25/02/2021 às 23h57min - Atualizada em 25/02/2021 às 22h29min

Netflix como portal Mainstream e utilização dos recursos digitais

A gigante do streaming já proporciona muito mais do que entretenimento

Maximiano Sousa - Editado por Ana Terra
Netflix é uma provedora global de filmes e séries de televisão via streaming. Hoje, ela possui mais de 160 milhões de assinantes. A Netflix é o maior serviço de streaming atualmente, isso se dá, em parte pelo seu pioneirismo na área, pois, por ter mais experiência, já sabe como lidar com certas situações, tem uma audiência fiel e estratégias inteligentes e bem definidas.
 
O serviço de streaming se encaixa como Mainstream, pois engloba a cultura popular, produzido pela sociedade de forma ativa e cultura de massa, algo que é feito exclusivamente para ser vendido, dentro dos padrões comerciais. As produções da Netflix costumam seguir estruturas já conhecidas pelo seu público e adoradas pela cultura pop, por isso vende. Como meio de comunicação, ou meio de entretenimento, no caso, a Netflix entra como parte de uma indústria, produzindo seus filmes e séries dentro de um esquema que já obteve bons resultados anteriormente, assim, ela se mantém dentro da corrente dominante.
 
Enquanto serviço on demand (sob demanda), a Netflix necessita de atualizações constantes em seu catálogo, porque precisa manter seu público aquecido e sempre interessado nos seus serviços. Por conta disso, acaba adquirindo e produzindo diversos filmes e séries, sem saber exatamente qual vai ser um sucesso e qual será um fiasco, seu principal objetivo é ter conteúdo novo para exibir. Pela alta demanda de entretenimento e grande quantidade de assinantes, o conteúdo também precisa ser bastante diversificado, adicionando o impasse da concorrência com outros serviços de streaming, a Netflix precisa estar sempre atenta a disponibilidade de produções do mercado cinematográfico, por isso acaba apostando em obras não tão conhecidas pelo grande público, mas que podem trazer lucros para ela. Para ilustrar isso, trago dois exemplos:
 
O primeiro, o filme O Irlandês, dirigido pelo aclamado diretor Martin Scorcese. Scorcese, considerado por muitos o melhor diretor de cinema vivo, teve seu auge nos anos 1970-80, época em que diversos estúdios o procuravam para lançar seus filmes, porém, em 2019, já havia contactado diversos estúdios de cinema para apresentar seu novo longa, mas todos se recusaram a financiar um filme com mais de três horas de duração. Fato que é bastante incomum na indústria cinematográfica atualmente. Quase que como último recurso, precisou recorrer a Netflix para produzir o seu filme e os resultados foram bastante satisfatórios: foi assistido por mais de 26 milhões de pessoas, somente na semana de estreia; teve nove indicações ao Oscar, entre elas a de melhor filme.
 
O segundo exemplo é o da série Cobra Kai, que chegou a Netflix em 2020, mas foi lançada em 2018, no YouTube Red, serviço de streaming não tão convencional no quesito filmes e séries. No YouTube, a série teve boa recepção em relação a críticas, mas foi somente quando estreou na Netflix que ganhou o grande público, chegando a quebrar o recorde de 50 milhões de acessos.
 
Analisando o primeiro exemplo, por que um estúdio se recusaria a produzir um filme de um diretor tão aclamado? A resposta é simples, porque ele não era um filme rentável dentro dos padrões comerciais esperados pela indústria cinematográfica. Um filme com uma duração tão longa seria exibido menos vezes ao dia, criando poucas seções e vendendo menos ingressos, logo, era um filme que, poderia ter sim uma ótima qualidade, mas não renderia tanto quanto um blockbuster padrão. Como a Netflix é um serviço sob demanda, a duração do longa não seria um problema, pois o assinante poderia assistir aquele filme quando quisesse, inclusive pausando e continuando quando bem entendesse. O fator bilheteria também não seria um impasse, pois, por prestar atendimento por assinatura, o valor do filme seria custeado pelas assinaturas mensais dos usuários, e o sucesso da produção seria medido não pela quantidade de dinheiro que arrecadou, mas pelo número de vezes em que foi assistido.
 
