19/11/2021 às 19h34min - Atualizada em 19/11/2021 às 19h34min

Tabela de medidas: a indústria de roupas e os corpos da moda

A padronização das peças de vestuário pode influenciar na busca por um corpo que encaixe perfeitamente nelas

Giovana Rodrigues
Foto: Mikhail Nilov / Reprodução: Pexels

   Se no passado as revistas, os desfiles de moda e as novelas influenciavam as tendências de roupas, no mundo contemporâneo, as redes sociais vieram para intensificar nosso desejo de se vestir como as meninas famosas e bonitas do meio digital. Passear pelo shopping, admirar a vitrine e encontrar a peça de roupa do momento. Por ora, tudo parece ótimo. Mas para algumas meninas, a decepção pode começar logo no momento de pegar a sonhada peça na arara e não encontrar o seu tamanho. Para outras, a expectativa continua e só termina quando vai ao provador e percebe que a roupa não ficou como o imaginado. Se você é mulher, provavelmente, já passou por uma dessas frustrações, e, talvez, esses acontecimentos tenham influenciado sua relação e percepção sobre o próprio corpo. 

A trajetória da moda 
   As peles de animais marcaram o início do que chamamos hoje de roupas. O objetivo era cobrir o corpo para se proteger de alterações climáticas como a chuva e o frio e de possíveis acidentes como ter o corpo espetado nos mais diversos ambientes da natureza. Ao longo de todos esses anos, o significado foi, aos poucos, sendo alterado. O que era apenas uma forma de proteção passa a ser uma forma de identidade. Aqui no Brasil, no período colonial, por exemplo, as roupas eram um meio de reconhecer a classe social das pessoas, tecidos como a seda eram sinônimos de nobreza. Muitas vezes, pessoas de classes sociais mais baixas buscavam se aproximar ao máximo das roupas da nobreza para melhorarem a forma como eram lidas socialmente.  
   A partir do século XIX, graças aos avanços das máquinas de costura, as roupas deixaram de ser produzidas sob demanda e passaram a ser feitas em larga escala para o consumo imediato. Com isso, era necessário criar medidas padrões que alcançassem a maioria das pessoas. Pesquisas para tentar entender as medidas humanas foram feitas e são revistas e atualizadas até hoje, procurando obedecer às características dos corpos de cada país. Apesar da criação da tabela de medidas ter sido um grande avanço para a indústria de roupas, aqueles que não se encaixam no padrão ficam de fora, especialmente pessoas gordas. Além disso, ainda se discute se a tabela de medidas utilizada pela maioria das lojas no Brasil alcançam os biotipos predominantes dos corpos femininos do país. 

Como a indústria da moda influencia a padronização corporal 
É normal que nem sempre as peças nos valorizem. O problema começa quando pessoas que fogem ao padrão não conseguem encontrar nenhuma roupa em uma loja convencional ou quando sempre que experimentam uma roupa sentem que não “vestiu bem”, por terem como referência os corpos magros da indústria da moda. A sensação de que, para ter as roupas estilosas, é preciso mais do que dinheiro, mas um corpo que encaixe perfeitamente nela pode surgir. Assim, a indústria da moda deixa de influenciar apenas nos acabamentos, tecidos, cores e estampas, mas passa a “sugerir” o formato de corpo ideal, apontando o que esconder, o que valorizar, como moldá-lo para que ele seja um “corpo da moda”.

“A partir daí cria-se a cultura das dietas, dos procedimentos estéticos e todos os mecanismos que estabelecem um controle sobre as vidas dos próprios indivíduos, que, nesse caso, tem uma forte marcação de gênero, visto que é um tipo de dominação que se aplica a corpos femininos”, explica a antropóloga Luana do Valle. 


Além disso, a antropóloga destaca que a moda é uma forma de expressar identidades, mas a partir do momento que é apropriada pelo sistema capitalista, pode se tornar um mecanismo não só de lucro, mas também de dominação.

A Naomi Wolf, jornalista e escritora estadunidense, fala bastante sobre isso no livro 'O Mito da Beleza’. A moda, quando se alinha com a padronização, passa a ser um mecanismo de controle de corpos, no sentido de ser algo que as pessoas - principalmente as mulheres - buscam aceitação e pertencimento, fazendo o que for necessário para se manter dentro do padrão”. 

A forma como a indústria da moda representa a grande maioria das tendências em pessoas consideradas padrões ajuda a construir um senso sobre a realidade dos corpos, influenciando a visão feminina sobre o que é belo e almejado, além de afetar sua forma de consumir. Tudo isso é internalizado na própria cultura, mas o processo também recebe outras influências para que ocorra: “essa internalização acontece de forma integrada com outros fatores da sociedade, como o status, a classe social, onde durante a socialização isso se coloca para os indivíduos”, explica Luana. 

