07/12/2021 às 00h00min - Atualizada em 07/12/2021 às 00h01min

O vilão por trás do cartão de crédito (2°)

Saiba o que você deve fazer para se tornar o herói

Bruna Villela - Editado por Júlio Sousa
Reprodução/Unsplash: Damir Spanic

 

Ao pensar o tema 'endividamento por Cartão de Crédito', uma solução comum se encontra na Educação Financeira: um assunto está em alta, mas ainda é distante do brasileiro: uma pesquisa realizada pelo SPC Brasil revela que a maioria dos consumidores sabe o quanto paga pela anuidade do cartão (79%), mas quase o mesmo percentual (72%) desconhece o valor dos juros cobrados pelo uso do crédito rotativo — oferecidos ao pagar a fatura em valor menor ao integral. Além disso, cerca de 35% dos entrevistados ultrapassam o limite de seu cartão de crédito no fim do mês. 

Diferente da maioria dos cidadãos, a educadora financeira Lizandra Gazolla sempre foi controlada com gastos e, durante sua pós-graduação, a divergência aumentou ainda mais: interessou-se por finanças, fez cursos e também uma formação em educação financeira. Ela conta da indignação de somente aprender sobre o universo financeiro agora: "Investia na poupança porque minha mãe investia lá”. 

Conhecimento é o segredo

Hoje em dia, o cenário está mais promissor, pois “existem vários perfis grandes ou menores nas redes sociais que podem te ajudar, há alguns anos atrás a linguagem utilizada não era tão acessível”, segundo Lizandra, o uso de termos técnicos dificultavam o interesse comum. A profissional aconselha educar-se e buscar informação sempre, ter um único cartão com limite baixo ou até mesmo não ter nenhum se não souber utilizar com consciência, além de registrar tudo que compra para entender como gasta seu dinheiro.

Lizandra aponta que a inadimplência e o endividamento não são interessantes para o comércio e que se educar financeiramente “não é deixar de consumir, mas é fazer isso de forma consciente”. Uma boa proposta é o investimento em campanhas de conscientização, como o programa lançado este ano pelo Ministério da Educação (MEC) de implementação da Educação Financeira nas escolas — o presidente da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), Marcelo Barbosa, define o projeto como estratégico ao mercado de capitais nacional, com reflexo no bem-estar das famílias. 

Ter conhecimento sobre finanças pode promover uma nova realidade na vida de muitas pessoas e também mudar mentalidades como a da educadora que antes sabia não poder gastar mais do que ganhava e, após estudar sobre o tema, revela: “Hoje, já penso diferente, em gastar menos para investir esse dinheiro e planejar metas para o futuro, sem dever nada para ninguém".

Pela experiência, ela associa o alto número de endividamento com o cartão ao fato de não termos o dinheiro à mão, “não sentimos a dor da perda” no momento. Além das compras por prazer, “não vão ser contas básicas que endividam uma pessoa”, em que um impulso é atendido e fica para depois a preocupação de pagar, como “aqueles R$ 30,00 inocentes do lanche”. No fim do mês, várias "comprinhas" somam uma bola de neve e podem destruir sua vida financeira. 

Dicas para pôr em prática

    A mudança de comportamento começa dentro de casa e com pequenos passos no cotidiano. Para ajudar os consumidores brasileiros no contexto atual, Lizandra sugere deslogar os dados do cartão nos sites de compras on-line e evitar acessá-los como forma de fugir do gatilho e tentação de promoções e ofertas exclusivas, “pensando antes de agir”. Ela indica ter o limite do cartão dentro do salário sempre e acompanhar a fatura pelo aplicativo do banco ao longo do mês com a intenção de conseguir pagar o valor integral.

Ela diz que é desafiador para quem não está acostumado a se atentar aos próprios gastos e que é fácil se deixar levar pelo consumismo, ainda mais com a influência e publicidade presente nas redes sociais hoje em dia. “Você precisa entender que não tem o salário da famosa”. Um outro exemplo para começar a valorizar seu dinheiro é prestar atenção onde você pode estar perdendo. A educadora financeira cita os diversos serviços de streaming que, “às vezes, nem mesmo usamos no dia a dia, mas, mensalmente, pagamos todas as assinaturas”.

Em situação de dívida, é preciso se organizar para “estancar o sangramento e não deixar ela aumentar”, reservando o dinheiro para este fim. Uma forma de conseguir quitar o débito é buscar renda extra, ou ainda, vender algo que não é mais utilizado em casa, sem descartar a possibilidade de negociação com a seguradora. Lizandra adverte que o cartão de crédito é um empréstimo sem garantia – “esse dinheiro não é seu” – e, pelo risco de inadimplência, acaba sendo tão caro, diferentemente de um financiamento, que tem juros menores. 

A realidade pode ser dura, mas o problema não é o cartão, é quem está usando. As vantagens do serviço são muitas se bem-utilizado e ele deve ser um aliado, como destaca a especialista: “Não é questão de ser pão duro e não aproveitar a vida, é sair do automático e ser consciente, é poder se dar ao luxo de comprar algo que não precisa e que cabe no orçamento sem virar refém desse padrão”. As instituições bancárias podem até ser as vilãs por trás do cartão de crédito, mas elas não têm poder nenhum se ninguém der a chance. 


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