01/12/2021 às 23h32min - Atualizada em 01/12/2021 às 22h52min

SPFW: 52ª edição traz temas como resistência e diversidade

O evento ocorreu na semana da consciência negra e a edição já considerada uma das mais diversas da história

Danielle Vaz - labdicasjornalismo.com
Foto: Desfile SPFW N52, coleção "Fluxo Milenar" de Mile Lab. Fotografia: Agência Fotosite. Reprodução: Site SPFW.

No final do mês de novembro, aconteceu a 52ª edição do Festival São Paulo Fashion Week, intitulada "Regeneração". Realizado tanto de forma física quanto virtual, foi exposto diversidade e tecnologia no Pavilhão das Culturas Brasileiras. No Dia da Consciência Negra e penúltimo dia do evento, a passarela foi reservada para estilistas negros apresentarem suas marcas e foi impossível não se emocionar.

 

Após um ano do anúncio de que 50% dos modelos devem ser negros, indigenas ou asiáticos, o SPFW mostrou que está começando a se movimentar mais no quesito diversidade. Mesmo que muitas sejam as críticas ao evento, esse ano foi possível perceber a diferença na passarela, tanto com os modelos quanto com os temas ali abordados.

 

Resistência na passarela 

Um dos destaques do dia 20 de novembro, foi a estreia da Mile Lab, uma das sete marcas do Projeto Sankofa, criado pelo movimento Pretos Na Moda e pela startup Vetro Afro Indígena na Moda (Vamo), a ação com o foco de trazer representatividade étnica-racial ao SPFW.

 

No desfile a Mile Lab apresentou sua coleção “Fluxo Milenar”, exaltando corpos marginalizados, pautando o funk e o povo periférico. Com um tom agridoce, trouxe de início uma poesia poderosa de Breno Luan, expondo o porquê de estar presente no evento. “Eu sou o grito, que ecoa no seu ouvido enquanto você está dormindo: Estamos vivos!”, disse no fim do discurso.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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A marca que nasceu em 2017, no bairro Grajaú, localizado na cidade de São Paulo, tem como objetivo o ativismo e reconhecimento do corpo periférico, da sua estética e do pertencimento desse corpo em todos os ambientes possíveis. Além disso, traz peças feitas de matérias primas sustentáveis e modelagens versáteis.

 

Para o desenvolvimento da apresentação de estreia no SPFW, a diretora criativa e fundadora da Mile Lab, Milena Nascimento, contou que foi um processo muito delicado, pois foi preciso tocar em dores e angústias sentidas durante a criação e transformar em arte para a passarela.

 

“Foi muita terapia, muitas conversas com o coletivo da marca para podermos alinhar de que forma poderíamos falar e ser ouvidos por tudo que passamos nesse tempo. Tendo que lidar diariamente com o medo, pois sabíamos que estaríamos expondo nossos corpos e nossas vulnerabilidades nesse momento. Foi necessária uma grande dose de coragem para fazer acontecer, principalmente sem nada. Mas através da poesia, encontramos forças para nos expressar da melhor forma e sermos verdadeiros com os nossos”, contoua estilista Milena.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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Para Breno Luan, artista que apresentou o slam e colaborador do trabalho coletivo que compõe a marca Mile Lab, contou que foi uma honra e muito necessária presença no festival, principalmente no dia 20 de novembro, declarando ainda que a apresentação foi histórica e nunca antes feita nas passarelas. O poeta ainda apontou o que, na sua opinião, falta para que a moda brasileira se torne mais diversa:

 

“Falta o amparo de pessoas mais velhas com pessoa iniciantes; falta lidarem com o fato de que não estamos mais presos num padrão europeu; falta tirar uma régua inexistente e entenderem que ninguém pode ditar o que é ou não feio pela sua concepção; Falta quebrar uma estrutura e construir uma nova, porque não vai ser hoje, amanhã ou semana que vem que isso vai acontecer. Precisa destruir o espaço e construir um outro novo (como Milena já falou), para que assim, a gente possa falar sobre diversidade.” finaliza, Breno.

