22/12/2021 às 08h57min - Atualizada em 16/12/2021 às 01h39min

Loiro Pivete | Tradição além da estética

Andar de cabelo pintado nas comunidades é enfrentar o preconceito e a associação com a criminalidade

William Haxel - Revisado por Márcia Nascimento
Extraído do livro "Loiro Pivete: Da Margem Ao Centro"
Cabelo descolorido. (Foto/Reprodução: Ana Lee)

Sempre que chega o final do ano, é a mesma coisa – várias crianças, adolescentes e adultos recorrendo aos salões, farmácias e casas de cosméticos a fim de recursos para tingir o cabelo de loiro. O visual é bastante utilizado pelos jovens de periferia e tornou-se tradição no verão e nas festas tradicionais do fim de ano. Com um propósito de charme e estética, surge então o apelidado “Loiro Pivete”.  

O movimento estético, genuinamente periférico, foi símbolo adotado pelos cantores de pagode Belo e Rodriguinho nos anos 2000, e há quem diga que o estilo nasceu nessa época. Além dos músicos, alguns jogadores de futebol passaram a utilizar o cabelo tingido como novo visual. 

Nas favelas e periferias do Rio de Janeiro e da Bahia – majoritariamente – o visual é adotado. Além das datas comemorativas no final do ano, os jovens também descolorem o cabelo de loiro em eventos como micareta, carnaval e alguns feriados nacionais. Entretanto, esse procedimento estético vai além de um simples visual, uma vez que o estilo é característica de uma população considerada marginalizada, abrem margens para o aumento de denúncias de cunho racial relatadas pelos jovens negros, pois, para alguns, a mudança na cor do cabelo é vista como “cabelo de bandido”.

Com intuito de fortalecer narrativas e valorizar a criatividade e ousadia da moda periférica que atravessa estruturas, olhares e redefine noções de autoestima e identidade, a fotografa, Ana Lee Sales, criou um projeto fotográfico que se embala no movimento estético de descoloração e pintura de cabelo de jovens negros em Ilhéus, Bahia, intitulado “Loiro Pivete: Da Margem Ao Centro”. A respeito do projeto, Ana Lee relata em uma entrevista para o mosaico baiano:

“a maior parte da minha vida eu morei em periferia e sempre observei que existe algumas modas e particularidades que funcionam dentro desse território que fazem sentido e sucesso lá, mas quando saem desse lugar, elas sofrem qualquer tipo de preconceito ou só são aceitas quando são utilizadas por pessoas de uma outra classe social ou famosos que utilizam. O loiro pivete é um exemplo disso. Aliado a isso, eu observei um crescente número de denúncias de jovens negros que sofreram algum tipo de preconceito ou sofreram abordagem policial violenta por conta do cabelo”. Enfatiza.


O projeto conta também com o livro digital e um curta-metragem documental:
 
Loiro Pivete: Margem ao Centro. (Reprodução: Loiro Pivete: Margem ao Centro/ YouTube)

Ainda sobre o assunto, Bia, trancista e estudante de direito complementa:

“Ao invés de falar de nossas dores, eu quero que mais vezes pessoas como Ana Lee criem projetos onde a gente possa falar de coisas boas, onde a gente fale de prosperidade e beleza, pois nosso cabelo é de verdade, não é só uma moda passageira que vem no final do ano. É algo que é recorrente e a gente gosta e que a gente quer que se naturalize.

 

O projeto tem apoio financeiro do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura e da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Programa Aldir Blanc Bahia) via Lei Aldir Blanc, direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, Governo Federal.

O “Loiro Pivete” não é só uma simples mudança no visual no final do ano, 
ele passou a ser um elemento simbólico de valor cultural dos jovens das favelas e periferias, pois fazem parte de sua realidade e passa a ser atribuída como um ato de resistência. Tingir o cabelo com tonalidades de loiro passa a ter sentido tanto estético quanto identitário para a população, além disso, gera estranhamento ao se expandir para os espaços nobres das cidades - mas são bem aceitos quando utilizados por famosos. Pensando nisso, torna-se importante ressaltar que o preconceito não é a cor do cabelo e sim a cor da pele de quem descolore a sua cabeça. 


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