22/12/2020 às 09h56min - Atualizada em 22/12/2020 às 09h53min

Cinemas vs Streaming: os desdobramentos da estratégia da Warner que podem mudar os rumos do entretenimento

A pandemia de coronavírus acelerou em anos o processo de mudanças que estão esvaziando as salas de cinema

Jonathan Rosa - Editado por Fernanda Simplicio
Cena do filme king kong vs godzilla. (Foto: Reprodução/ Legendary Pictures/ warner Bros. Pictures/ AMC/ Montagem: Jonathan Rosa)

Com mais de 100 anos de existência, os cinemas já passaram por muitas mudanças, mas sempre conseguiram se manter entre as formas de entretenimento mais populares da sociedade. Nas últimas décadas, esses espaços enfrentaram adversários poderosos, como: a televisão, o videocassete, DVD, Blu-ray, canais de tv pagos, a internet e finalmente o streaming de filmes e séries. Além de tudo isso, questões econômicas como o grande aumento de custo do metro quadrado, preço da energia elétrica e insumos também pesaram para as salas de cinema.

Mas nada disso foi capaz de diminuir a popularidade da sala escura, a cada novo desafio que surgiu, os cinemas se adaptaram pela sua sobrevivência. Porém, em 2020 a pandemia de covid-19 acelerou o processo de desgaste do modelo, aumentando exponencialmente o risco das redes de cinema perderem essa guerra. O que pode marcar uma derrota irremediável das salas e com isso determinar uma nova mudança na maneira de realizar, e consumir obras audiovisuais.

Essa situação se demonstrou ainda mais preocupante após a produtora Warner Bros. anunciar que em  2021 vai lançar todos os seus filmes de forma simultânea nos cinemas e no canal de streaming HBO MAX. Como resultado, muito se está especulando que esse movimento pode ser o começo do fim definitivo dos cinemas, mas isso não começou agora. 

O acordo entre AMC e Universal

Em meados de abril, quando a pandemia ainda era pouco compreendida e os especialistas indicavam máscaras apenas para pessoas sintomáticas, a maioria das salas de cinema já se encontravam fechadas há pelo menos um mês, e os adiamentos cinematográficos começaram a se empilhar. Foi então que a produtora Universal Pictures deu um dos primeiros passos para começar a colocar os cinemas contra a parede.

O estúdio decidiu lançar a animação "Trolls 2" diretamente nos serviços de locações virtuais americanos. A decisão acabou se provando lucrativa, com o filme faturando cerca de 100 milhões de dólares (R$ 542,8 mi) em suas primeiras três semanas de locações. Por causa desse bom resultado, o CEO da NBCUniversal acenou para a possibilidade de adotar a estratégia de lançamento simultâneo mesmo após a amenização da pandemia.

Contudo, a resposta dos cinemas veio rápido, a Cineworld, empresa dona da rede de cinemas americana Regal Cinemas, e a AMC Theatres, maior rede de cinemas dos EUA, logo anunciaram que não iam mais exibir títulos da Universal enquanto o estúdio não voltasse atrás na decisão de lançar longas simultaneamente nos cinemas e nos serviços de streaming.

Mas após a imensa repercussão negativa em cima da Universal, o estúdio voltou atrás, e ao invés de encarar uma briga com as salas de cinema, fechou um acordo menos prejudicial para as redes. O novo trato reduziu o tempo em que um filme ficará exclusivamente em cartaz (pelo menos nas salas da AMC) antes de ser distribuído a outras plataformas domésticas, além disso a rede de cinemas receberá parte dos ganhos com os vídeos sob demanda.

Segundo este convênio, até então inédito, os novos filmes do Universal ficarão disponíveis em sistemas de vídeo sob demanda após 17 dias de exibição nas salas. Historicamente, os grandes filmes ficavam em média três meses em cartaz antes de ir para qualquer outra plataforma.

