comer, como arroz e estrogonofe hahaha. Eu não uso mais o relógio, não faço pausas pra fazer mil caminhadas, e ao invés disso uso minhas pausas para ler, escrever, pintar… consigo ver séries sentada no sofá em paz! E sempre termino o dia com uma sobremesa vendo Netflix com meu marido. A vida sexual também ficou bem mais interessante haha

 

O que ajudou  na sua melhora? Como percebeu que já não estava mais presa no T.A?

 

O tratamento presencial com psicóloga e nutricionistas especializadas em transtornos alimentares. O fato de ter encontrado uma clínica feita pra isso e que ambas profissionais já tenham passado por transtornos elas mesmas também ajudou MUITO, porque eu me sentia acolhida e compreendida. 

Foi um processo longo e não foi da noite pro dia que eu percebi, foram uma sucessão de pequenas vitórias. De repente eu não tinha mais medo de tomar café-da-manhã, depois eu me sentia a vontade comendo carboidratos, depois eu desapeguei do relógio… e cada vitória eu comemorava. Mas acho que foi só início de 2021, quando eu percebi que não tinha mais vontades específicas, que não me descontrolava com nenhum alimento e que eu mal reparava no meu corpo quando olhava no espelho, que eu me senti liberta. Mas me mantenho atenta, não há cura pra um transtorno alimentar, apenas remissão. 

 

Em quem você se inspira para melhorar ?

 

Me inspirei nas pessoas que amo. No meu marido e nosso casamento que estava sofrendo muito por isso, na minha melhor amiga que tem a melhor relação com a comida que eu já vi e que me deixava a vontade (e feliz) de comer coisas novas, nos meus pais que me apoiaram incondicionalmente. Eu queria ficar bem por todos eles. 

 

Como você cuida da sua saúde mental ?

 

Faço terapia uma vez por semana e pratico escrita terapêutica. Amo escrever e diariamente despejo meus pensamentos, sentimentos e frustrações no meu caderno, e isso me deixa mais leve, me traz mais clareza e confiança em mim mesma. Também só sigo perfis que me fazem bem (inclusive dei unfollow em amigos que me traziam gatilhos), e tento passar mais tempo conectada às pessoas ao meu redor, como meu marido e amigos. 

 

O que você poderia dizer  para ajudar meninas que estão tentando se recuperar  do transtorno alimentar?

 

Não espere ficar magra demais ou doente demais. Isso não existe, você nunca vai achar que “chegou lá”. Também não espere pelo momento ideal porque sempre há uma desculpa pra esperar (depois do verão, depois do carnaval, depois daquele churrasco com piscina…). Nunca parece ser a hora certa porque não tem hora certa. E por fim, não desista. Você vai dar 10 passos para frente e 20 para trás MUITAS vezes, mas é melhor do que empacar no mesmo lugar pra sempre! Há vida depois do transtorno e essa dor não é pra sempre. Você não tá sozinha nessa, se precisar, procure mulheres dentro desse espaço e as use como rede de apoio! 


 

instagram.com/luisacullinan


 


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