24/07/2021 às 19h42min - Atualizada em 24/07/2021 às 20h04min

A objetificação e sexualização feminina como forma de entretenimento

Joérica Cunha - Editado por Fernanda Simplicio
Fonte/Reprodução: https://thehawkeyeinitiative.tumblr.com/
Quando se fala do papel da mulher na sociedade, reconhece-se as evoluções, como o direito ao voto, e a entrada no mercado de trabalho, mas ainda assim é perceptível que com mesmo os avanços que foram realizados no decorrer das décadas, inúmeros aspectos de desigualdades persistem, seja na disparidade salarial ou na forma em que as mulheres são vistas e em que medida são consideradas autônomas e donas de seus próprios corpos, ou seja, na maneira em que são objetificadas sexualmente.
 

Mas afinal, o que é a objetificação?

Podemos pensar a objetificação como a banalização da imagem da mulher, como o próprio termo nos faz entender: transformar em objeto, ou seja, a aparência das mulheres importa mais do que todos os outros aspectos que as definem enquanto indivíduos, transformando-a em um objeto de prazer e a obrigando a assumir papéis de submissão ao olhar masculino.

A cultura da objetificação feminina surge na história da sociedade, desde os primórdios da civilização, os homens sempre foram vistos como caçadores, provedores da família, e as mulheres como as cuidadoras do lar, dependentes de seus companheiros, tendo o dever de cuidar da casa e da família, e satisfazer o homem sexualmente, já que eram sustentadas por eles.

A fragilidade e a dependência sempre foram associadas ao feminino, e esse cenário deu origem ao que percebemos hoje como objetificação feminina.

A objetificação está presente nos mais diversos setores da sociedade, seja na retração em peças publicitárias, na televisão, nos cinemas, nas rede sociais, e nem mesmo as super-heroínas das histórias em quadrinhos conseguem fugir da sexualização de seus corpos.

As super-heroínas são constantemente associadas a corpos perfeitos, e são sempre retratadas em posições sensuais e erotizadas, devido ao fato de, tradicionalmente, esses conteúdos serem escritos por homens, e voltados para homens, mesmo aproximadamente 50% do público consumidor ser feminino.

O grande problema deste tipo de representação é que as mulheres perdem suas personalidades e se tornam apenas um narrativo visual, além de ofender o público feminino que passa a se sentir apenas como um objeto de consumo e desejo.

 
E como meio de apontar que as ilustrações das histórias em quadrinhos são utilizadas como forma de objetificação feminina e persistência do machismo, foi criada a Iniciativa Hawkeye, uma página no tumblr que ilustra o personagem da Marvel, Gavião Arqueiro, nas mesmas poses e trajes que as personagens femininas são colocadas nas HQ’s.
Um exemplo prático da sexualização feminina nas HQ’s como forma de entreter o público masculino é a personagem Estelar da DC Comics, que sempre foi retratada com corpo escultural e poucas vestes, e para justificar o fato de tanto exibição do corpo e das poses sensuais em momentos de combate, os criadores argumentaram que se trata da cultura da espécie que a heroína faz parte, onde os raios ultravioletas são absorvidos pela pele, fazendo com que seja costume utilizar roupas curtas e manter o máximo de pele exposta para que mais energia seja armazenada.



Felizmente, e em lentos passos, as histórias em quadrinhos estão se reinventando na representação feminina, influenciados pela (evidente) mudança que as adaptações para o cinema e televisão estão realizando.

A série Supergirl (interpretada por Melissa Benoist) da CW serve como bom exemplo de como unir (e representar!) a força de uma personagem e a sua feminilidade sem precisar exibir demais o seu corpo, diferentemente das HQ’s  onde ela sempre foi retratada com uniformes mais ousados que remete a exposição dos corpos femininos, mas na caracterização da série, foram mantidos os elementos principais, mas em um uniforme muito mais conservador, apropriado para o público infanto-juvenil que a acompanha e sem precisar passar aquela falsa impressão do corpo perfeito.



Outra personagem extremamente objetificada nas histórias em quadrinhos e que passou por uma repaginada ao ser adaptada para as telas é a Feiticeira Escarlate (interpretada por Elizabeth Olsen), que ao invés de usar aquela roupa mais conhecida da personagem que a colocava como objeto, optaram por um modelo inspirado no desenho animado X-Men Evolution (2000).



Infelizmente, o bom exemplo de representação nas adaptações não foi seguido por todos, e pode ser claramente perceptível na adaptação da personagem Arlequina (Margot Robbie) no filme Esquadrão Suicida (2016).



É certo que a personagem nunca foi das mais recatadas, mas não havia necessidade de expor tanto o seu corpo de forma que o seu short teve que ser alterado por computação gráfica de tão curto que era.

Inclusive existem cenas utilizadas como alívio cômico onde a personagem se troca na frente de diversas pessoas, e a câmera permanece filmando seu corpo, será que realmente era necessário? Se a cena era pra ser cômica, o foco da filmagem não deveria ser outro?

Apesar dos avanços, e das constantes campanhas, a objetificação do corpo feminino ainda é utilizado na narrativa como meio de entretenimento, a objetificação ainda faz parte do cotidiano da sociedade. Está nas revistas, nos filmes, na literatura, na publicidade, na mídia, na música e em tantos outros meios que continuam proliferando esse viés voltado ao corpo e a sexualização das mulheres, e reforçando o argumento machista de que as mulheres só são bem sucedidas se exporem seus corpos.  Além de levantar as problemáticas como a cultura do estupro, o padrão de beleza e a desqualificação da mulher. Pontos esses que desembocam nos abusos sexuais e na violência contra a mulher, e também impedem a tão sonhada equidade de gênero.
Não dá para ser igual, quando se é vista como objeto.
 
 
 
REFERÊNCIAS:
Como a cultura da objetificação feminina nasce? Li na Linus, 20 de abr. 2020. Disponível em < https://uselinus.com.br/blogs/li-na-linus/objetificacao-feminina >. Acesso em 22 de jul. 2021.

Objetificação feminina: o que é, como ela acontece e por que ela afeta nossa sociedade como um todo. Insecta, 13 de fev. 2017. Disponível em < https://insectashoes.com/blogs/blog/objetificacao-feminina-o-que-e-como-ela-acontece-e-por-que-ela-afeta-nossa-sociedade-como-um-todo > Acesso em 22 de jul. 2021.

Ciconeli, Marina. É necessário objetificar? Impulso HQ, 08 de set. 2016. Disponível em < https://impulsohq.com/quadrinhos/e-necessario-objetificar/ > Acesso em 23 de jul. 2021.

A Visibilidade feminina no Universo Geek. Conecta, 2019. Disponível em < https://conecta.usjt.br/visibilidadefemininauniversogeek/ > Acesso em 23 de jul. 2021.

Burnier, Vanessa. Análise | A hipersexualização e objetificação de personagens femininas. HQZona, 08 de nov. de 2018. Disponível em < https://www.hqzona.com.br/2019/11/08/analise-a-hipersexualizacao-e-objetificacao-de-personagens-femininas/ > Acesso em 23 de jul. 2021.

Sexualização feminina nas HQS. The Feminist Patronum, 24 de abr. 2019. Disponível em < https://www.thefeministpatronum.com/post/sexualiza%C3%A7%C3%A3o-feminina-nas-hqs > Acesso em 23 de jul. 2021.
 
 

 


 
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