16/12/2021 às 20h38min - Atualizada em 16/12/2021 às 20h17min

A triste realidade dos abusos sexuais e morais nas universidades brasileiras

Todos os dias mulheres são vítimas de abusos e violência, dentro de suas casas, trabalho, na rua e nas instituições de ensino na qual estão inseridas, essa realidade ainda que brutal, tem pouca perspectiva de melhora

Emily Prata - Editado por Andrieli Torres
Reprodução: Imirante

“Ele se aproximou de mim e disse que estava excitado, me pressionou contra a parede”, contou uma das vítimas do professor de paleontologia da Unirio, a Universidade Federal do Rio de Janeiro, que está sendo acusado por estudantes e colegas de abusos morais e sexuais.

 

O Brasil é um país com um largo histórico de violência sexual, que está enraizado em sua cultura, onde mulheres são sexualizadas, assediadas e agredidas a todo instante e a culpa volta-se somente para elas mesmas, enquanto abusadores e agressores saem muitas vezes impunes dessas situações. Atualmente, esses casos vêm se tornando mais públicos e visíveis para o público, o que ajuda em muito na visibilidade para a violência sofrida pelas vítimas e de certa forma impulsiona as autoridades a tomarem providências quanto aos ataques sofridos por essas mulheres. Até mesmo em ambientes em que deveriam sentir-se seguras e respeitadas, são expostas a abusadores e são sexualizadas constantemente, casos de abuso moral e sexual em universidades tornaram-se cada vez mais frequentes e somente agora estão recebendo a atenção necessária. 

 

As agressões se apresentam de diversas formas, assim como os agressores, mas principalmente professores, que se aproveitam de suas posições privilegiadas de poder para se aproveitar de alunas e colegas de trabalho. Isso reflete muito em como a sociedade como um todo precisa cuidar da preservação da dignidade e segurança da mulher, em pesquisa realizada em 2019 pelo Intercept, mais de 556 mulheres foram vítimas de violência sexual dentro de universidades desde 2008. A pesquisa citada anteriormente contabilizou casos em 122 universidades, particulares e públicas, porém quase nenhuma possui políticas efetivas de prevenção, combate e apoio às vítimas, dessa forma muitos casos não chegam nem a ser notificados. 

 

Além de haver pouquíssimas iniciativas de mudança e melhora quanto à falta de sistemas de apoio, na maioria das vezes as próprias estudantes criam suas iniciativas e métodos de proteção.Um exemplo é a medida tomada pela Universidade Federal da Paraíba, em que a partir de março de 2019, as estudantes passaram a poder circular pelo campus portando armas de choque, medida aprovada pelo conselho universitário. 

 

UNIRIO

 

No último domingo (12), o Fantástico transmitiu uma reportagem que trazia as vítimas e o histórico de abusos do professor de paleontologia da Unirio, Leonardo Ávilla também é coordenador do laboratório que estuda mamíferos extintos na universidade. Os casos vieram à tona quando outro professor e paleontólogo da UFBA - Universidade Federal da Bahia - publicou na internet os relatos, porém sem divulgar o nome do professor. Porém, logo depois foi exposto pelo jornalista americano Michael Balter, que pediu às vítimas que se pronunciassem. 

 

“Ele pegou a minha mão para colocar no órgão dele”, relatou uma das vítimas.

 

Foram 23 pronunciamentos de alunas e colegas que contam ter sofrido abusos e perseguições. A repórter do Fantástico, Sônia Bridi, entrevistou 12 delas e os relatos são revoltantes, as estudantes e colaboradoras relatam até mesmo retaliações acadêmicas quando as vítimas reagiram. Trabalhos e projetos acadêmicos de anos foram arquivados pelo professor que afirmava “que o laboratório não era uma democracia”, ou seja, sua vontade e opiniões eram regra, assim a maioria das alunas acabaram desistindo da carreira acadêmica. 

 

UNIFAMAZ

 

Outro caso que causou muita revolta nas redes sociais no último mês, foram as declarações absurdas durante uma aula prática do curso de medicina no Centro Universitário Metropolitano da Amazônia (Unifamaz). Enquanto uma aluna praticava o processo de intubação de pacientes, o professor perguntou se a mesma levaria um lubrificante quando fosse estuprada. A situação que ocorreu em 17 de novembro teve o vídeo repercutido nas redes sociais a partir do dia 25 e desde então tem gerado revolta generalizada nos internautas e nos alunos da instituição. 
 

   

Houveram protestos realizado por alunas em frente a faculdade contra a cultura do estupro, após a confirmação de que o caso está sendo investigado pela e pela instituição, as estudantes se mobilizaram e criaram um coletivo para acompanhar o andamento do caso e cobrar medidas da instituição. 

 

"Nós, enquanto alunas e indiretamente vítimas desse caso, exigimos a responsabilização do docente e o comprometimento da instituição na prevenção da violência de gênero", diz Brenda Silva Lisboa Alves, aluna do 4º semestre de medicina e integrante do coletivo de mulheres estudantes, em entrevista ao G1.

 

É revoltante e assustador observar o quanto as mulheres estão vulneráveis, até mesmo nos ambientes acadêmicos, onde figuras de poder que deveriam lhes passar segurança e aprendizado, utilizam-se dos seus privilégios e posições de poder para violentar alunas e colegas. A maioria dessas histórias seguem um triste padrão de resposta, a vítima faz a denúncia - na ouvidoria da instituição ou na delegacia - tem sua história colocada em dúvida e a palavra do agressor é preterida em relação a sua.

 

Além disso, podemos observar um padrão de respostas das instituições que sempre afirmam condenar os atos, mas levam semanas e até mesmo meses para tomar medidas em relação aos agressores, como afastamentos e demissões. As vítimas são colocadas pelos agressores como mentirosas e oportunistas, enquanto criam narrativas em que se colocam como vítimas. Mas com a visibilidade cada vez maior que as redes sociais proporcionam para as verdadeiras vítimas, elas recebem cada vez mais apoio e chances de justiça.

 

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