19/11/2021 às 10h59min - Atualizada em 19/11/2021 às 10h46min

Para o feminino, múltiplas belezas!

Em uma sociedade enraizada no padrão, a pressão estética sob as mulheres se torna cada vez mais cotidiana

Letícia Aguiar - Editado por Andrieli Torres
Reprodução/GettyImage
De Vênus Willendorf às mulheres do tempo presente, muitas foram as mudanças. Passamos por diversos padrões de beleza feminino que continuam sendo esculpidos e, apesar de haver uma tendência maior para a valorização da “mulher real” e da diversidade de corpos, ainda é possível encontrar mulheres que vivem na busca incessante da “beleza ideal”.

Vida fitness, um corpo sarado e muitos outros alcances. Assim, algumas blogueiras exibem um padrão a ser seguido. Mas será que todas as mulheres do nosso país verde e amarelo cabem nessas caixinhas? Embora não haja nada de errado em ter uma vida saudável e praticar exercícios físicos, quando esses hábitos viram uma regra a ser seguida, podemos acabar marginalizando muitos outros corpos, que não se encaixam nessas demarcações.

Nessa era de rostos filtrados, está Rafaela Barbosa, 21. Carinhosamente apelidada de “Fafá”, a estudante de Jornalismo passou boa parte de sua vida sendo alvo de preconceito por não fazer parte de um “ideal” bem específico. Longe dos batons, das maquiagens e do corpo esteriotipadamente magro, Rafaela já ouviu frases como “você é tão linda de rosto ou “você é tão linda, só falta emagrecer”, e muitas outras palavras que foram deixando cicatrizes.

Diante de tanta pressão estética, a estudante chegou a fazer várias dietas, mas não por questões de saúde, e sim, para retirar das costas esse grande peso imposto pelas pessoas ao seu redor. Apesar de tantas marcas, desde o terceiro ano do ensino médio, quando ela mudou de colégio, Rafaela vem se libertando um pouco dessas correntes sociais. Segundo a jovem, a partir do terceiro na nova escola, as pessoas não a viam mais como se o seu peso falasse tudo sobre ela, mas como uma pessoa normal, igual a todas as outras. 



A futura jornalista também ressalta que ser gordo não é sinônimo de não estar saudável. “Uma pessoa gorda não é sinal de falta de saúde, porque eu sou saudável. Essa construção de padrão de beleza acaba sendo muito dolorosa, não só para as pessoas gordas”, disse.

Dentro dessa jornada inatingível da perfeição, as cirurgias plásticas só aumentam no Brasil e não somente entre as mulheres. Segundo uma pesquisa da plataforma Cupomvalido.com.br, nos últimos dez anos cresceu em 140% o número de cirurgias entre os jovens de 13 a 18 anos, que buscam, principalmente, os procedimentos de rinoplastia, implante de silicone e lipoaspiração.

De acordo com a mesma pesquisa, ao serem considerados todos os procedimentos estéticos, a toxina botulínica ainda é a mais procurada em todas as faixas etárias. Dentre as mulheres, a busca maior é pelo implante de silicone. Nos homens, a ginecomastia, que reduz o excedente da mama masculina, é a mais solicitada. Para os especialistas, o aumento nesses procedimentos é fruto da insatisfação com a própria imagem e a grande influência das redes sociais na vida das pessoas.



Em entrevista à Revista Dom Total, o sociólogo Francisco Romão Ferreira fala do peso que a estética acaba impodo às nossas vidas. “Há uma preocupação excessiva com o corpo. Não só em termos de cirurgias plásticas, mas a quantidade de academias, salões de beleza e de farmácias no Brasil é algo gritante quando você compara com outros países. Essa preocupação estética está naturalizada no cotidiano e não para de crescer”, afirmou.

Navegando para longe dos muitos padrões, a estudante de Jornalismo, Laura Gabrielly, 21, passou a enxergar as belezas individuais, depois de algum tempo tendo em mente apenas o ideal de belo exposto pela mída. Na infância, todas as amigas de Laura tinham os cabelos lisos, que não correspondiam ao dela, repleto de cachos. Por usar óculos e cabelos presos, a estudande já ouviu das amigas que parecia um menino.

Com o passar dos anos, o que antes podia ser motivo de insegurança virou uma verdadeira caminhada de aceitação. “A minha aparência atual representa para mim uma mulher que está aprendendo a se aceitar, cada cicatriz, cada marca de acne ou de pequenos tombos que eu levei são parte de mim e da minha história, ainda não consigo me enxergar como eu quero, mas estou no processo”, falou.


 
ARES DE MUDANÇA
 
Fazendo florescerem vestígios de esperança e desprendimento dos padrões utópicos, existem projetos como o Show Us, lançado há dois anos pelo banco de imagens Getty Image, em parceria com a Dove e Girlgaze. Esse banco fornece imagens para diversas marcas e a ideia é que fotógrafas e cinegrafistas retratem as mulheres como acharem melhor, tornando-as mais próximas do real, mudando o perfil feminino dentro dessas empresas.

Todavia, ainda há uma longa jornada a ser traçada. O padrão de beleza feminino tem estado na nossa mente por muito tempo e a mudança não virá de imediato.

Entretanto, a cada olhar para a diversidade, podemos perceber muito mais do que a existência de pessoas diferentes e, sim, o entendimento de que mesmo em diferentes corpos, habitamos o mesmo universo, somos todos humanos, compostos por muitas camadas de beleza. Feio mesmo é só o preconceito e a discriminação!

Link
Tags »
Notícias Relacionadas »
Comentários »