05/04/2022 às 20h12min - Atualizada em 03/04/2022 às 21h00min

“Yippee-Ki-Yay, Mother F*cker!”

Gibi nacional é puro suco dos anos 1980

Paulo Firmo - Editado por João Martinez sob supervisão de Fernanda Simplício
Fonte/Reprodução: Emmanuel Merlotti
Lázaros Hunter – O Silêncio dos Inocentes, do quadrinista Emmanuel Merlotti, foi publicado no início do ano através de financiamento coletivo e agradou em cheio aos aficionados por histórias de ação que vão direto ao ponto.
 
Perspectivas
 
O fortalecimento do mercado nacional de quadrinhos ao longo dos últimos anos, proporcionou um notório aumento no volume, na diversidade e de qualidade das publicações. Em tal contexto, em decorrência de múltiplas causas, HQs (Histórias em Quadrinhos) com a temática de ação e aventura, que bebem em outros produtos culturais da famigerada década de 1980, passaram a pipocar por aí. Lázaros Hunter – O Silêncio dos Inocentes, do cartunista e quadrinista Emmanuel Merlotti, é um exemplo recente. Um dos (muito) bons.
 
Com um roteiro que faz jus ao espírito da referida época, desenhos detalhados e com intenso movimento, personagens caricatos (heróis fortões, moças sensualizadas, crianças geniais e vilões monstruosos) e inúmeras referências ao cinema, TV e  gibis, a obra mais recente desse quadrinista mato-grossense chega para enriquecer o cenário de quadrinhos nacional e promover uma nostalgia boa – transportando-nos para longe do furacão de informação e demandas instantâneas, próprias da era digital em que vivemos atualmente.
 
A HQ tem o formato 19 cm X 27,9 cm, 80 páginas, miolo em P&B (preto e branco), papel offset, capa cartão e lombada quadrada. O prefácio é do jornalista, criador e editor da editora brasileira Hyperion Comics Levi Trindade – ex-editor da Mythos e Panini Brasil.
 
Emmanuel Merlotti de Oliveira ou apenas Emmanuel Merlotti está no mercado das artes há cerca de duas décadas. Editor e quadrinista da Redação Comics (sua própria empresa) e filho de um artista plástico o qual figura-lhe com uma significativa referência, o mato-grossense de 43 anos é um típico exemplo da “geração anos 80”.
 
Desenhos animados de fantasia e aventura como He-Man e os Defensores do Universo (título brasileiro cuja primeira transmissão no Brasil se deu em 1984 no programa infantil Balão Mágico da Rede Globo), Thundercats (exibido dentre 1986 e 1990 no Xou da Xuxa da Rede Globo), Caverna do Dragão (primeira transmissão no Brasil também em 1984 no programa infantil Balão Mágico da Rede Globo) e filmes de ação como Duro de Matar (Die Hard, 1988), Stallone Cobra (Cobra, 1986), Máquina Mortífera (Lethal Weapon, 1987) e muitos sucessos estrelados pelo ator estadunidense Kurt Russel – Dentre muitos, Os Aventureiros do Bairro Proibido (Big Trouble in Little China), de 1986, é um dos que mais se destaca – moldaram grande parte das suas predileções e objetivos de trabalho.
 
O primeiro contato que tive com o trabalho do Emmanuel (Merlotti), foi enquanto pesquisava sobre novos quadrinhos no Catarse – a plataforma de financiamento coletivo de projetos das mais variadas áreas, o espaço no qual de uma extensa campanha, nasceu a edição impressa Lázaros Hunter O Silêncio dos Inocentes.
 
Na entrevista abaixo, Merlotti conta um pouco da sua trajetória artística, da concepção e história do personagem Lázaros Hunter, sobre a campanha de financiamento coletivo da HQ recém-lançada e, com muita sinceridade, de quem ele é, como enxerga o mercado de quadrinhos e suas perspectivas. Confira.
 
Entrevista
 
 
Paulo Firmo: Lázaros Hunter Nº 1 - O Sacrifício é de 2016. Após ter esgotado, está disponível gratuitamente em formato digital. Neste ano, é quando e onde surge o personagem ou a ideia é anterior? Como se deu esse processo criativo?
 
