28/06/2021 às 08h00min - Atualizada em 19/06/2021 às 13h53min

As HQs que refletem a sociedade: a representatividade LGBTQIA+ nos quadrinhos mainstream

A diversidade ganha cada vez mais espaço na indústria dos quadrinhos

Samantha Garcez - Editado por Ana Terra
Em junho é comemorado o Mês do Orgulho LGBTQIA+, uma conquista para a comunidade queer. É importante lembrar que a homossexualidade só foi retirada do catálogo internacional da OMS como transtorno mental em 1990, exatamente no dia 17 de maio. E, se hoje você acha que há preconceito, imagina na época em que não somente você era proibido de ser você mesmo, como poderia ser preso por isso? Até o fim dos anos 1960, relações entre pessoas do mesmo sexo eram consideradas ilegais e, por isso, bares e clubes eram um refúgio para as pessoas da comunidade.
 
No dia 28 de junho de 1969, policiais com uma abordagem agressiva entraram no bar Stonewall Inn, em Nova York, depois deste episódio, manifestações nos arredores da cidade ocorreram por cinco dias e envolveram milhares de pessoas. Após um ano da rebelião de Stonewall, milhares de pessoas da comunidade LGBT+ marcharam do local do bar até o Central Park. Essa marcha foi reconhecida como a primeira parada gay dos Estados Unidos.

Stonewall / Reprodução: Repórter Popular

Stonewall / Reprodução: Repórter Popular


Desde então, muitas vitórias foram conquistadas até os dias atuais, entre elas está uma maior representatividade na cultura geek. No universo dos quadrinhos, a falta de representatividade deve-se a criação do Código dos Quadrinhos em 1950, que estabelecia uma série de regras e restrições, com base nos estudos de psicólogos e psiquiatras, em especial o Dr. Fredric Wertham. Ele afirmava que as crianças poderiam se tornar vulneráveis, uma vez que eram expostas a histórias sobre crimes, assaltos e homossexualidade. Assim, o resultado foi a proibição desses temas na HQs. O fim do Código possibilitou o retorno da diversidade aos quadrinhos em geral. Então, no mês do orgulho LGBTQIA+, tenhamos orgulho de todas as pessoas que têm que lutar, diariamente, e há muito tempo, para ter seu direito de ser quem e de amar alguém respeitado.
 
Confira abaixo uma lista com 7 momentos de representatividade das HQs:
 
V de Vingança
Em V de Vingança, a clássica HQ de Alan Mooree David Lloyd, uma famosa atriz chamada Valerie Page, é detida justamente por ser lésbica. Em um dos momentos mais emocionantes do quadrinho, Valerie conta sua história por uma carta que narra desde sua infância, passando pelo sucesso no cinema até os terríveis acontecimentos que a levaram à prisão.

V de Vingança / Divulgação: Vertigo

V de Vingança / Divulgação: Vertigo


Mulher-Maravilha
A Mulher- Maravilha é nascida e criada em Themyscira, uma ilha paradisíaca habitada apenas por mulheres. Embora esse cenário crie alta probabilidade de que Diana tenha se relacionado com outra Amazonas, o assunto foi abordado de forma subliminar por anos. A primeira confirmação de sua bissexualidade aconteceu no quadrinho Mulher- Maravilha: Terra Um.

Mulher Maravilha / Reprodução: DC Comics

Mulher Maravilha / Reprodução: DC Comics


Estrela Polar
Desde sua concepção na década de 1960 por Stan Lee e Jack Kirby, os X-Men sempre foram uma metáfora para a forma como minorias são tratadas por uma sociedade contaminada por preconceito e medo do desconhecido. Apresentado como integrante da Tropa Alfa, uma equipe mutante canadense, o herói foi concebido como homossexual desde o início de acordo com seu cocriador John Byrne, mas devido à pressão do Código dos Quadrinhos só pode se assumir oficialmente na década de 1990, em uma história que debatia os tabus da AIDS. Em 2012, o personagem também protagonizou o primeiro casamento gay da Marvel Comics, uma celebração que reuniu grande parte do elenco mutante e a família de seu noivo humano Kyle Jinadu.

X-Men / Reprodução: Marvel Comics

X-Men / Reprodução: Marvel Comics


Batwoman
Em 2006, a DC Comics decidiu introduzir uma nova Batwoman ao seu universo. Filha de um ex-militar, a garota seguiu carreira no exército norte-americano até ser denunciada por ser lésbica. Por conta de uma política que proibia homossexuais declarados de assumir cargos militares (que existiu no mundo real até 2011), Kate Kane foi dispensada do serviço. De volta a Gotham, ela reage a um assalto e acaba tropeçando no Batman, o que a inspira a seguir uma carreira de vigilante, se aproveitando de todo o conhecimento de estratégia e combate adquiridos no exército e do vasto equipamento balístico de seu pai.