Colocando a Netflix e as redes de cinema em perspectiva como dois portais de mídia de massa, pode-se criar um novo conceito, o “mainstreaming”, que, como o nome sugere, consiste em portais mainstream via streaming. Produtos dentro da indústria cultural que são vendidos em um pacote sob demanda, eliminando os vários riscos que se tem ao produzir um filme ou série, tais como a não popularidade da obra e a arrecadação de dinheiro, visto que, como já dito anteriormente, o que está sendo vendido é todo o catálogo e não uma obra em individual. Produzir conteúdo direto para o streaming também é positivo para os cineastas, porque quando a sua criação é feita sem os riscos de rentabilidade, a sua única preocupação é com a popularidade de seu produto.
 
Destrinchando o caso do segundo exemplo, a não popularidade da obra inicialmente, se deu pelo portal no qual ela estava inserida. O YouTube surgiu como uma rede de streaming de vídeos, sem relação com conteúdo cinematográfico, mas decidiu entrar no ramo ao ver a ascensão de outros serviços, tal como a Netflix. Entretanto, o que se deu foi que o público que consome o seu conteúdo, não estava familiarizado com séries e filmes dentro da plataforma, o que acabou resultando no insucesso da iniciativa. A série Cobra Kai, foi feita dentro dos padrões comerciais e ao ser vendida para a Netflix, que já era uma plataforma conhecida por esse tipo de produção, obteve grande popularidade. Com base nisso, pode-se concluir que, o sucesso da série dentro do novo serviço, se deu em parte pela sua produção de qualidade e em parte pelo desejo do público em consumir exatamente aquele conteúdo.
 
Analisando a Netflix como influenciadora da massa que consome o seu conteúdo, pode-se citar o recente caso de “O Gambito da Rainha”, minissérie com o tema principal sendo o xadrez, onde uma órfã prodígio no jogo, luta contra vícios enquanto enfrenta os maiores enxadristas do mundo. A obra bateu os recordes da plataforma e foi assistida por mais de 62 milhões de pessoas, mas o seu efeito foi ainda mais longe. Após o lançamento da minissérie, a procura por tabuleiros de xadrez aumentou 250% no Ebay; as buscas sobre xadrez no Google aumentaram em 150%; o livro que inspira a série se tornou um dos mais vendidos do mês, 37 anos depois de ser lançado; o número de jogadores no site chess.com aumentou 500%.
Parte do sucesso da Netflix como serviço de streaming e portal mainstream, se deu pelo seu algoritmo bem estruturado e seu posicionamento nas mídias sociais. A Netflix não é uma empresa nativa digital, mas foi na internet onde encontrou maneiras de se diferenciar da concorrência de videolocadoras, se tornando pioneira entre as plataformas de streaming.
 
Superficialmente falando, atualmente, o algoritmo da plataforma funciona de forma a fazer você passar o máximo de tempo possível consumindo o seu conteúdo: quando você acessa pela primeira vez, é necessário que escolha alguns filmes e séries de seu interesse, essas obras são adicionadas a sua lista de produções para assistir mais tarde. Se baseando no que foi escolhido, o algoritmo deduz se a sua preferência é por filmes ou séries, quais gêneros você mais gosta e também separa um pacote de opções semelhantes para aparecer na aba de recomendados. A partir dessas informações, sempre que você termina de assistir um filme, por exemplo, um novo, similar ao que acabou de assistir, aparecerá nas suas recomendações. Caso não clique na sugestão e decida escolher um diferente, o algoritmo será alimentado e aprenderá cada vez mais sobre seus gostos, criando uma melhor experiência sempre que acessar o serviço.
 