Emmanuel Merlotti: Na verdade o Lázaros é umas dessas criações da infância, acho que na mais especificamente na adolescência. Encantado com a nova proposta da Image Comics (editora de história em quadrinhos norte-americana fundada em 1992 por ilustradores e roteiristas que deixaram a Marvel Comics), eu criei o Lázaros. Porém, usei mais o visual e o conceito do brucutu (indivíduo feio, malfeito, grande, grosseiro, não civilizado) armado até os dentes no estilo “massa veio” (expressão que indica um produto cultural conter um estilo de ação/conflito simples e diretos, tal qual ocorria frequentemente nos anos 80) da época. Só que ele ficou numa gaveta. Quando tinha uns 27 anos, eu resolvi que faria minha própria história em quadrinhos. E aí que lembrei do Lázaros em meio a dezenas de outros personagens que eu já tinha criado. O único problema e que eu só poderia escolher um personagem, então eu meio que peguei por sorteio (risos). Desde então, eu venho dedicando tudo ao Lázaros!
 


 
PF: Cronologicamente, o enredo da nova HQ é posterior à edição que foi lançada recentemente através do Catarse. E lá, na minha percepção, nos deparamos com um Lázaro mais pavio curto, menos “filosófico e reflexivo”. Faz sentido para você? E se fizer, você enxerga uma mudança, uma espécie de “amadurecimento” do personagem?
 
EM: Acho que o amadurecimento se deu ao autor e consequentemente no personagem! Lázaros nunca foi um brucutu clichê armado até os dentes que só sabe metralhar todo mundo. O personagem ainda vai surpreender muita gente que gosta de rotular as coisas. Eu venho percebendo certos comentários por quem já leu, como uma certa ironia de que aquilo é só uma leitura divertida, mas como você mesmo percebeu, o personagem também tem um lado reflexivo e isso raramente se vê em um personagem com rótulos! Lázaros é um personagem muito novo e seu caminho é longo. Ele não entregou nada dele ainda. Digamos que isso seja a pontinha do iceberg!
 
PF: Algumas atitudes do Hunter podem ser encaradas nos dias de hoje como machistas. Sabemos que ele encarna o espírito de uma época. No entanto, como você encara esse “jeitão” dele, diante da possibilidade de representar um “homem do passado”? Você acha que as pessoas entendem a brincadeira?
 


 
EM: Bom se você está se baseando pela primeira HQ, talvez ali tenha comentários dele que hoje possam soar machistas! Mas o pior machista é aquele que tem atitudes machistas! Ele ser julgado por seus comentários é meio precipitado! Mas se você reparar, você não encontra ele falando palavrão em nenhum momento dessa nova HQ. Eu não gosto muito de palavreados chulos. Eu acho que com criatividade ele pode xingar de maneira muito mais engraçada! Mas, para resumir, o Lázaros é antifascista e sem nenhum tipo de preconceito!  
 
PF: Qual o retorno que chega a você sobre as duas revistas até então publicadas do Lázaros? E ainda, gostaria de saber também como as mulheres em geral o veem.
 
EM: Quando eu lancei sua primeira HQ no FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos, realizado em Belo Horizonte a cada dois anos), eu reparei que as mulheres não se interessavam muito pelo personagem. Acho que justamente por terem esse pré-julgamento que já tira conclusão antes de conhecer. Porém, ao conhecer o personagem mais a fundo, as mulheres se interessem por ele! Eu fique surpreso com a quantidade de mulheres que apoiaram no Catarse. É claro que a maioria foram homens, mas olha que interessante: Eu tenho uma leitora, que acompanha meu personagem desde a primeira edição, e ela é uma pessoa politicamente muito esclarecida e com senso crítico muito apurado! Acho que se ela achasse o personagem machista não teria comprado o segundo volume (risos).
 
PF: Há diversas referências à franquia de filmes Duro de Matar (Die Hard), estrelada pelo Bruce Willis. Poderíamos dizer que esta é a maior influência na conceituação de Lázaros Hunter?
 
EM: Por incrível que pareça, não! Eu vivi essa época dos filmes de ação dos anos 80 intensamente... naquela época eles eram nossa maior referência de super-heróis, ainda que eu lesse muito quadrinhos! Eu gosto de todos os clássicos dessa época. Bom, na verdade nem todos. A exceção é o Stallone Cobra. Aquele filme e detestável, mesmo eu sendo um adolescente não consegui aprovar aquele personagem que o Stallone interpretou, acho que nem ele se orgulha desse! O personagem mais marcante pra mim foi o Riggs de Máquina Mortífera. Mas, visualmente, e os traços de humor da personalidade de Lázaros, foram todos inspirada em Kurt Russel!
 