Batwoman / Reprodução: DC Comics

Batwoman / Reprodução: DC Comics


Wiccano e Hulkling
Desde sua criação, a dupla vive um romance que ficou subentendido até a sétima edição da revista, em que Billy e Ted discutem a possibilidade de se assumir para seus pais. Na história, o pai e a mãe escutam apenas a parte de se “revelar” e se intrometem na conversa, afirmando que sempre souberam sobre o romance dos rapazes e se mostram completamente a favor do amor entre os dois. Desde então, a dupla ganhou cada vez mais espaço nos quadrinhos da Marvel. O casal já protagonizou diversas cenas de beijo gay nas HQs, inclusive causando grande polêmica no Brasil, após o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, ter mandando remover todas as edições da história “Jovens Vingadores: A Cruzada das Crianças”, na Bienal do Livro de 2019.

Wiccano e Hulkling / Reprodução: DC Comics

Wiccano e Hulkling / Reprodução: DC Comics


Turma da Mônica
No Brasil, a Turma da Mônica é o quadrinho mais popular. Entretanto, ainda há resistência em incorporar a representatividade nos quadrinhos. Em uma história da Turma da Tina, fica subentendido que um personagem secundário teria um relacionamento com um outro homem. Maurício de Sousa se manifestou na época de lançamento da HQ, que teve bastante repercussão, e explicou que a interpretação ficaria a critério do leitor, e que seu público não estaria pronto ainda para um personagem abertamente homossexual.

Turma da Tina / Reprodução: Cada um no seu quadrinho

Turma da Tina / Reprodução: Cada um no seu quadrinho


Love is Love
A DC Comics e a IDW Publishing lançaram em dezembro de 2016 o quadrinho Love is Love (Amor é Amor) para honrar as vítimas do atentado na boate LGBT Pulse, em Orlando, na Flórida, ocorrido em 12 de junho de 2016. O americano Omar Mateen, de 29 anos, entrou armado com um fuzil e uma pistola no momento em que estava sendo realizada uma festa na boate, 50 pessoas foram mortas. A HQ busca igualdade e respeito, com obras de mais de 250 escritores e desenhistas aclamados. A coletânea traz histórias sobre as dificuldades que lésbicas, pessoas trans, bissexuais e gays enfrentam no seu cotidiano. Além de retratar a reação alguns personagens conhecidos do universo DC, sobre o acontecido na boate.
Que o futuro da representatividade LGBTQIA+ na cultura Geek agora seja o da naturalização. Que o público desenvolva a maturidade e a empatia necessária para assistir, ler e ouvir produções do contexto LGBTQIA+ da mesma forma que qualquer outra. Pois esse é o caminho de uma luta de tantas décadas, que proporciona tantos motivos para se ter ORGULHO.

REFERÊNCIAS:
8 momentos de representatividade LGBTQI+ nas HQs. Omelete, 2020. Disponível em: <8 momentos de representatividade LGBTQI+ nas HQs (omelete.com.br)>. Acesso em: 18 de junho de 2021.
A evolução da representatividade LGBTQIA+ na cultura pop. Roma News, 2020. Disponível em: <https://www.romanews.com.br/colunistas/post/a-evolucao-da-representatividade-lgbtqia-na-cultura-pop/1452/>. Acesso em: 18 de junho de 2021.
A origem do Comics Code Authority. Blog Educativo, 2019. Disponível em: <https://www.mis-sp.org.br/educativo/blog/800d99cc-460d-4e35-a8db-0fdae159c0f9/a-origem-do-comics-code-authority>. Acesso em: 18 de junho de 2021.
Conheça a HQ Love is Love lançada pela DC Comics após o ataque da boate pulse em Orlando. Lado A. Publicada em 05 de Setembro de 2017. Disponível em: <https://revistaladoa.com.br/2017/09/noticias/conheca-hq-love-love-lancada-pela-dc-comics-apos-ataque-boate-pulse-em-orlando/>. Acesso em: 18 de junho de 2021.

Conteúdo LGBTQI+ ainda enfrenta resistência na indústria de quadrinhos brasileira. AUN – Agência Universitária De Notícias, 2019. Disponível em:<http://aun.webhostusp.sti.usp.br/index.php/2019/11/26/conteudo-lgbtqi-ainda-enfrenta-resistencia-na-industria-de-quadrinhos-brasileira/>. Acesso em: 18 de junho de 2021.
Mês do Orgulho LGBTQIA+| O início da luta! Cosmo Nerd, 2020. Disponível em: <https://cosmonerd.com.br/outros/conheca-outros/mes-do-orgulho-lgbtqia-o-inicio-da-luta/>. Acesso em: 18 de junho de 2021.
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