15/12/2021 às 12h00min - Atualizada em 15/12/2021 às 11h43min

Entrar, estar e sair: qual o pior?

Entrar foi sim muito difícil. Estar lá é quase impossível. E sair, pelo menos para mim, não existe nem nos mais fantasiosos sonhos.

Lívia Nogueira - Revisado por Márcia Nascimento
A porteira está trancada em vários sentidos para muitos dos moradores de interiores. (Foto/Reprodução : Pixabay - Canal Rural)
Cheguei da lan house, eufórico a ponto de não conseguir disfarçar. Meus pais e irmãos, que já se preparavam para receber o resultado, me esperavam ansiosos na porta de casa. Entrei e as vozes até se atropelavam:
 
- E aí? - Um dos meus irmãos perguntou.

- Deu certo? - Meu pai.
 
Até que eu tentei fazer um suspense, mas o meu sorriso evidenciava: sim, passei na universidade pública mais próxima da minha cidade. Todos respiraram fundo e me abraçaram em um abraço coletivo espontâneo - mais do que raro na nossa convivência doméstica. Nada seria capaz de nos proporcionar tanta alegria quanto isso. Aos 23 anos, o mais novo e o primeiro, entre os cinco irmãos, que atingiu tamanha conquista, entre trancos e barrancos. O meu alívio representava libertação de tanto esforço, de tantos resultados negativos, da pressão familiar que se concentrava em mim e da prisão que era viver em um interior rural que nunca me coube. 
  
Minha mãe me recebeu com um bolo de cenoura com cobertura de chocolate, que, apesar de simples, só era feito em poucas datas comemorativas. Dentre elas, nas outras vezes em que fui consultar os resultados de Enem e não tive sucesso. O alívio que citei também representava, finalmente, ter dado um motivo válido àquele bolo. Como outras exclusividades daquele dia, todos nós sentamos à mesa e tomamos café com o bolo, comentando as dificuldades que foram ultrapassadas para que aquele resultado fosse possível e a importância disso para todos naquela casa.
 
 

Acredito que não tenha explicitado esses obstáculos ainda, então: moro em uma cidadezinha, no interior de Goiás, a 50 quilômetros da capital. Meus pais cultivam mandioca e milho e tratam de gado ao lado da nossa casa. Sempre trabalhei, junto aos meus irmãos, para auxiliar nas tarefas domésticas e, ainda assim, conseguir estudar. Tínhamos uma carroça e um jumento, que possibilitavam o transporte até a capital para ir à escola. Como irmão mais novo, nos dias em que meus irmãos não estavam dispostos a estudar, eu era obrigado a me dedicar em casa mesmo, com o material que recebia da escola. Saía de casa às cinco da manhã para chegar na cidade grande a tempo. Foi assim por longos 15 anos
 
Ao sair do espaço comum e aquietar os ânimos agitados, comecei a organizar os meus pensamentos em direção ao que estava por vir. Os 15 anos se tornariam, no mínimo, 20. O curso, de Ciências Contábeis, era integral. “Onde eu vou ficar?”, “o que eu vou comer o dia inteiro?”, “continuo indo de carroça?”, “vou ter condições psicológicas e financeiras de manter essa rotina?”, […]. As dúvidas eram infinitas e, para todas, as respostas eram negativas. 
 
Aos poucos, foi caindo à ficha de que não haveria possibilidade de manter tal sonho. Todo o alívio e a expectativa que criei em mim e nos meus familiares foram por água abaixo. Ainda preciso entender como contar isso a eles.
  

- Entrar na universidade é fácil, difícil é sair - Ouvi uma vez de um professor de matemática na escola.

 
Entrar foi sim muito difícil. Estar lá é quase impossível. E sair, pelo menos para mim, não existe nem nos mais fantasiosos sonhos.
 

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