 
PF: Voltando às HQs do personagem, em fevereiro de 2019 na Saraiva, houve o lançamento do segundo volume de Lázaros Hunter. Que edição é esta? É a edição especial com compilado de capas alternativas e sketches (ou esboço de uma obra)?
 
EM: Exato! Eu na verdade nem comento muito sobre essa edição, porque é mais uma HQ no formatinho clássico, com capas variantes e alguns sketches do personagem. A capa fico muito bonita! E um detalhe muito interessante, é que na contracapa tem uma cena do que viria a ser a Graphic Novel (HQ de fôlego em formato de livro) Lázaros Hunter – O Silêncio dos Inocentes, que lancei agora! Parece que tudo de forma orgânica estava me levando para essa história! As tramas e as histórias do personagem aconteceram de forma muito natural. É como se o Lázaros estivesse contando suas aventuras para eu transformar tudo em quadrinhos!
 
PF: Aproveitando a pergunta anterior, a ideia de fazer as “capas-homenagem” a filmes e quadrinhos dos anos 80 surgiu como? E qual foi a receptividade do público?
 
EM: Puro marketing! (risos) Na verdade, no meio da campanha eu me dei conta de que eu não estava vendendo a essência do personagem direito! Lázaros, além de ser um detetive brucutu, também era de uma geração inesquecível de todo amante de Cultura Geek (Cultura Nerd/Cultura Pop) dos anos 80. Por isso que ao ler a HQ, você sempre vai encontrar alguma referência; não só aos filmes de ação, mas também de filmes inesquecíveis. Eu consumi os anos 80 na veia. Nasci em 1979, e fui influenciado a desenhar por causa de He-Man, Thundercats, e todos os filmes que ao longo da minha vida fui descobrindo! Acho que pra resumir, eu sou o resultado de tudo que eu vivi nos anos 80, e sempre vou trazer essas referências para minhas criações! E quanto à receptividade do público, foi boa porque rolou uma identificação. É essa conexão que cativa o público hoje em dia! 
 
 
PF: Em meados de 2020, em plena pandemia do novo coronavírus, você anunciou Lázaros Hunter - O Silêncio dos Inocentes, com previsão de lançamento para maio do mesmo ano. A campanha acabou sendo bastante longa até o lançamento em 2022. Isso foi planejado, uma estratégia, ou foi acontecendo? Fala um pouco desses meses (nove, correto?) de financiamento coletivo na plataforma Catarse e o que você sentiu e pensou sobre o projeto nesse contexto.
 
EM: Bom, na verdade isso se deu por conta da minha total inexperiência no assunto. Eu não tinha nem ideia de como se fazia um Catarse. Tive um ajuda ali e outra aqui, mas assim de forma bem vaga. Eu é que tive que me virar! Nesses nove meses de campanha eu aprendi mais errando do que acertando. Acho até que as coisas que acertei foram por sorte mesmo (risos). Mas o mais engraçado disso tudo, é que nesse longo caminho, eu conheci muitas pessoas relevantes do meio, e algumas me ajudaram muito – outras nunca retornaram. A verdade é que o mercado independente ficou bem competitivo. Muita gente, mas muita gente mesmo, faz Catarse hoje em dia. E quando se trata de Catarse, automaticamente se trata de nichos, e de grupinhos fechados que só apoiam os indicados por outros camaradas! Na verdade, a visão do leitor nacional ainda é muito manipulada pela maioria. Dificilmente o leitor usa seus próprios critérios para escolher o que comprar! Tanto que a maioria de apoiadores da minha campanha são colegas de traço; artistas como eu. Eu não sei te precisar se foram a maioria, mas acredito que uns 35% foram de apoio de artistas! O que me deixou extremamente lisonjeado! Quanto à pandemia, com certeza atrapalhou. No aspecto financeiro e, claro, as pessoas tinham que priorizar outras coisas mais importantes! E tudo ficou mais caro, e consequentemente tudo aumenta, como o papel por exemplo. E isso deixou ainda mais complicado. Eu não consegui juntar o necessário para cobrir todas as despesas, consegui uma quantia boa, mas tive que injetar muito do meu próprio bolso. Mas eu sei que como qualquer empreendedor que começa, os lucros e os louros nós colhemos lá na frente! Sem contar que somos sonhadores e românticos. A nossa intenção nunca foi ganhar grana. Nós só queremos fazer nossa HQ chegar nas mãos de outros sonhadores e românticos como nós também!
 
