13/02/2021 às 03h09min - Atualizada em 13/02/2021 às 02h22min

Crítica | Cidade Invisível resgata folclore brasileiro em um roteiro viciante

Em versão adulta, série traz figuras clássicas com abordagens modernas e com muito suspense

Victória Souza - Editado por Bárbara Miranda

Crescemos ouvindo de nossos pais lendas como a de um menino travesso de uma perna só que surgia em um redemoinho e assustava as pessoas, uma sereia que levava os homens para o fundo do mar e até mesmo ouvimos uma cantiga de ninar em que se o bebê não dormisse, a Cuca - uma bruxa muito poderosa, viria pegar ele enquanto os pais estavam trabalhando. Depois vimos essas histórias sendo representadas em programas como o “Sítio do Pica-Pau Amarelo”, e foi ali que alguns desses personagens tomaram forma no imaginário das pessoas. Como o caso da Cuca, pergunte para qualquer um como é a forma dessa bruxa temida, principalmente pelas crianças, que as respostas serão as mesmas: uma jacaré com cabelos loiros. Mas, saiba que na série Cidade Invisível, estreada na última sexta-feira (5), não é bem assim que essas entidades são mostradas.

 

O showrunner da nova produção da Netflix, Carlos Saldanha (A Era do Gelo), busca resgatar a memória dos brasileiros com as figuras de nosso folclore, mas trazidas em uma trama cheia de suspense e mistério em um roteiro viciante e totalmente diferente do que estamos acostumados, em uma versão mais adulta. Além disso, a série é também um desafio pessoal para o diretor, já que é o seu primeiro trabalho em live-action. O elenco é estrelado por Marco Pigossi e Alessandra Negrini.

 

No primeiro episódio, os espectadores já são surpreendidos pelo roteiro misterioso. Gabriela (Julia Konrad) leva a sua filha para uma festa na Vila Toré, no Rio de Janeiro, e a menina é atraída para a floresta que, de repente, é incendiada. Na tentativa de proteger a filha, Gabriela acaba morrendo. Com isso seu marido e também policial ambiental Eric (Marco Pigossi) fica obcecado para investigar a morte da esposa e assim começa a trama da série. A série segue com o envolvimento de Eric na investigação, mesmo que o delegado tenha encerrado as investigações, até que tudo muda quando o policial encontra um boto cor-de-rosa em uma praia, o que é incomum já que o animal é facilmente encontrado nos rios de água doce no norte do país, mas precisamente, na Amazônia. Mas o que poderia ser apenas um caso para a polícia ambiental, vira de cabeça para baixo quando Eric não consegue levar o boto para a autópsia, devido ao jogo do flamengo que iria acontecer - elemento escancaradamente brasileiro muito bem colocado na série. Que outro lugar pararia a cidade por causa de uma partida de futebol? Ele leva o animal morto para casa e após achar que havia alguém em sua garagem e verificar a traseira de seu carro, ele tem uma grande surpresa: no lugar do boto que estava em seu carro mais cedo, havia o corpo de um homem que mais tarde tem a sua identidade revelada como Manaus (Victor Sparapane). Após esse acontecimento, a vida de Eric muda completamente com descobertas sobre o trabalho de sua falecida esposa que era antropóloga e trabalhava com o folclore brasileiro e sobre a sua própria identidade em um mundo em que seres humanos e entidades convivem diariamente.

 

Apesar de alguns diálogos desinteressantes e a sensação de que algumas tramas ficam se repetindo, os episódios prendem a atenção do telespectador que fica sempre querendo mais ao final de cada episódio. A fotografia é sem dúvidas um dos maiores acertos da produção, mesclando o nosso mundo com o misticismo de forma tão suave que poderíamos até imaginar se realmente pode existir seres do folclore vivendo entre nós. Os efeitos especiais, apesar de serem poucos, são dosados da forma perfeita e muito bem feitos, sobretudo na caracterização dos personagens, que não são nada caricatos como imaginamos ser e foram humanizados, se misturando com os humanos, como o Curupira (Fábio Lago), que abandonou a sua forma para se parecer com um morador de rua.
 

Mesmo a série sendo baseada no Rio de Janeiro e não no Norte ou Nordeste do país e não ter representações indígenas, é inegável a importância de produções como essa da Netflix. Em um país conhecido por ter a memória curta, ver nossas histórias sendo representadas com abordagem diferente do qual estamos acostumados além de valorizar nossas raízes e a importância delas para nossa cultura, abre muitas para outras produções brasileiras.

REFERÊNCIAS

AMENDOLA, Beatriz. 'Cidade Invisível' acerta com suspense viciante e versão adulta de mitos. UOL, 2021. Disponível em: <https://www.uol.com.br/splash/series/critica/critica-cidade-invisivel.htm>. Acesso em: 12/02/2021.


ROSA, Natalie. Crítica | Cidade Invisível valoriza folclore brasileiro em série envolvente. CANALTECH, 2021. Disponível em: <https://canaltech.com.br/series/critica-cidade-invisivel-netflix-178608/>. Acesso em: 12/0/2021.
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