30/10/2019 às 22h17min - Atualizada em 30/10/2019 às 22h17min

Onde estão as jogadoras de e-Sports?

Cada vez mais os jogos eletrônicos ganham espaço dentro cenário esportivo com a popularização de competições. Mas, os cenários, em tese, mistos têm somente homens como jogadores principais, como é o caso do Counter-Strike: Global Offensive

Carolina Rodrigues - Editado por Bárbara Miranda
FONTE : The Clutch
Por mais que tenham mais de dez décadas de existência, no Brasil os campeonatos de e-Sports vem ganhando notoriedade a cerca de dois anos para cá. Desde então, diversos times foram formados ao redor do país, atletas ganharam destaque mundial conforme o cenário se desenvolve. Epitácio "TACO", Gabriel "FalleN", "Marcelo" coldzera e Ricardo "boltz" são conhecidos mundialmente e ainda ocupam o top 4 no ranking de melhores jogadores de e-Sports, segundo o site e-Sports Flag. Mas, onde estão as mulheres do cenário?

O torneio “Space Invaders Championship”, realizado em 1980 pela Atari, data o primeiro campeonato de e-Sports no mundo. Mais de 10 mil jogadores participaram, mas o prêmio, um Atari, foi parar nas mãos da campeã Rebecca Heineman.

De lá para cá, o desenvolvimento da indústria dos videogames, impulsionada durante a guerra entre Nintendo e Sega, fez com que as empresas passassem a atender um público específico. O porta-voz da Nintendo, lá na década de 1990, anunciou: “Os meninos são o mercado”.

Hoje, o Brasil tem quase 76 milhões de jogadores, que gastaram só em 2018, mais de U$1 bilhão, de acordo com o levantamento da empresa Newzoo.

Pasme, mesmo com tanto dinheiro injetado neste mercado, o Brasil ocupa apenas a décima terceira posição entre os maiores mercados de jogos do mundo. Contudo, em relação ao cenário de e-Sports o Brasil ocupa a terceira posição, atrás dos mercados chinês e norte-americano.

Ainda citando dados da Newzoo, ao redor do mundo estão espalhados 165 milhões de entusiastas de e-Sports somados a 215 milhões de espectadores ocasionais. Entre 2016 e 2020 a audiência terá um aumento de 14,4%, com investimentos rotacionando a casa dos U$1,4 bilhões.

Os e-Sports tornam-se cada vez mais populares no Brasil. O e-Sports Flag disponibilizou um ranking com os melhores jogadores brasileiros. Dos 327 nomes, contudo, não há nenhuma mulher. Baseado nas informações retiradas da Liquipedia, dentro do cenário de Counter-Strike: Global Offensive, o jogo mais popular do país, existem 91 pro players de CS no Brasil que arrecadam mais de U$3,5 milhões. Mas nenhum dos nomes é feminino.

Isabelle Christine Leal, conhecida como “isaB”, é veterana no cenário de CS:GO. A jogadora profissional manda bala no game há 18 anos. Por falta de espaço nos campeonatos, ela conta que o cenário feminino foi criado por iniciativa das próprias jogadoras.

O CS sempre teve apenas um cenário principal misto, ou seja, mulheres também tiveram a oportunidade de jogar ao lado de nomes masculinos. O problema é que mesmo assim, nenhum time misto tem sequer uma jogadora.

IsaB conta que recentemente foi cotada para jogar num time misto que tinha apenas homens como pro players. Eram quatro jogadores avaliando sua jogatina. Ela não conseguiu ingressar no time. “Eu fiz o teste, os quatro falaram ‘você joga bem, gostamos de você, mas dois deles votaram para eu ficar e os outros dois não quiseram, porque não queriam ter uma mulher no time. Fiquei sabendo disso, porque um dos caras me contou”, declara.

“Isso é muito comum”, a jogadora acrescenta. A falta de oportunidade para ingressar num time do cenário principal misto fez com que ela, junto a outras jogadoras, criasse um cenário principal feminino. A partir de então o cenário principal foi dividido entre campeonatos femininos e masculinos.
 

Outro motivo para a criação do cenário feminino é o assédio enfrentado por mulheres. Recentemente a organização Sakura e-Sports realizou uma pesquisa sobre mulheres nos e-Sports.

Para 84,4% dos respondentes, a pouca oportunidade participação feminina em times mistos é derivada do machismo e 56,2% acreditam que a criação de cenários femininos diminuiria esse problema na comunidade.

Mesmo sendo jogadora profissional, isaB já enfrentou situações machistas diversas vezes. “Às vezes eu jogando e o cara do outro time vem falar alguma coisa ‘ah, você é mulher, fica quieta’; ou quando morre manda ‘nossa, morri pra uma mulher’”, sem contar cantadas e xingamentos de baixo calão.

“Para evitar assédio, xingamentos a gente acabou montando o cenário feminino durante a versão antiga do CS”, conta. Desde então as coisas estão mudando.

Plataformas online também auxiliam na divulgação de campeonatos femininos e oferecem prêmios significativos, além de projetos de incentivo a competitividade. “Hoje as coisas estão melhorando. Antigamente, eram 100 pessoas assistindo campeonato feminino. Hoje em dia já tem cinco mil”, ressalta, relembrando a última transmissão em que participou.

Jogadoras profissionais ainda não tem a mesma visibilidade que homens pro players, mesmo assim estão cada vez mais ativas, lutando por seu espaço e reconhecimento na indústria.

No começo de outubro aconteceu em São Paulo o circuito global Girl Gamer Festival. A vaga para o mundial que acontecerá em Dubai em dezembro ficou nas mãos das brasileiras da INTZ. Em segundo lugar, o time argentino da Isurus Gaming levou para casa R$5 mil.

Para isaB as coisas começaram a mudar da água para o vinho esse ano. “Os próximos anos vão ser os melhores anos do cenário feminino. Acho que as pessoas e as empresas vão começar a dar maior ênfase”.

Quais mulheres pro players você conhece e já enalteceu hoje?
 
Meninas da INTZ comemorando a vitória no Girl Gamer Festival | CRÉDITOS: Draft5
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