04/12/2021 às 12h30min - Atualizada em 04/12/2021 às 11h45min

Crítica | A adaptação de Cowboy Bebop da Netflix que dividiu opiniões

O live-action tem pontos positivos e negativos que podem afetar a experiência dos fãs.

Nataly Leoni - Editado por Ana Terra
Reprodução Netflix

Repleta de jazz, viagens espaciais e recompensas, assim foi a estreia de Cowboy Bebop na Netflix. A série é um live-action do anime homônimo criado por Shinichiro Watanabe, em 1998. Desde quando foi criada, a obra carrega consigo uma legião de fãs que simplesmente amam o universo complexo do anime e tudo que ele representa. Mas a adaptação da Netflix criada por Christopher Yost e lançada em novembro deste ano, acabou dividindo opiniões seguindo as grandes mudanças feitas na história e personagens. 

O universo do anime Cowboy Bebop mostra a humanidade em um futuro em que viajar pelo sistema solar é algo totalmente corriqueiro. Shinichiro Watanabe nos apresenta ao quarteto formado por Spike, Jet, Faye, e Ed, que no anime são conhecidos como Cowboys, pessoas que saem pelo espaço para prender criminosos em troca de recompensas. Tudo isso acompanhado por muitas cenas de ação super épicas, cenários espaciais de tirar o fôlego, personagens misteriosos, carismáticos, e cheios de estilo, com uma pegada existencialista embalados por uma trilha sonora de jazz que traz um requinte a mais e muita personalidade à trama.

Já era esperado que a adaptação do anime para série sofreria mudanças que muitas vezes são necessárias até por serem formatos completamente diferentes, mas o live-action da Netflix apresentou mudanças que não agradaram boa parte dos fãs. Algumas delas não são muito significativas, mas outras podem estragar a experiência do enredo e até mesmo mudar os rumos da história, principalmente se você conhece a original.


Caracterização e efeitos 

Pode-se dizer que a série tenta ser fiel na caracterização dos personagens, dos cenários, e da trilha sonora que compõe grande parte da obra de Watanabe, o que contribui para dar o clima único que é uma das principais características de Cowboy Bebop. Caracterizar personagens de anime em live-action é algo difícil pela grande chance de mesmo sendo uma caracterização fiel, os personagens podem ficar caricatos, e com uma aparência de cosplay. Mas na série em específico, a caracterização funciona por ser um universo extremamente fantasioso com personagens bem exagerados por si só. Os efeitos, as naves, os planetas, e a construção dos cenários espaciais e portais pelos quais a nave Bebop se desloca pelo espaço são fieis as imagens originais, além disso a abertura que também é um dos pontos altos foi muito bem executada, algo que lembra muito o ritmo do anime, trazendo muita nostalgia para os fãs.

Desenvolvimento da trama e personagens   

As mudanças mais drásticas aconteceram no quesito desenvolvimento de personagens e trama. O anime é feito sem pressa, de uma forma misteriosa, os acontecimentos vão tendo suas explicações ao longo da história, o que deixa tudo mais interessante instigando a descoberta. Em contrapartida a adaptação acaba entregando muito rapidamente explicações de alguns aspectos que deveriam ter muito mais mistério, como as histórias do passado de Spike (John Cho) e a própria aparição de Julia (Elena Satine), seu amor do passado.

Observa-se que Yost pretendeu dar também mais destaque para o personagem do Vicious (Alex Hassell) o antagonista, e também da Julia que em boa parte do anime aparece apenas em flashbacks, além de toda a parte em que o sindicato ao qual fazem parte fica em evidência. Toda a personalidade de Vicious foi modificada, o personagem que na história original é misterioso, sombrio e traz tensão e seriedade para a mesma, na série é retratado como um personagem cheio de expressões, com atos impulsivos, revelando cada vez mais os seus planos obsessivos, com uma espécie de vilania caricata e louca, demonstrando uma fraqueza que faz com que o público não o leve muito a sério. 

Em relação ao trio principal - sim, trio, pois Ed (Eden Perkins) apenas aparece por alguns segundos dando a entender que seu personagem será desenvolvido se houver mais uma temporada - a dinâmica deles, apesar de ser diferente do anime,  é bem desenvolvida com momentos cômicos e demonstrações de amizade. Já a falta de Ed acabou comprometendo o desenvolvimento de Jet (Mustafa Shakir), já que os dois estão sempre juntos na nave também na companhia de Ein, o cachorrinho super valioso da história original. Foi criada então, uma família para Jet, uma ex-mulher e uma filha pequena que surpreendentemente se tornam uma parte importante da trama.

As personalidades do trio, Jet, Spike e Faye também mudaram em alguns aspectos, mas nada que afete muito a experiência da série, apenas como cada personagem é visto pelo público. No anime, a relação entre Faye e Spike não é muito amigável, eles acabam demonstrando amizade por gestos pontuais, já na adaptação eles se tornam amigos muito mais rápido. O Spike de John Cho não é tão desapegado quanto o da história original, mas a sua irreverência e habilidades de luta estão intactas, e acaba representando bem o cowboy charmoso do anime.

A série deixa claro desde o início que não irá se deter apenas a história original, com várias mudanças na linha do tempo, mudanças no enredo e a criação de segmentos inexistentes no anime mas que muitas vezes se tornam necessárias, afinal de contas é uma adaptação de um anime de 1998 e o perfil das gerações mudaram muito. Muitas delas acabaram prejudicando a trama, alguns dos aspectos agregados pela adaptação também se tornam desnecessários, já outros funcionam muito bem por ser um formato de série para TV. Cowboy Bebop é perfeita para quem não se incomoda com as alterações na história original, ela traz toda a nostalgia retro-futurista com muito jazz, que é típica desse anime que marcou gerações.

Em entrevista ao Screen Rant, John Cho, que vive Spike na série disse que espera que a próxima temporada tome rumos mais obscuros e esquisitos desejando mais liberdade criativa para a produção, o ator também falou sobre o sofrimento de seu personagem, “Eu também quero que Spike seja feliz. Essa temporada foi dura com ele. Eu senti bastante pena dele. Então torço para que ele tenha um momento de alegria”. O que será que vem por aí?

REFERÊNCIAS
COUTINHO, Flavio Motta. Cowboy Bebop na Netflix: veja as principais diferenças entre anime e série. Tecmundo, 24 de nov. de 2021. Disponível em: <https://www.tecmundo.com.br/minha-serie/229300-cowboy-bebop-netflix-principais-diferencas-anime-serie.htm>. Acesso em: 3 de dez. de 2021.
PEREIRA, Eduardo. Cowboy Bebop, da Netflix, é decepção amarga mesmo com homenagens ao anime. Omelete, 18 de nov. de 2021. Disponível em: <https://www.omelete.com.br/series-tv/criticas/cowboy-bebop-live-action-critica>. Acesso em: 3 de dez. de 2021. 

URBULU, Rafael. Ator de “Cowboy Bebop” quer segunda temporada “mais esquisita e obscura”. Olhar Digital, 01 de dez. de 2021. Disponível em: <https://olhardigital.com.br/2021/12/01/cinema-e-streaming/ator-de-cowboy-bebop-quer-segunda-temporada-mais-esquisita-e-obscura/>. Acesso em: 3 de dez. de 2021.


Link
Notícias Relacionadas »
Comentários »