17/05/2022 às 18h13min - Atualizada em 19/04/2022 às 13h49min

Com três prêmios e nove indicações ao Grammy, a pianista brasileira Eliane Elias é um símbolo da resistência musical no país

Eliane Elias, Chick Corea e Chuco Valdés cativam o público com magistralidade, dignos do prêmio de ‘Melhor Álbum de Jazz Latino’ no 64º Grammy Awards em 2022

Lucas Lissa - editado por David Cardoso
Eliane Elias. (Foto: Divulgação/ SF Jazz).

Pianistas costumam ser pessoas de poucas palavras. Seus sentimentos são expostos em toques delicados nas teclas do piano, mecanismos que muitas vezes são estruturas anti-medo. Barreiras são quebradas quando, em um país como Brasil com pouco incentivo à cultura, um artista é indicado ao Grammy. E quando o artista ganha, as lágrimas vão além do sentimentalismo das notas e harmonias, torna-se um ato político da música. A pianista brasileira Eliane Elias mostra-se este símbolo, ao receber seu terceiro Grammy Awards.

O álbum Mirror, Mirror em sete faixas marca o encontro de três gerações diferentes de pianistas e compositores de Jazz. Lançado em setembro de 2021, Eliane Elias, Chick Corea e Chuco Valdés cativam o público com magistralidade, dignos do prêmio de ‘Melhor Álbum de Jazz Latino’ no 64º Grammy Awards em 2022. A obra tornou-se uma honra e tributo ao ser lançado sete meses após o falecimento do estadunidense Chick Corea (1941-2021) - considerado um dos maiores pianistas da história do Jazz, revolucionário ao apresentar tons elétricos e grandes colaborações musicais - o álbum vai além das boas notas sinfônicas e belos arranjos.


Eliane Elias durante apresentação no International Jazz Day, em 2015.

Eliane Elias durante apresentação no International Jazz Day, em 2015.

(Foto:Divulgação/ Kristy Sparow).


Quem assistiu ao filme “A Última Nota” (2020), dirigido por Cláudio Lalonde, e estrelado por Patrick Stewart, que no papel do pianista Henry Cole tenta lidar com seus sentimentos de luto pela perda da esposa e crises causadas pelos sentimentos de culpa ao retornar aos palcos, entende que acabar com a dor e autossabotagem, significa focar naquilo que lhe dá mais prazer na vida. Eliane Elias apresenta esse retorno ao divulgar um álbum consolidado, com vários sentimentos, e condecoração ao querido amigo. Eliane, assim como Cole, se permite visitar o mais profundo íntimo da obra, ao enfrentar esses medos, e ser reconhecida mundialmente. 

O Grammy Latino de ‘Melhor Álbum Jazz Latino’ é o terceiro de Eliane Elias. Até então, a pianista já havia recebido um de ‘Melhor Solo Jazz Instrumental’ em 1996, pelo dueto com Herbie Hancock, e ‘Melhor Álbum Jazz Latino’ em 2016, com o Made In Brazil, indicado também na categoria técnica de melhor engenharia de gravação. Ao todo, foram nove indicações, incluindo em 2012, a composição What About the Heart, na categoria de ‘Melhor Música Brasileira’.




Se a vida de Eliane Elias fosse retratada em um filme, claro que teria semelhanças ao “A Última Nota”, mas com certeza se igualaria ao premiado e aclamado “A Star Is Born” (2018). Não pela narrativa fictícia - que mostra Lady Gaga no papel de Ally, que ao encantar Jackson Maine, interpretado por Bradley Cooper, um cantor famoso e que a ajuda em sua ascensão, apresenta ao público o mérito do seu talento - mas pela similaridade na superação de obstáculos impostos pela história de vida. Enquanto a personagem Ally, com seus limites impostos pela insegurança e que ganha a vida trabalhando em um restaurante, Eliane tem como empasse no incentivo cultural histórico da realidade de um país. Mesmo vinda de uma família de classe média, onde sua mãe era pianista clássica e que teve a oportunidade de se apresentar aos 17 anos, só conseguiu sua ascensão após se mudar para Nova Iorque, ser incentivada pelo trompetista americano e ex-marido Randy Brecker e lutar durante quase 30 anos pela estrutura de uma carreira. 

Incentivos à cultura no Brasil é escasso e ter nomes como o de Eliane Elias em prêmios consagrados da música é ter esperança. A falta de investimentos se afunila quando categorizamos a instrumentos de cordas percussivas. Apesar do crescimento de 58% do setor cultura - ano de 2009 (R$ 6,2 bilhões) a 2020 (R$9,8 bilhões) - os repasses financeiros ao setor são apenas 12,9% e os Estados recebem 36,8% da participação nesses incentivos. “Mirrors, Mirrors” similares ao da paulistana vencedora do Grammy poderiam surgir de iniciativas, caso fossem intensificas. O tradicional Festival de Cinema do Vale do Ivinhema, no Mato Grosso do Sul, tem apresentado respiro para a categoria ao promover neste ano o I Encontro de Piano e Música de Câmara, em Campo Grande, possível após aprovação de recursos do Fundo de Investimentos Culturais (FIC), da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul (FCMS), mesmo que após 16 edições do evento.

Se estabelecer como símbolo da resistência musical no Brasil, especificamente no ramo clássico, não é para qualquer um. É necessário atenção e paciência, assim como o merecimento que o álbum “Mirror Mirror” exige ao ser escutado. Calma e empatia também são necessárias para a percepção das melodias apresentadas e a delicadeza do som do piano.  E a esperança que o talento de Eliane Elias, Chick Corea e Chuco Valdés apresentam, são dignos do reconhecimento por músicas que transcendem a alma.


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