13/12/2021 às 11h44min - Atualizada em 13/12/2021 às 12h39min

A “reparação histórica” alcança as histórias em quadrinhos

Nova obra com super-heróis marginalizados chegará ao mercado

Paulo Firmo - Editado por Fernanda Simplicio
Fonte/Preprodução: Panini Comics
Com o anúncio da publicação no Brasil de A Outra História do Universo DC durante a CCXP 2021, as editoras Panini Comics e DC Comics fortalecem o espaço da diversidade nos quadrinhos.
 
Na atualidade vivemos uma espécie de “basta geral”. Contra preconceitos e discriminações de toda ordem – das mais sutis e veladas àquelas explícitas e extremamente agressivas –, as pessoas veem aprendendo a não se calar. Manifestar insatisfação sobre toda a sorte de incongruências sociais assumiu o status de necessidade básica. Ou seja, está na ordem do dia e conectada à sobrevivência emocional (e muitas vezes material) de pessoas e grupos. Como parte integrante desta batalha por uma vida mais oportuna e igualitária, busca-se também a chamada “reparação histórica”.
 
Em uma reportagem para o TAB Uol, Desejo e Reparação: Como acertar as contas com o passado? Movimentos reacendem discussões sobre justiça histórica, as jornalistas Juliana Sayuri e Larissa Linder obtém o esclarecimento elaborado pelo historiador Bruno Leal, professor da Universidade de Brasília – UnB. Para ele, “‘reparação histórica’ se refere a ações pensadas para mitigar ou amenizar injustiças cometidas no passado contra determinadas comunidades ou grupos sociais.”
 
Para tanto, é notório que as manifestações artísticas são canais através dos quais a humanidade manifesta questionamentos e estrutura ações. Dentre elas, as histórias em quadrinhos, que (literalmente) ilustram e podem contribuir para reivindicar os espaços das denominadas “minorias” – termo que remete a pouca ou mesmo falta de representatividade de alguns públicos nas sociedades, em função dos mais variados motivos (Aqui, o número de indivíduos não assume a maior relevância). Gibi também é lugar de ação para efetivar reparações históricas.
 
Alguns dos grupos que estão na luta pela conquistas de expressão e espaço estão as mulheres, indivíduos LGBTQIA+, pessoas com deficiência, migrantes, negros e indígenas. A estes, devido a uma construção cultural através dos séculos, tendia-se a não creditar a capacidade de assumir funções de grandes responsabilidades e poder. Nem mesmo no campo da cultura ficcional. Assim, transpondo tal percepção deturpada para os quadrinhos, décadas atrás, era impensável a possibilidade de um Super-Homem ou Capitão América negros por exemplo. O que só viria a acontecer em 2009 e 2004 respectivamente.  
 

 
Fato é que, atualmente são inúmeras as narrativas nas histórias em quadrinhos e nas mais diversas expressões artísticas, nas quais o protagonismo está nas mãos de indivíduos que integram as chamadas “minorias”. Uma destas narrativas, ou melhor conjunto de narrativas, se deu em 1993 com o surgimento da Milestone Media, empresa que criou o selo de quadrinhos americanos Milestone Comics.
 
Encabeçado pelos escritores afro-americanos Dwayne McDuffie, Denys Cowan, Michael Davis e Derek T. Dingle, cujos títulos foram distribuídos pela DC Comics, tratou-se de um universo novo de super-heróis negros, criados por artistas negros que objetivavam corrigir o desequilíbrio ilustrado pela pouca representatividade dos negros nas HQs dos EUA – Há poucos meses o evento DC FanDome 2021 (convenção de quadrinhos e entretenimento da DC Comics), apresentou a The Milestone Initiative (a “Iniciativa Marco Histórico” em tradução livre), a fim de homenagear os criadores da Milestone e dar seguimento à sua missão.


 
Neste cenário notadamente internacional – no Brasil podemos destacar o recente projeto “Narrativas Periféricas”, idealizado pela editora Mino – , em 2020 a DC Comics – pertencente à produtora estadunidense e distribuidora de conteúdo televisivo Warner Bros –, berço de ícones como Mulher-Maravilha, Batman e Super-Homem, convidou o escritor e roteirista norte-americano ganhador do Oscar 2014 – melhor roteiro adaptado com o filme 12 Years a Slave ou 12 Anos de Escravidão em tradução livre –, John Ridley (1965-), para aprofundar a mitologia do Universo DC com a HQ A Outra História do Universo DC.
 