A Warner não sabe brincar 

Depois de quase um ano sem vendas de ingressos, pipocas ou publicidade, enquanto seus gastos com aluguel, iluminação, segurança, manutenção e impostos seguem gerando despesas e sem nenhuma receita entrando, a vacinação finalmente começou a ser aplicada renovando as esperanças das redes de cinemas.  

Mas quando o imbróglio com a Universal e as constantes perdas por conta da pandemia global pareciam estar prestes a ficar para trás, a Warner Bros. Pictures apunhalou parceiros comerciais e redes de cinemas norte-americanos com uma revelação assustadora e inesperada.

Apesar da empresa ter firmado um acordo de cavalheiros com as redes de cinema para lançar Mulher Maravilha 1984, simultaneamente no HBO Max e nas salas de cinemas americanos, a empresa anunciou que tomará a mesma medida com todos os seus lançamentos de 2021. Com o intuito de obter lucro mesmo no auge do isolamento, há poucos dias, a Warner anunciou por meio das redes sociais, e sem comunicar os estúdios apoiadores, que todos os seus filmes do ano vão estrear ao mesmo tempo nos cinemas e no streaming.

Com distribuição em em 4K Ultra HD, HDR10, Dolby Vision e Dolby Atmos, os filmes que chegarão neste modelo incluem: Matrix 4, O Esquadrão Suicida, Godzilla vs. Kong, Mortal Kombat, Duna entre outros títulos. Os lançamentos vão permanecer no serviço durante um mês e não terão custo adicional.

Segundo comunicado da WarnerMedia: “O modelo híbrido foi criado como uma resposta estratégica ao impacto da pandemia global”. E após ficar um mês no HBO Max dos EUA, cada filme deixará a plataforma e continuará nos cinemas norte-americanos e territórios internacionais, com todas as janelas de distribuição habituais aplicáveis a cada título.

Ann Sarnoff, executiva da WarnerMedia, afirma que esse é um meio-termo para apoiar as salas de cinema “com um fluxo constante de filmes”, ao mesmo tempo em que dá a escolha de assistir em casa para quem não possa (ou não queira) frequentar esse tipo de local durante a pandemia do novo coronavírus. Mas embora seja uma estratégia para tornar possível o lançamento de filmes em tempos pandêmicos, muitos temem pelas consequências que isso pode trazer para o futuro dos cinemas.

As reações contra Warner 

Mas os às redes de cinemas, os diretores de grande parte dos filmes e até mesmo as empresas parceiras da Warner não viram com bons olhos esse “meio-termo”. Principalmente por ter sido anunciado sem nenhuma consulta aos cineastas envolvidos por trás desses filmes, o que gerou uma reação muito negativa de nomes como Christopher Nolan e Denis Villeneuve.

Após a abordagem abrupta da Warner, em uma estratégia considerada favorável a plataforma HBO Max em detrimento dos exibidores tradicionais, as retaliações contra a decisão começaram a surgir de forma exponencial. A Legendary Entertainment por exemplo, que é responsável pelos filmes Duna e Godzilla vs. Kong, pretende questionar a decisão da Warner Bros. de forma judicial.

Segundo o site norte-americana Deadline, a produtora só tomou conhecimento da decisão da Warner 30 minutos antes do anúncio oficial ser feito ao grande público. A publicação também revela que a Legendary e seus parceiros financiaram 75% dos 165 milhões de dólares do orçamento de Duna e aplicaram uma quantia semelhante no financiamento de Godzilla vs. Kong

O CEO da AMC, Adam Aron, falou sobre o assunto em uma carta aberta onde criticou a Warner. Ele começou explicando que apoiou a decisão de lançar Mulher-Maravilha 1984, por ser um momento atípico e bem delicado no cinema. Porém, Aron continua dizendo que não imaginava que o estúdio usaria essa mesma ferramenta para lançar todos os seus filmes em 2021, e que isso poderia provocar estragos consideráveis na indústria cinematográfica como um todo. 