A exclusão dos corpos gordos
    Samantha Soares (@samanthasoaresofc) é modelo e influenciadora digital. Em seu perfil no Instagram, ela ajuda a empoderar mulheres dando dicas de lojas plus size e inspirando suas seguidoras a se amarem. Hoje, a influenciadora faz das roupas uma forma de se expressar, mas nem sempre foi assim. Samantha conta que vestir roupas que serviam ao invés daquilo que a representava fazia parte da sua realidade: “é horrível! Não tem coisa melhor do que vestir o que quer, aquilo que te faz sentir bem! A moda diz muito sobre você, é uma forma de expressão. Imagina vestir o que te cabe?”, indaga. “Muitas vezes aquela peça nem te representa, você nem se identifica, mas é o que te serve”, completa. A influenciadora relata um episódio que a marcou muito: “eu fui comprar uma calça 44 e não me serviu. Foi um choque para mim, pois na minha mente, na época, um manequim 46 era absurdo. Ou seja, 44, ok. Acima disso, não”. 
Foto: Samantha Soares. | Reprodução: Instagram

Foto: Samantha Soares. | Reprodução: Instagram



Monica Moura também já enfrentou desafios na hora da compra de roupas e destaca o episódio em que precisou comprar uma calça jeans para trabalhar e não encontrava em loja nenhuma, porque vestia manequim 60. Finalmente, ela encontrou um lugar, mas a peça custava 250 reais: “Fiquei horrorizada, porém comprei pela necessidade, e parcelei em várias vezes no cartão”. O episódio impactou tanto que ela decidiu criar sua própria loja: “a partir dali, eu falei que iria vender roupas a preço acessível para todas. Junto com as roupas, iria autoestima também!”

 O impacto psicológico 
    A falta de inclusão na indústria da moda afeta a relação da mulher com o próprio corpo antes mesmo de chegar nas lojas. Quando vemos desfiles, modelos nos comerciais da televisão e as famosas nas redes sociais vestindo as roupas da moda, muitas vezes, já começamos a nos comparar, criando uma nova percepção sobre o nosso corpo a partir da realidade apresentada pela indústria. “A gente já começa a desvalorizar o nosso corpo falando: ‘nossa, essa roupa não é para mim, olha o corpo dessa modelo, como que essa roupa vai caber no meu tipo de corpo?”, alerta a psicóloga Viviane França. “E quando a gente vai nas lojas, a realidade é mais forte do que a gente viu, porque vamos experimentar algum tipo de roupa e ver que não tem para o nosso tipo de corpo”, finaliza. 
    A psicóloga também destaca que é importante entendermos que não é apenas a figura do manequim magro que mexe com a autoestima feminina, mas é necessário levar em consideração outros fatores associados à trajetória de cada mulher. “E nós podemos avaliar como aquela mulher foi formada desde a infância, desde a adolescência, quais foram os tipos de padrões que foram constituídos que influenciam essa caminhada de vida dela até essa fase que está”. 
    As consequências dessa influência são inúmeras. Para a mulher que não entende sua identidade e é moldada por esses padrões, a roupa pode perder o sentido de liberdade expressão: “ a roupa não vai fazer sentido para ela. Então, vai sempre focar no sentido que a moda traz para ela, ou seja, os corpos magros, muito bonitos”. Junto a isso, pode surgir uma busca incessante pelo corpo padrão, o que desencadeia dietas restritivas e transtornos alimentares como a bulimia, a anorexia e a compulsão alimentar. 

Uma nova rota - a moda Plus size 
    Apesar da baixa oferta de variedades de tamanhos das roupas ainda afetar muitas pessoas, a moda Plus size, focada em manequins maiores, vem crescendo no país e, aos poucos, melhorando a realidade da indústria brasileira. Uma pesquisa da Associação Brasil Plus Size (ABPS) mostra que, em 2018, esse mercado cresceu em 8%, movimentando R$: 7,1 bilhões. 
Foto: MVmodaplusisze | Reprodução: Instagram

Foto: MVmodaplusisze | Reprodução: Instagram



    Depois da situação que passou para comprar uma calça jeans para trabalhar, Monica Moura criou sua loja MVmodaplussize (@mvmodaplussize), mesmo sem experiência nenhuma na época. Segundo ela, o feedback, em sua maioria, é positivo, mas afirma que existem desafios por ser um público que tem inseguranças com o próprio corpo: “todo dia atendo uma margem enorme de mulheres insatisfeitas com o corpo e revoltadas por não encontrarem peças em shopping, em lojas de rua, etc”. 
    Tatiane Machado é formada em publicidade e moda e decidiu criar a Bossa +55 (@usebossa55), sua loja de moda plus size, ao perceber que era um público que não tinha acesso a uma variedade de peças estilosas e bem modeladas. 