PF: Na página da HQ no Catarse, você informa que a cronologia do personagem está sendo zerada com a nova edição. Se puder compartilhar, quais os próximos planos para o Detetive Hunter?
 
EM: Na verdade se for parar para pensar, Lázaros não tem muito que zerar. O personagem teve sua primeira aparição em 2015: 300 copias, 16 páginas, formato americano! A história serviu mais como um teaser (prévia) para apresentar Lázaros ao grande público, e até que se saiu bem. Foi indicado em três categorias no HQ mix (O “Oscar nacional dos quadrinhos”) 2016! Nessa nova HQ, ainda que seja uma história fechada você passa a conhecer ainda mais o personagem e saber do que se trata! O plano é trazer logo na sequência, um anúncio de uma trilogia ainda esse ano. Mas com previsão de começar uma segunda campanha no Catarse em 2023! Eu até estava com a ideia de fazer alguma coisa esse ano, porém acredito que seja muito cedo para pensar em sequência justo agora que lancei a nova edição! Quando uma banda de rock lança um novo álbum, eles fazem um ano de turnê ou mais pelo mundo! A ideia é mais ou menos essa: concentrar as fichas na divulgação e promoção dessa nova edição durante todo esse ano, participando de eventos pelo Brasil à fora. E divulgação nas vendas pela internet! E nesse meio tempo, é claro, produzir a continuação com calma no estúdio. A minha ideia é produzir um outro material sem nenhuma relação com Lázaros. Histórias curtas e capas, com temática de terror. Capas para oferecer ao mercado independente de quadrinhos. Nesse momento estou trabalhando numa história de terror de 12 páginas para uma revista interessada!
 
 
Nota: A expressão que compõe o título dessa reportagem, é uma referência ao filme Duro de Matar (Die Hard, 1988), estrelado por Bruce Willis. Na trama, o icônico personagem John McClane, usa a expressão “Yippee-Ki-Yay, Mother F*cker!” para tirar um sarro com os vilões. Tal expressão de sarcasmo, de acordo com o Oxford English Dictionary, origina-se no século XV, onde significava “chiar, como um pássaro jovem”. Ou “emitir um latido agudo”. No sentido figurado, passou a significar “gritar; reclamar." A expressão aparece sendo dita por Lázaros Hunter na página 26 da HQ Lázaros Hunter – O Silêncio dos Inocentes.
 
Referências
 
MARAFON, Renato. Clássicos dos Anos 80 que RETORNAM à Cultura POP em Breve. Cine Pop. Notícias. 4 dez. 2021. Disponível em: https://cinepop.com.br/classicos-dos-anos-80-que-retornam-a-cultura-pop-em-breve-323707/. Acesso em: 02 abr. 2022.
 
MELL. Who said Yippee-ki-yay Mother F?. Sluiceartfair.com. Blog. 24 abr. 2020. Disponível em: https://www.sluiceartfair.com/2020/students-help-blog/who-said-yippee-ki-yay-mother-f/. Acesso em: 03 abr. 2022.
 
MERLOTTI, Emmanuel. Prólogo. Lázaros Hunter. História. [s.d]. Disponível em: https://lazaroshunter.com.br/historia/. Acesso em: 19 fev. 2022.
 
Saudações amigos e amigas apoiadores! Instagram. 13 jan. 2022. Disponível em: https://www.instagram.com/p/CYrimsRBDbl/. Acesso em: 20 jan. 2022.
 
PRATA, Dori. Filmes dos anos 80 que marcaram a década. Meio Bit. Entretenimento. [s.d]. Disponível em: https://tecnoblog.net/meiobit/415999/filmes-dos-anos-80-que-marcaram-a-decada/. Acesso em: 02 abr. 2022.
 
TAVARES, Tiago. Porque gostamos tanto dos anos 80? Observador. Especiais. 9 mai. 2015. Disponível em: https://observador.pt/especiais/por-que-gostamos-tanto-dos-anos-80/. Acesso em: 02 abr. 2022.

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