Como citado anteriormente, o streaming é um meio de comunicação de massa, que tem como público milhões de pessoas, mas cada uma com seus gostos pessoais definidos, por isso, ao acessarem a plataforma, buscam aquilo que é de seu interesse. A plataforma da Netflix é um espaço virtual que funciona como um oceano que abrange toda a massa, e nesse oceano existem ilhas, que seriam os diversos nichos existentes, dessa forma, o serviço massificado consegue atingir os diversos gostos existentes, sem que nenhum deles entre em conflito diretamente.
 
No quesito Redes Sociais Digitais, a Netflix também se destaca pela forma como transformou o seu perfil profissional, que tecnicamente deveria ser um canal para dúvidas e divulgação de novos conteúdos, em uma persona totalmente interativa, onde sim, são prestados esses atendimentos, entretanto, o público se interessa em acompanha-la pela forma divertida em que se comunicam. A Netflix foi uma das primeiras empresas a buscar “humanizar” a sua marca, quebrando o paradigma de que organizações deveriam ter perfis somente comerciais. E por “humanizar”, deve-se entender como, transformar algo sistemático em algo mais íntimo, no caso da Netflix, posicionar suas mídias sociais como sendo amigo de seu público, buscando sempre criar um universo compartilhável, onde todos podem se comunicar de uma só forma, trazendo novamente a massa para o contexto.
 
Por se posicionar como uma persona a ser acompanhada, a Netflix cria uma abertura para colaborações com outros canais, como por exemplo, as parcerias com criadores de conteúdo para a internet. O serviço de streaming, como parte da indústria cultural, ao cooperar com pessoas que ganham a vida falando sobre tais produtos e que são acompanhadas por diversos clientes em potencial, acaba criando uma rede que se retroalimente por ser benéfica para ambos: o criador de conteúdo ganha mais notoriedade e credibilidade, ao se vincular com uma marca como a Netflix, e a Netflix ganha a atenção do público daquele criador, que poderá ser convertida em mais assinantes do seu serviço.
 
REFERÊNCIAS:
ANDRADE, Rafaela. O poder e influência da minissérie “O Gambito da Rainha”. Metropolitana FM, 2020. Disponível em: <https://metropolitanafm.com.br/novidades/entretenimento/o-poder-e-influencia-da-minisserie-o-gambito-da-rainha#:~:text=Baseada%20em%20um%20romance%20de,an%C3%A1lises%20feitas%20pelo%20Google%20Trends.&text=A%20busca%20pelo%20tema%20%E2%80%9CXadrez,de%202013%2C%20segundo%20a%20Google>. Acesso em 28 de dezembro de 2020.
GARÓFALO, Nicolaos. Cobra Kai | Série derivada de Karatê Kid trocará de streaming. Omelete, 2020. Disponível em: <https://www.omelete.com.br/series-tv/cobra-kai-deixa-youtube>.  Acesso em: 28 de maio de 2020.
PALAPOLI, Ygor. Cobra Kai: Entenda como a série foi do YouTube para a Netflix. Adoro Cinema, 2020. Disponível em: <http://www.adorocinema.com/noticias/filmes/noticia-155881/#:~:text=Prepara%20os%20golpes%20de%20Karat%C3%AA%20e%20vamos%20l%C3%A1!&text=Tudo%20come%C3%A7ou%20com%20a%20pr%C3%B3pria%20ideia%20da%20cria%C3%A7%C3%A3o%20do%20YouTube%20Red.&text=Eventualmente%20o%20YouTube%20mudou%20sua,mais%20lugar%20para%20Cobra%20Kai>. Acesso em: 02 de setembro de 2020.
PRADO, Jean. O algoritmo da Netflix que sugere filmes é bem mais complexo do que você imagina. Tecnoblog, 2016. Disponível em: <https://tecnoblog.net/191786/netflix-algoritmo-recomendacoes/#:~:text=Imagina%20s%C3%B3%20se%20as%20recomenda%C3%A7%C3%B5es,prefer%C3%AAncias%20pessoais%20de%20cada%20usu%C3%A1rio>. Acesso em: 17 de fevereiro de 2016.
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