“Eu sempre fui muito observadora e as pessoas de tamanhos maiores não usavam roupas bacanas. Eram sempre roupas de malha, de estampas feias, de modelagens que não valorizavam o corpo e isso me incomodava bastante”, conta. “E, ao longo da faculdade, eu não queria criar roupa para mim, até porque, o tipo de roupa que eu gosto, o mercado já oferece. Já tem muita gente imitando o outro no mercado e eu não queria ser mais do mesmo. E aí eu falei: preciso fazer algo diferente, algo representativo”, completa. 

    A estilista revela que existem alguns desafios na produção das peças para corpos grandes e curvilíneos que, muitas vezes, a indústria convencional não se atenta ao fazer peças de manequins maiores:

“não basta apenas fazer a ampliação de um molde do 36 para 48. No plus size, os corpos são bem diferentes, são corpos mais curvilíneos, que precisam de mais ajustes. Por exemplo, no gancho da calça, a curvatura precisa ser mais funda, por causa do bumbum. A curvatura do bumbum de uma calça plus não é a mesma de um tamanho 36. Isso tem muita diferença”, detalha.  “Tem que fazer a roupa para aquele tamanho, ter a modelo de tamanho plus para vestir nela, para testar nela. Não adianta fazer numa modelo 36/38 para vestir depois numa 48”, completa. 


O impacto da moda Plus size 
    A influenciadora Samantha Soares conta que a moda Plus size teve um impacto muito positivo em sua relação com as roupas, já que agora usa o que quer: “quanto mais a moda plus size cresce, mais as pessoas são fortalecidas e encorajadas a vestir o que gostam". Além disso, ela afirma que fica feliz com o surgimento de lojas nas redes sociais mais acessíveis e com aumento da oferta de tamanhos maiores nas lojas de departamento mais populares: “a grande maioria do público que consome o plus são pessoas de classe média/baixa. A inclusão de tamanhos maiores facilita o acesso dessa parcela da população”.
Foto: Bossa+55 | Reprodução: Instagram

Foto: Bossa+55 | Reprodução: Instagram



A estilista Tatiana conta que o retorno de suas clientes costuma ser bem positivo. “O melhor de tudo é ver que através da roupa elas se expressam e o quanto elas se sentem felizes com uma roupa estar caindo bem nelas”. Mesmo sendo uma pessoa magra, ela revela que o trabalho já ajudou na sua relação com o corpo. “Eu mesma sempre fui uma pessoa magra, mas sempre tive uma barriguinha, era uma coisa que me incomodava. Quando eu comecei com a minha marca, e eu vi a minha modelo de prova, que é a Renata Cerqueira, de cropped e de calça, aí eu falei: ‘Cara,você usa cropped?’ ‘Aí ela falou: Ih, eu uso, nem ligo, tô nem aí’. Depois daquele dia, comecei a usar a barriga de fora e não estou nem aí!”. 
As consequências da influência dos padrões corporais não acabaram, mas a possibilidade de encontrar uma roupa estilosa, que te represente e caiba no teu corpo já é uma conquista, e das grandes, para as mulheres que cresceram vestindo o que servia.  “Muitas mulheres plus size, com essa oportunidade, começaram a ver a beleza, a sensualidade que elas podem ter também, que não é só pessoas magras que podem usar determinados tipos de roupas. Isso aumenta a autoestima e faz com que elas se olhem com outros olhos”, defende a psicóloga Viviane França. 

Referências: 
FESPA BRASIL 2019 ANUNCIA APOIO DA ASSOCIAÇÃO BRASIL PLUS SIZE. Associação Brasil Plus Size, 2019. Disponível em: <https://www.plussizebrasil.com.br/fespabrasil2019>. Acesso em: 26/10/21

FRIZZERA, Mariana Paiva; PAZÓ, Cristina Grobério. O corpo feminino como capital e o mercado da moda: espaço de produção de vulnerabilidade e de identidades. Anais eletrônicos, 2017. 

SANT’ANNA, Janaína Iramaia Martins. Como surgiu a tabela de tamanhos da confecção e por que a padronização é importante. Sou de Algodão, 2021. Disponível em: <https://soudealgodao.com.br/como-surgiu-a-tabela-de-tamanhos-da-confeccao-e-por-que-a-padronizacao-e-importante/>. Acessso em: 06/10/21. 

SOUZA, Débora Dantas; PEREIRA, Ana Paula Costa; CARDOSO, Flaviane de Sousa. A indústria da moda: etiquetando corpos, vendendo embalagens. 

UM GIRO PELA FASCINANTE HISTÓRIA DA MODA. Etiqueta Única, 2019. Disponível em: <https://www.etiquetaunica.com.br/blog/um-giro-pela-historia-da-moda/>. Acesso em: 06/10/21. 
 

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