30/06/2019 às 03h52min - Atualizada em 30/06/2019 às 03h52min

Resenha | Gilead existe?

Os acontecimentos reais que inspiraram "The Handmaid's Tale"

Josué Ernandes - Editado por Caroline Gonçalves
(Foto: Divulgação / Hulu)
(Atenção) - Aviso de Gatilho: Esta resenha pode conter conteúdo sensível!
 
A Série "The Handmaid's Tale" é baseada na obra - de mesmo título - da autora Margaret Atwood. A obra distópica aborda a história de “Gilead”, uma sociedade totalitária e fundamentalista cristã que usa trechos - muitas vezes alterados - da bíblia, como instrumento de lei a ser seguida. Na obra e no show, um grupo da extrema direita batizado de direita "Filhos de Jacob", dominaram boa parte dos Estados Unidos após um desastre ambiental tornar a maioria das mulheres estéreis. Com a dominação teocrática, a República de “Gilead” começou a seqüestrar mulheres - principalmente as mulheres ainda férteis - para servir a sociedade, e as colocando em classes sociais de acordo com as necessidades do novo regime. De maneira assustadora, "The Handmaid's Tale" têm alguns fatos históricos: reais, sociais e políticos que aconteceram em um certo período de tempo, de acordo com a própria autora Margaret Atwood em entrevista ao "The New York Times".

Conservadorismo

Em 1980 nos Estados Unidos, houve um aumento em massa da direita cristã fundamentalista e seu conservadorismo, juntamente com a entrada de Ronald Reagen como presidente da América. Assim como na vida real, o livro e a série abordam como esse regime centrado exclusivamente no foco na família, ganhou força e adeptos. Vale ressaltar que, o constante ataque aos direitos das mulheres em 1980 também serviu de inspiração para a autora. O presidente, Ronald Reagan, atacou clínicas de abortos e anunciou que o governo americano só financiaria grupos que promovessem o planejamento familiar "natural".

 
 

(Foto: Divulgação / Hulu)
 
Ademais, o aumento do "televangelismo" - uso da TV para a evangelização - era o principal meio para difundir tais crenças fundamentalistas. Margaret pega esse gancho e introduz a personagem "Serena Joy”, que na série e no livro - era uma televangelista que apoiava políticas teocráticas e fazia discursos como: "Mulheres devem ter uma vida dedicada inteiramente ao lar". Durante um discurso em uma universidade, Serena é baleada pelos opositores e fica infértil. Com a tomada de poder da República de "Gilead", Serena perde seu lugar de fala e passa a seguir a vida que antes pregava, mesmo agora não estando 100% convicta de que aquilo era a melhor escolha.
 

(Foto: Divulgação / Hulu)

As Aias como barriga de aluguel

 
Na obra, mulheres novas e férteis são seqüestradas e feitas de "aias". As aias são treinadas para conceber os filhos dos comandantes (homens com alto poder na República de Gilead) já que algumas mulheres da classe dominante ficaram inférteis devido à ingestão de toxinas do meio ambiente. A obra de Margaret fala sobre o sexismo evidenciado em "Gênesis”, principalmente na função da aia em conceber e dar o filho à outra família. Tal ação é referência direta a "Bila”, personagem da Bíblia que é serva de "Raquel”. Bila é submetida a deitar-se com Jacó para conceber um filho à Raquel. A passagem mostra a seguinte situação no livro de Gênesis 30. 1-3: “Vendo Raquel que não dava filhos a Jacó, teve inveja de sua irmã, e disse a Jacó: Dá-me filhos, se não morro. E ela disse: Eis aqui minha serva Bila; coabita com ela, para que dê à luz sobre meus joelhos, e eu assim receba filhos por ela”. As aias são submetidas à rituais sexuais chamados de "cerimônia" - junto com a esposa do comandante. Antes do sexo (essa prática, mesmo configurada como estupro, é legalizada por Gilead), o comandante lê a passagem de Raquel e Jacó da Bíblia - uma tentativa doentia de justificar o ato que vem a seguir.


(Foto: Divulgação / Hulu)

Em "The Handmaid's Tale" , quando as aias dão a luz, elas não podem ficar com as crianças após o nascimento. Os bebês pertecem a família dominante em que a aia estava durante toda a gestação. Como os bebês eram uma raridade, principalmente pela taxa de infertilidade das mulheres, nada de perigoso poderia acontecer com a aia que carregava a criança em seu ventre. O policiamento em volta das aias grávidas foi inspirada em uma tentativa doentia de Nicolai Ceausescu de aumentar as taxas de natalidade na Romênia, levando os militares a policiar as mulheres grávidas e proibirem o aborto e os anticoncepcionais.


(Foto: Divulgação / Hulu)

Ademais, Margaret usou um fato acontecido na Argentina para usar de pano de fundo e discutir a "idéia das aias darem seus filhos". Em 1976, quando uma junta militar na Argentina assumiu o poder, cerca de 500 crianças recém-nascidas, de classe mais baixas, desapareceram. Na verdade, essas crianças foram adotadas por casais militares e líderes do governo.


(Foto: Divulgação / Hulu)

As Roupas

Os trajes em "The Handmaid's Tale" são inspirados nas roupas puritanas na época colonial das colônias da Nova Inglaterra. As roupas são minimalistas, em que cada pessoa de uma classe social é determinada por uma cor. Essas cores mais mórbidas em um cenário cinza, como na série, visam negar o exibicionismo "mundano" e o pecado. As aias usam trajes vermelhos simbolizando o sangue e o parto, uma alusão à sua função como reprodutora na República de Gilead. As esposas usam o azul da pureza, representando a virgem Maria. Os comandantes usam o clássico terno, símbolo de poder do homem da classe dominante e da sociedade patriarcal. As tias usam roupas de cor marrom e extremamente austeras, dando um ar pesado e de severidade, uma clara representação de sua função na sociedade. "Muitos regimes totalitários usaram vestimenta, tanto proibida quando obrigatória, para identificar e controlar pessoas”, diz Atwood.



(Foto: Divulgação / Hulu)

"The Handmaid's Tale" está em sua 3° temporada, sendo exibida semanalmente pelo serviço de streaming da "Hulu" nos Estados Unidos. A série também é exibida pelo "Globoplay” da TV Globo.
 
REFERÊNCIAS:

BRANCH, Kate. In The Handmaid’s Tale, Beauty Magazines Are a Feminist Tool. Disponível em < https://www.vogue.com/article/handmaids-tale-hulu -beauty-fashion-feminism-elizabeth-moss-beautify -magazine?verso=true > Acesso em: 28 Junho 2019.

FOGAÇO, Vanessa. Análise de Handmaid’s Tale e seu figurino como elemento político. Disponível em < https://medium.com/trend-in/an%C3%A1lise-de -handmaids-tale-e-seu-figurino-como-elemento-pol %C3%ADtico-3c4dfb5502a6 > Acesso em: 28 Junho 2019.

ARMSTRONG, Jennifer Keishin. Por que a série The Handmaid’s Tale é relevante para os dias de hoje (Traduzido por: BBC Brasil). Disponível em < https:// www.bbc.com/portuguese/amp/vert-cul-44294676 > Acesso em: 28 Junho 2019.

O GLOBO. 'The Handmaid’s Tale': Os acontecimentos reais que inspiraram Margaret Atwood. Disponível em < https://oglobo.globo.com/cultura/the-handmaids -tale-os-acontecimentos-reais-que-inspiraram -margaret-atwood-23446498?versao=amp > Acesso em: 28 Junho 2019. em: 28 Junho 2019.

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