03/12/2021 às 10h44min - Atualizada em 03/12/2021 às 10h24min

Educação: um caminho para resilientes

Longe de ser um percurso tranquilo, o ensino envolve muito mais que o acesso à sala de aula, mas a permanência nesse ambiente!

Letícia Aguiar - Editado por Larissa Bispo
Reprodução/Sinprodf
“Se não dá pra ir pra escola agora, não deixe a escola ficar longe de você, ligue, clique, se conecte, não desista do direito, seu direito de aprender”. Composição de Carlinhos Brown e Sérgio Valente, a letra da canção “Tamo Junto (Não Desista)” faz parte de uma campanha da Rede Globo para a conscientização sobre a evasão escolar, na tentativa de evitar essa situação.

Essa saída de alunos da escola teve aumento, principalmente, na pandemia, porque muitos tiveram dificuldade para acompanhar a nova rotina. Segundo a pesquisa “Juventudes e a Pandemia do Coronavírus”, do Conselho Nacional de Juventude (Conjuve), 30% dos 33 mil jovens entrevistados disseram que tiveram a intenção de deixar a escola. Entre os que planejavam fazer o ENEM, 49% tiveram a intenção de desistir.

Navegando contra a corrente e servindo de exemplo para esses muitos jovens que enfrentam dificuldades na sua trajetória com o ensino, dona Maria Gorete, de 64 anos, traz uma narrativa diferente. Nesse ano, ela recebeu uma notícia que a deixou com um sorriso de "orelha a orelha" e os professores cheios de orgulho: foi aprovada no ENEM!

Agora, Gorete irá fazer a graduação em Letras, na Universidade Federal de Alagoas, e em seu coração só tem espaço para a alegria. “É uma satisfação muito grande porque eu quero dar exemplo aos meus netos e bisnetos, e para essa turma de jovens que está por aí sem querer estudar. Eu tenho o prazer de deixar esse legado para todos eles”, disse.

Mas, infelizmente, nem sempre a alagoana conseguiu ter uma relação tão próxima com a escola. Ela começou a estudar, parou, retornou aos 50 anos e parou novamente, pois seu marido não gostava que Maria estudasse. Contudo, Gorete se revestiu de toda sua força e coragem para seguir na batalha em busca de um direito de todos nós: a educação. Contando com o apoio da filha, hoje, ela finalmente pode comemorar o sabor da vitória, como ela mesma diz “não existe idade para estudar, enquanto eu caminhar e tiver saúde eu vou em frente”.

A futura graduanda de letras se formou através da Educação de Jovens e Adultos (EJA), conhecida popularmente como “supletivo”. Essa modalidade de ensino é destinada às pessoas que não completaram, abandonaram ou não tiveram acesso à educação formal. De acordo com o IBGE, 52,6% da população acima dos 25 anos não tem a educação básica completa. Dessa porcentagem, 33,1% das pessoas não concluíram o ensino fundamental.

Formador de jovens e adultos em Alagoas, é com o peito transbordando de orgulho que o professor Alexandre Emiliano, 35, ensina a Língua Portuguesa. Segundo ele, tem sido cada vez mais comum a entrada de idosos na universidade, mas não na mesma proporção dos jovens.

Porém, ver sua aluna de 64 anos indo de encontro ao caminho da graduação é um verdadeiro sentimento de “dever cumprido” e da certeza que o estudo não impõe uma “classificação indicativa”. “Há um grande potencial nos alunos da EJA, que o diga dona Gorete, nossa pérola. Sempre é tempo de aprender/ensinar/aprender”, falou.



No entanto, mesmo diante de tamanha comemoração, Alexandre ressalta que a chegada à universidade ainda continua sendo um destino de poucos. “Embora a lei assegure esse direito, na prática, a realidade é outra. A maioria não chega à universidade, por uma série de motivos. Mas nós educamos no sentido de fazê-los entender que aquele espaço é nosso, que nos pertence e que todos poderemos chegar lá. Sei que isso é uma utopia, mas precisamos de utopia para viver”, afirmou.

Enfrentando barreiras, Isabela Christine, 45, também não possui uma relação fácil com a educação. Foi através de muita determinação que ela conseguiu se formar em Pedagogia. Isabela terminou a graduação aos 27 anos. Mesmo não sendo idosa, o percurso não foi menos árido.



A pedagoga trabalhava o dia todo e ia para a faculdade à noite. Nos 4 anos de graduação, Isabela ainda precisou administrar uma outra função: de mãe. Com dois filhos pequenos, ela conseguiu se manter nos trilhos da educação porque teve apoio do marido e da família, transformando-se em uma profissional realizada. “Hoje trabalho na área da minha formação. Sou Pedagoga no setor infantil de Dificuldade Intelectual (DI) e a cada dia me realizo mais com a minha formação. Alfabetizar e formar crianças não tem preço”, disse a educadora.

Portanto, “não deixar a escola ficar longe de você”, como pede a música, nem sempre é simples. Às vezes envolve obstáculos como falta de acesso, rotina de trabalho e outras ocupações que acabam deixando o estudo em segundo plano. Mas, a reconciliação com o estudo não tem um tempo ou idade certa, seja após o ensino médio ou até mesmo depois de alguns cabelos brancos, ainda é possível experenciar essa vivência, que mesmo sendo um direito, merecia ser, efetivamente, de todos!

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