Ele ainda nota que, com as expectativas de vacina no ano que vem, não faz sentido lançar os filmes em streaming, já que os cinemas devem estar funcionando ativamente em breve. “Claramente, a Warner Media pretende sacrificar uma porção considerável de sua divisão de estúdio e filmes, parceiros de produção e cineastas, tudo para subsidiar o HBO Max. Quanto ao nosso trabalho na AMC, faremos de tudo ao nosso alcance para assegurar que a Warner não faça isso em detrimento a nós. Iremos procurar termos econômicos agressivos que possam preservar nossos negócios”, destacou o CEO no documento.

O diretor Christopher Nolan, um dos cineastas mais conceituados da Warner Bros. criticou o estúdio publicamente, chegando a dizer que o HBO Max seria “o pior serviço de streaming”.

Nolan declarou ainda: “Alguns dos maiores cineastas e estrelas de cinema de nossa indústria foram para a cama na noite anterior pensando que estavam trabalhando para o melhor estúdio de cinema e acordaram para descobrir que trabalhavam para o pior serviço de streaming”, disse o diretor em entrevista ao Entertainment Tonight, uma semana após o anúncio da Warner.

Em outra oportunidade o cineasta falou ao portal EW, que ficou “incrédulo” quando ouviu a notícia pela primeira vez, além de particularmente irritado com a forma que a notícia foi revelada: “Há muita controvérsia em torno disso, porque eles não contaram a ninguém”, explicou.

Já o diretor Denis Villeneuve, responsável pelo filme Duna, foi mais além e escreveu um enorme artigo para o site Variety. No texto o cineasta revelou que descobriu que seu épico de ficção científica iria para o HBO Max e aos cinemas simultaneamente, apenas quando a WarnerMedia fez o anúncio público.

“Não há absolutamente nenhum amor pelo cinema, nem pelo público aqui”, escreveu Villeneuve sobre a decisão. “Tudo gira em torno da sobrevivência de um mamute das telecomunicações, que atualmente tem uma dívida astronômica de mais de US$ 150 bilhões”, escreveu o diretor. 

Portanto, embora “Duna” seja sobre cinema e público, a AT&T trata de sua própria sobrevivência em Wall Street”, ele continuou. “Com o lançamento do HBO Max, um fracasso até agora, a AT&T decidiu sacrificar os lançamentos de 2021 da Warner Bros. inteiro em uma tentativa desesperada de chamar a atenção do público”, disse Villeneuve na publicação.

 

REFERÊNCIAS:   

FASANELLA, F. HBO Max e AT&T destruídas por grande diretor! GUERRA DOS STRAMINGS. 14 de dez de 2020. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=xlpEzJxfRjM> Acesso em: 17 de dez de 2020.

WarnerMedia não disse aos diretores que seus filmes iriam ao HBO Max por medo de vazamento de notícias. CATEGORIA NERD. 20 de dez de 2020. Disponível em: <https://categorianerd.com/warnermedia-nao-disse-aos-diretores-que-seus-filmes-iriam-ao-hbo-max-por-medo-de-vazamento-de-noticias/> Acesso em: 17 de dez de 2020.

VENTURA, F. HBO Max é "o pior serviço de streaming", diz Christopher Nolan. TERRA. 08 de dez 2020. 20 de dez de 2020. Disponível em: <https://www.terra.com.br/noticias/tecnologia/hbo-max-e-o-pior-servico-de-streaming-diz-christopher-nolan,8923b930f83e981d38506d40e6a4c387gdbysogp.html#:~:text=Christopher%20Nolan%2C%20diretor%20de%20Batman,HBO%20Max%20ao%20mesmo%20tempo&text=Christopher%20Nolan%2C%20diretor%20de%20Batman%3A%20O%20Cavaleiro%20das%20Trevas%2C,%22pior%20servi%C3%A7o%20de%20streaming%22.> Acesso em: 17 de dez de 2020.

FASANELLA, F. Hbo Max Começa Uma Nova Guerra | Amc Responde! GUERRA DOS STRAMINGS. 06 de dez de 2020. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=NvzT0ztpwjs.> Acesso em: 17 de dez de 2020.


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