 

Mas houve mudança mesmo?

Através de um post no perfil do Instagram do Portal das Modas, da jornalista Lelê Santhana, ela levanta as contradições do festival, que estava há quase dois anos em forma virtual, pela pandemia e que vem há alguns anos sendo criticado por ser excludente, mas que nesta edição trouxe algumas mudanças.

 

No post é colocado em pauta o porquê Glória Coelho, acusada de racismo no ano de 2020, e a marca Baska, de Carlinhos Maia, negacionista e personalidade polêmica na internet, ainda estão participando dos desfiles. Além de ainda apontar o número baixo de modelos com corpos gordos e de diferentes formas no evento, e ainda ser o mais diverso desses 26 anos de história. 


Para Yasmin Ialuny, jornalista e modelo negra, que compareceu à edição Regeneração, a mudança é perceptível, mas reforça que gostaria que fosse mais rápida. Na sua opinião, ainda faltam muitas questões a serem melhoradas, apontando que a produção e comunicação ainda são majoritariamente branca. 

 

“Eu ainda sinto falta de muita coisa, como por exemplo, fora das passarelas né, a fila da imprensa só tinha blogueira, e só blogueira branca, tipo, mina novinha assim, jovenzinha que que não tem formação, que não tem preparo, que não tem esse questionamento ético da profissão. (...) E a primeira fila, se tu olhar os vídeos disponíveis, inclusive eu fiz alguns, a primeira fila toda é branca, majoritariamente branca. Então eles vão trazer um recorte que não é um recorte pensado nesse sentido, que não é intencional para abrir oportunidade para valorizar outras pessoas. Isso ainda me incomoda muito.” declara, a jornalista.

Yasmin compareceu ao SPFW como convidada através de uma conexão de seu agente Will Pissinini com as marcas presentes, mas já participou como modelo para a marca Era na 43ª edição, no ano de 2017. 

Um dos projetos interessantes e que trazem um respiro em meio a tantas críticas, é o programa de mentoria Fluxonomia 4D, que seleciona 50 criadores e auxilia no desenvolvimento profissional deles. Daniel Araújo, diretor criativo e fundador da marca DNI Clothing, foi um dos selecionados, afroempreendedor e que esteve presente e teve a oportunidade de expor um dos seus trabalhos desenvolvidos no programa. Ele contou um pouco como foi essa experiência:

“Foi uma experiência muito diferente—uma coisa que é necessário falar, é que a DNI é uma marca muito nova, então a gente está iniciando neste mundo da moda, das semanas da moda. E por mais que eu assista, tenha assistido muitas, eu nunca me imaginava parte desse sistema todo, tão jovem, tão novo e uma das coisas que eu senti assim foi que eu pertencia a esse espaço” , afirma Daniel.

Para Daniel, o SPFW faz um trabalho muito interessante de inclusão e diversidade e principalmente nesta edição, ele contou que a partir do festival conheceu outras marcas sustentáveis e que pensam moda de uma forma mais humanizada e que se relacionam com a missão da DNI, de empoderar pessoas e histórias negras. Ele contou qual a importância de ter ocorrido no dia da consciência negra:

"Eu acho que essa N52, ela veio pra mostrar aqui o futuro da moda é diverso sim e que a gente só cresce de verdade a gente só desenvolve de verdade na diversidade conhecendo o diferente , (...) o futuro é diverso também e a gente tem que respeitar essa diversidade dar espaço, dar voz, dar passarela, aí assim a gente consegue construir um um país mais representativo” finaliza, Daniel.

Sendo assim, a moda é mais um dos espaços que precisa ser revisado e reformado, assim como a sociedade que tem uma estrutura racista e preconceituosa, as instituições são reflexo disso. Celebremos mais uma conquista, mas sejamos criteriosos de como está sendo feita essa mudança.


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