A obra se propõe a focar em momentos icônicos do respectivo universo, sob o ponto de vista de heróis historicamente marginalizados da editora. Assim, estruturando discussões sociais e políticas antes inexploradas, a título de exemplo, podemos imaginar saber como o Lanterna Verde John Stewart (um super-herói negro) percebeu e se enxergou dentro de grandes sagas que envolveram muitos heróis e acontecimentos decisivos. Entender ainda, um pouco mais das sensações e pensamentos da Katana, personagem com habilidades marciais, de origem asiática, com pouco espaço de expressão nas histórias. Ou mesmo adentrar nas angústias e anseios do pouco explorado Aqualad, que foi uma espécie de sidekick (ajudante em uma tradução livre) do Aquaman. Tal qual o Robin está para o Batman.
 

 
Nas páginas da edição norte-americana, que podem ser conferidas aqui, podemos notar o largo uso de alguns recursos de linguagem próprios das histórias em quadrinhos. São eles as legendas e os recordatórios, que se prestam a “dar voz” ao narrador onisciente (aquele que tem saber absoluto). Mas que, no caso de A Outra História do Universo DC, aparenta ser ferramenta de reflexão de um narrador-personagem.
 
Na HQ, aparentemente os tradicionais balões de texto não estão presentes. Estratégias que embora possam assemelhar a HQ a um livro ilustrado (discussões à parte), podem fornecer mais ênfase, robustez e maior volume de informações e referências ao discurso daqueles heróis marginalizados que aqui, como dito, são protagonistas e apresentam a sua visão de mundo.


 
Ainda não foram divulgados maiores detalhes a respeito da edição brasileira, planejada para a segunda metade de março de 2022. Apenas uma pequena sinopse, informações técnicas, valor e outros artistas envolvidos no projeto. Tudo disponível no site da Panini Comics Brasil. Todavia, como as HQs, e a Arte de modo geral, são causa e ou consequência da vida em sociedade, a obra promete e já assume uma grande relevância.
 
 
Referências
 
FORA DO PLÁSTICO. PARA TODOS OS GOSTOS!. Instagram. 5 dez. 2021. Disponível em: https://www.instagram.com/p/CXHSI03vjOV/. Acesso em: 5 dez. 2021.
 
LINDER, Larissa; SAYURI, Juliana. DESEJO E REPARAÇÃO: TAB UOL. 3 nov. 2020. Disponível em: https://tab.uol.com.br/edicao/reparacao-historica/#end-card. Acesso em: 10 dez. 2021.
 
MATTOS, Gabriel. Kalel da Terra-23: Tudo sobre o Superman negro. Legião dos Heróis. [s.d]. Disponível em: https://www.legiaodosherois.com.br/lista/kalel-terra-23-superman-negro.html#list-item-1. Acesso em: 10 dez. 2021.
 
MAZZEI, Beatriz. Pela 1ª vez, cidade dos EUA pagará reparação pela escravidão; e no Brasil?. 30 mar. 2021. ECOA UOL. Disponível em: https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2021/03/30/pela-1-vez-cidade-dos-eua-pagara-reparacao-pela-escravidao-e-no-brasil.htm. Acesso em: 11 dez. 2021.
 
MENDES, Rodrigo. H. Portador, especial, deficiente? Qual o termo adequado?. 10 jul. 2020. ECOA UOL. Disponível em: https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/rodrigo-mendes/2020/07/10/portador-especial-deficiente-qual-o-termo-adequado.htm. Acesso em: 11 dez. 2021.
 
Miyahara, Seliza N. Titãs | Revelado primeira foto oficial do atlante Aqualad! [s.d]. Alternativa Nerd. Disponível em: https://alternativanerd.com.br/series-tv/titas-revelado-primeira-foto-oficial-do-atlante-aqualad/. Acesso em: 11 dez. 2021.
 
OLIVEIRA, Murilo. Quem é Isaiah Bradley, o primeiro Capitão América negro. O Vício. 28 mar. 2021. Disponível em: https://ovicio.com.br/quem-e-isaiah-bradley-o-primeiro-capitao-america-negro/. Acesso em: 10 dez. 2021.
 
RAMOS, Paulo. A leitura dos quadrinhos. São Paulo: Editora Contexto, 2009. 2 ed. 160 p.

 

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